quinta-feira, 20 de abril de 2017

Confusão e cansaço do eu


Na sala, os jovens conversavam sobre “Thirteen Reasons Why”. Uma moça cometeu suicídio, na série, e enviou fitas para treze pessoas que, segundo a história, significavam as razões do que ela fez. O filósofo Byung-Chul Han tem a tese de que vivemos um excesso de eu: o tempo de poder disciplinar, vinculado a instituições, arquiteturas e saberes, tão bem descrito por Foucault, e a sociedade de controle “a céu aberto”, dita por Deleuze, que são formas que acessam os indivíduos a partir de fora, são secundarizadas pelo controle do indivíduo sobre si mesmo. Ele é chamado para ter uma opinião, uma posição, uma opção. É chamado a desempenhar estas coisas, incluindo seu trabalho. O indivíduo é seu maior chefe, seu maior avaliador. Ele é seu próprio analista, porque não?

Mas, o que tanto ocupa esse eu? A tese de Han não deve ser entendida como um contraponto à tese da “pressão externa”, dita pelos jovens. Se ela for lida em conjunto com a ampla tese da esferologia, de Peter Sloterdijk, saímos da falsa separação estanque entre "eu" e "outro".

A esferologia de Sloterdijk diz o seguinte: na situação intra-uterina, placenta e feto formam uma esfera. Entre eles há tecidos, líquidos e vibrações. E eles ainda não são sujeito e objeto, feto e placenta, mas um aqui e um com. Cada um de nós é, desde o início, participante de uma dupla, um aqui, "onde estou?", junto de um com, "acompanhante de quem?". Sons externos são recebidos e causam vibração, no líquido amniótico. São filtrados, e vão formando um pré-psiquismo acústico naquele que poderá vir a ser a criança.

Então ocorre o que chamamos de nascimento, que é a separação da dupla. O recém nascido receberá ar, receberá a respiração da mãe, e então a voz dela. Mas essa voz vem depois da voz do anjo, um anjo sonoro, que acompa a criança. A mãe será o terceiro pólo da esfera. Em sua maioria, as vozes que habitam o indivíduo não são dele mesmo. São dele, pois nele penetraram. Mas, quando ele procura dizer algo "dele mesmo", mesmo que seja um pensamento, uma fala de si para si mesmo, isto ocorre por um certo compromisso naquilo que fala nele.

As esferas simbióticas feto e placenta, depois criança, anjo e mãe, sofrerão rupturas e reconstruções, para que novas intimidades possam ser formadas.

Para Sloterdijk, sujeito é aquele que se autoconsulta, escuta a voz interna que ele entende como sendo a dele próprio, e então se põe pra agir, se autodesinibe. No entanto, observa Sloterdijk, não temos conseguido nos descongelar. E não temos conseguido parar de agir meio que compulsivamente, o que é repetitivo, inercial. Temos precisado de consultores para nos dizer o óbvio, e nos alavancar para agir. E não paramos de agir da mesma forma, pois as vozes que circulam em nós são todas iguais a mim.

Han coloca que não temos experimentado alteridade, outridade, mas o outro como um diferente próximo, um diferente igual a mim. A personagem da série tem algo em comum com quem a assiste: um episódio tem uma emoção muito semelhante à outra, ocorre uma igualdade entre o 1, o 2, o 3... o 13. Treze vozes, treze episódios (não sei se a série tem essa quantidade de episódios, mas não importa para o que quero dizer), todas iguais a mim. Não busco a minha voz, dentre estas.

A menina se matou por treze razões, e deu a entender que as treze razões dela são as razões do outro. Ela morreu por razões que são dela e também do outro. "Jesus morreu pelos nossos pecados", mas veja o quanto ele foi sujeito, tendo feito o que fez por uma razão outra do que as dos pecados! A confusão de razões, da menina, acompanha a confusão da punição com aquele ato (quem ela quis punir, com a própria morte?). Adultos que também não conseguem se colocar para agir, ou que não conseguem discernir o porquê de fazerem o que fazem, e por isso não param, vêem a mesma coisa no jovem: ele tem tempo livre, não faz nada mas, se fizer, irá pela cabeça perigosa dos outros. Sua melhor companhia é uma série e, a partir dela, não sairá ponderando sobre as coisas, mas a tomará como um outro maciçamente colado ao eu, e que o levará para onde os personagens quiserem.

A personagem confunde as razões alheias como devendo ser a dela própria. Ela está distante de elaborar uma posição. Isso ocorre num momento em que o jovem é cobrado por ser um eu, uma identidade, um elemento seguro de pensamento e ação. Cansada desse eu que, ao ter que desempenhar, toma as razões dos outros como sendo as próprias, ela se matou.

Os adultos, a partir do justo temor pelos atos dos filhos, apostam que eles realmente farão essa confusão entre outros e si mesmo. Jovens e pais unem-se para falar que os primeiros sofrem pressão externa influenciadora. O que os pais não percebem é que estão lançando para os filhos a enorme demanda por serem eus, e também o cansaço disso.

segunda-feira, 17 de abril de 2017

Festa pré-pronta


Nos anos 70 os homens viam John Travolta na TV. Sábado à noite eles se produziam demoradamente, para se apresentarem na pista de dança. Havia festa, um tempo diferenciado. Hoje, produção continua sendo utilizado para o embelezamento, mas de mulheres, transformistas e gays. A festa está com eles. Às vezes, nem mais com eles ela está. Produção, no sentido de fazer algo para ser trocado por dinheiro, e tornar-se equivalente a tudo, roubou o momento da festa, do apresentar-se.

Agora cada um se preocupa em produzir algo que valha. Isso inclui vídeos e fotos para o Facebook. Importa produzir material que tenha um valor, não mais um produzir-se. Ou um produzir-se atrelado a produtos. Veja bloggers e vloggers, com seus livros e peças. O belo, que já teve seu sentido próximo ao justo, hoje ou é monetarizado ou não é importante. O justo tem sido um trabalho nada atraente. O charme está nos heróis e nos vilões, que tomam as coisas em suas próprias mãos, indivíduos que impressionam.

Na vida bela não existe mais o político e o politizado, tão preocupados com todos, com o mesmo empenho com que recusam-se à estética. A fala é desajeitada, tem uma afetação que vira marca (já reparou como cada palestrante midiático têm um problema na expressão, que se torna a sua marca identifidora? E a péssima dicção do Lula, que charme?), o cabelo é desarrumado, não raro apela-se para um comportamento imoral e inoportuno em sala de aula, nas ruas, nas instituições.

A polidez e a reserva, o produzir-se de forma bela não se encontra mais na política ou na sala de aula. O professor se esgoela, os alunos também falam desorganizadamente. Não há a beleza da precisão do conceito, de um texto bem escrito, de um tema bem debatido. As coisas são tocadas a toque de caixa para dar conta da próxima prova do Enem, de mudar rapidamente o comportamento de alguém. É o anti produzir-se belo.

Neoliberalismo e machismo não são a força de uma pessoa sobre a outra, mas de uma pessoa sobre ela mesma, obrigando a produzir-se. Produzir ideias, coisas, tudo com a marca "self made". A orbigatoriedade do assumir-se a si mesmo. Na dúvida, há um monte de identidades pré-prontas, aí, pra você vestir e sair rapidinho de casa.

P.s.:Inspirado na conferência "Tempo de celebração: a festa numa época sem celebração", de Byung-Chul Han. Este texto consta no livro "A sociedade do cansaço", do mesmo autor.

sábado, 15 de abril de 2017

Vida e pensamento


O compromisso da filosofia é com a verdade. Para se chegar à verdade, é preciso pensar. Pensar não é solitário: é uma conversa, às vezes da pessoa consigo própria, às vezes na presença de mais gente. A conversa filosófica, de amor ao conhecimento, precisa, é claro, da presença da filosofia, na figura de um filósofo.

Numa época pós-nietzscheana, não há fundamento absoluto para a verdade. No entanto, não dá para falar que ela não exista: entende-se que a verdade é contingente a contextos de conversação. Para o filósofo americano Richard Rorty, e necessário cuidar da liberdade pois, com a existência dela, a verdade surge. Em contrapartida, sair em defesa de uma verdade é temeroso. Quem está com ela? Quem a garante?

Defende-se, em filosofia, tudo aquilo que promove a liberdade e ataca-se tudo o que a prejudica. A liberdade que traz a verdade é a de expressão. E o que é expressão senão o que se apresenta no comportamento em geral, como a sexualidade, as crenças, a sensibilidade, as posições políticas, etc? A filosofia os defende, pois deles vêm novas perspectivas. E a produção destas perspectivas mantém nossas chances de obter verdades.

Esta defesa não é, contudo, das práticas em si: nenhuma prática ou posição é a priori boa ou má ou, quanto à possibilidade de gerar um saber, certa ou errada. Até mesmo a vida não é defendida a priori. Nietzsche desnudou nossa cultura darwinista que absolutiza a sobrevivência, tornando o homem um ser antes calculador do que potente.

As profissões que cuidam da manutenção da vida, vida no sentido biopolítico, de funções vitais descritas pela biomedicina e, interligadas a elas, as profissões que cuidam do dinheiro associado à manutenção e ao desenvolvimento de seres vivos, casam-se com um senso comum geral de que vida é um bem necessário, e que requer cálculo. Viver torna-se uma necessidade. O homem e a sociedade são carentes de vida, e orçam o valor disso.

Neste entendimento, vida não é vista como dádiva, cujo receptor também faz sua doação. Vida não é imprecisão. Não pode ser contemplação, por exemplo. Agora, pensando além disso, tudo bem que haja profissões de defesa da vida como uma commodity, mas também há de se almejar algo mais.

Sloterdijk* relembra a ideia do filósofo Arnold Gehlen, de que o desenvolvimento da espécie humana ocorreu com a manutenção, nos indivíduos desenvolvidos, de fatores somáticos e psíquicos imaturos. Segundo Gehlen, a neotenia faria do homem um ser em risco, diante do mundo, e carente de suporte. Por aí é que não vai Sloterdijk, ao dizer que o homem desenvolve invernadas para viver, ambientes protegidos animados justamente pelas feições infantis dos seus membros mais jovens, e bem sucedidas devido à capacidade humana, também relativa à imaturidade, de aprender por toda a vida.

No realismo pessimista de Gehlen, as populações são necessitadas, e só uns poucos indivíduos podem desenvolver o intelecto, pois ele é um supérfluo, um luxo de artistas. Sloterdijk diz o contrário: vivemos na sociedade da abundância e de proteções e cuidados e, mesmo para os mais pobres, há a referência de que o mundo gera riquezas das quais eles também devem participar.

A filosofia nunca se pôs como realista: se o mundo apresenta guerras, se há populações pobres, se a ignorância grassa, ela mantém um ideal de paz e desimpedimento no mundo, nos organismos e nas almas, para que possa haver a conversa que conduz à verdade. A filosofia pode existir no mesmo mundo dos psicólogos, os professores, os médicos, os políticos, os sociólogos, ocupados em sanar as dores, mas ela mantém um pé fora desse mundo (como o que próprio do contemporâneo, para o Agamben): pergunta o que é a vida, a riqueza, a juventude, a inteligência, a alma e, ao buscar condições de investigar, pergunta porque estas condições, em cada uma daquelas categorias, não são melhores do que se apresenta hoje, para que amanhã a investigação também seja melhor.

Então, por exemplo, se os joves podem se suicidar por causa da série de uma garota suicida, e psicólogos e professores correm para salvá-los, o filósofo vai pegar a vontade de se matar, e também a vontade de impedir isso, como um assunto de investigação ampla. E essa investigação, enquanto experiência de pensamento, pode ser a própria geração de vida, para jovens já vivos, curiosos. E talvez para adultos mortos-vivos.

Chamamos alguma coisa de "vida real" por termos necessidade de que tenham necessidade de nós: o mundo precisa ser salvo, as pessoas precisam sobreviver, a partir de mim. A realidade, aqui, é antes a da necessidade do que a de uma vida ou um mundo num sentido mais bruto, o de sentidos e experiências. Se fosse possível colocar em questão a necessidade, o sujeito necessário sentiria vertigem de falta de mundo. A "vida real" é irreal. Seus salvadores, ao oferecerem seus préstimos, estão a pedir salvação para eles mesmos.

Será que há o que ser salvo? Minha geração ficou marcada com a extinção do Mico-Leão dourado. Não ouço mais a palavra extinção. No Brasil há índios. Os jovens mostram o que é viver, hoje. Ouço por aí a expressão "não estou sabendo lidar", utilizada para quando algo foge do esperado pelo falante. O falante lida com uma porção de coisas. Tudo é livre. Então tudo acessa o jovem, e ele vai reagindo. Ele tem seus desempenhos. Mas há algo com o qual ele não "está sabendo lidar". Não é algo ruim para mim, ou para todos. É demais para ele. Ao falar isso, já se está lidando com a coisa. Ela foi posta de lado, e pronto. Nada se perde, ou se necessita. Mas uma coisa ou outra vai sendo posta pra escanteio. O mundo, em nenhum sentido, acabará. A vida, em nenhum nível, está em risco.


*Paulo Ghiraldelli Jr. conta isso em "Para ler Peter Sloterdijk", editora Via Veritá, Rio de Janeiro, 2017.

sexta-feira, 14 de abril de 2017

A preocupação com as treze razões


Não assisti ao "Thirteen reasons". Assisti às opiniões de algumas pessoas sobre esta série. No texto "Luto e melancolia", Freud conta que o estado melancólico é o sofrimento decorrente da perda não de um ente amado, mas de uma abstração amada. Não se sabe exatamente o que foi perdido, mas o ego do melancólico não cessa de se recriminar pela perda. Ao contrário da pessoa em luto, que culpa o mundo por ter lhe retirado o objeto amado, o melancólico tem uma doença narcísica: ele identifica-se com o objeto amado perdido. Desde modo, é o próprio eu que está perdido.

O eu vazio de sentido não é o modo atual de sofrimento, segundo o filósofo coreano Byung-Chul Han. Em "Sociedade do cansaço", ele apresenta a ideia de que estamos não em uma época de perda ou de negatividade, mas de sempre mais, de positividade. O sofrimento atual se dá por um excesso de eu. Minhas ideias, meus sentimentos, meus projetos, minhas regras, minha militâncias, meu desempenho: sou obrigado a ser eu mesmo. E não há outros, não há alteridade, mas diferenças tomadas sem estranheza, sempre familiares.

Uma menina comete suicídio. Ela apresenta treze razões diferentes para ter feito isso. Cada razão refere-se a uma pessoa que ela conhecia. Estas pessoas e razões são apresentadas pela menina como razões para ela ter feito o que fez. Adultos disseram-se preocupados com os jovens que assistem à série. Haveria o risco de que o comportamento da personagem fosse imitado: um risco de que o jovem também fique cheio de si. Opiniões ou motivos oriundos de 13 outros, por serem 13 outros familiares, encheram o si mesmo da menina. Ela não tomou nenhum deles como estranho a ela, como um "ei, isso não me cabe!". Estar cheio de si pode ser "estar repleto de si mesmo". Seguindo com Han, estar cheio de si leva a que se fique "cansado de si mesmo".

De acordo com o filósofo alemão Peter Sloterdijk, nossa sociedade não conhece a necessidade e a gravidade, na medida em que há superprodução de tudo (embora, em muitos lugares, a sua distribuição seja profundamente desigual), associada a sistemas de bem-estar e à possibilidade de se requerer mais e mais liberdades. Temos tudo para voarmos como balões, subindo indefinidamente. Não há pesos necessários mas, por isso mesmo, há pesos escolhidos. A leveza é insustentável.

Paulo Ghiraldelli Jr., em "Para ler Peter Sloterdijk", conta de uma vez em que o Rei Luís XVI concedeu aposentadoria para o cabrito Montauciel e seus parceiros, um pato e um galo. No dia 19 de setembro de 1783, os três animais subiram em um balão a partir do pátio do Palácio de Versailles. Subiram e voltaram em segurança, e repetiram a façanha em outros lugares.

Aqueles que se preocupam com a falta de peso dos jovens que assistem à série temem que eles voem tão alto quanto a personagem suicidada. Sim, porque as treze razões enchem o eu de si mesmo, mas não o pesam. Pelo contrário! São treze insufladas de gás, que deixam o eu mais cheio, porém com mais capacidade anti-gravitacional.

A depressão da personagem não é a freudiana, paralisante, mas uma depressão que leva até o fim as razões que há em si mesmo. A personagem não tomou para si qualquer peso, pois nada a segurou. Há, nos que se preocupam, a lembrança de Laika. Durante a "corrida espacial", na competição contra os EUA, a URSS enviou para o espaço a cachorrinha Laika, numa viagem que se sabia sem volta. As razões dos responsáveis fizeram-na voar indefinidamente. A antecipação da morte de Laika não foi um peso, não interrompeu as intenções que levaram ao vôo.

Treze razões fizeram com que o poder de ação da menina da série fosse maior do que o de qualquer sujeito. Continuando com Sloterdijk, sujeito é aquele que tem duplos pensamentos. Da mesma forma como ele diz querer alguma coisa, e procura fazê-lo, em outro momento ele pode afirmar outra coisa, e realizar uma ação diferente. Portanto, não se pode confiar na sua capacidade de realização: ele não é um autômato, e pode não agir. Assim, curiosamente, é que é um sujeito!

A menina das treze razões não possui espaço para dar um passo atrás. Ela encheu-se de 13 pessoas diferentes, portanto iguais a ela. Ela é um eu, sem dúvida, mas não é um sujeito. As 13 razões a coagem. As razões e as pessoas que a insuflaram, a positivaram. Não a fizeram estranhar-se, não a negativaram. Falo isso sem ter assistido à série, pois é sobre essas coisas que os semi-leves têm comentado.

sábado, 8 de abril de 2017

Maneiras de lidar com o tesão do mundo


Um homem com idade próxima a 65 anos pode se relacionar com uma mulher de sua mesma idade. Com seus próprios amigos ele conversa sobre as mulheres em geral, fala do peitinho de uma, da bundinha de outra, que quer comer alguém, etc. Ele pode usar essas mesmas palavras com uma mulher com quem ele convive no ambiente de trabalho. Essa mulher pode rir dele, dizendo que ele não dá mais no couro, embora já tenha notícia de que existe o Viagra, e que, por isso, os homens mais velhos ainda estão trepando. Os que têm sorte, diga-se.

Aquele brincalhão é um desses que mandam bem? Ou é só um falastrão? Cada idade tem seu ideal, seus desafios e suas brincadeiras. O homem de 65 fala aquelas coisas como provocações. Caso das brincadeiras surja algum caso, tudo bem. Mas a intenção daquelas palavras é a de ser uma brincadeira picante.

Na minha idade, 35, a palavra picante já não existe. É a geração do pornô e das ficadas que, com sorte, dão em transa. Repare na mudança de palavras com relação aos de 65. Homens da minha idade não brincam daquela forma com mulheres de sua mesma idade. Com mulheres mais novas, menos ainda. Já com mais velhas, talvez ele brinque, quando elas lhe cobram ser homem.

Aos 35 se sabe que os mais novos do que 20 conversam de outra forma entre si, e também com eles, de 35. Entre essas idades, jamais se fala em sexo, exceto quando se é um professor ou um midiático que “representa um jovem”. Em outras situações, a conversa sobre sexo, entre essas idades, gera um clima de inadequação: um adulto se aproveitando de alguém inocente, influenciando.

Dos 20 para baixo a preocupação é grande em não ser influenciado por outros (os com mais de 30). Os garotos são os que mais fazem sexo, mas tambem são aqueles que menos querem isso exposto para os de fora. Por isso é que eles vestem moletons uniformizadores, que não dão a ver suas particularidades e, assim, não os expõem ao anzol do influenciador. Mas o influenciador sobre eles não tem poder. É só um chato.

Esses jovens estão alertas para se o tesão dos 30 anos não estupra alguém. São vigias de situações de violações, de influência. Essa adolescência vigilante perdura até além dos… 40! Nesses casos, a pessoa usa mais seu tempo vigiando e se queixando do tesão do mundo do que fazendo sexo, transando ou trepando.

Aos 20, um rapaz pega um outro rapaz, tão naturalmente quanto pega uma menina. Para ele, isso não é ser gay. Ele não sabe se é o caso de atribuir uma marca ao que rolou, pois um rótulo pesa. Às vezes ele está namorando uma menina, quando pegou o outro. Ninguém fica constrangido. É como um parque de diversões em que muito é permitido, mas no qual só se pode entrar quando se está abaixo de uma certa idade.

Um homem de 65 anos não é autorizado pelos menores de 20 a fazer parte do parque de diversões de tesão, destes. A não ser que seja como um professor, que reserva seu próprio tesão para os seus iguais. Um homem de 35 anos deve tratar aqueles mais novos como café com leite, em relação ao sexo, jamais investindo em relação a eles. Um homem de 65 anos, quando o faz, é visto como um vovô monstruoso. O de 35, como criminoso.

Os de 35 têm conhecimento do tesão dos de 65, mas querem o seu pudor, com relação a eles. “Um absurdo uma velha com roupa de novinha.” “Ridículo o vovô-garoto.” Quando estes de 35 ainda estão na adolescência, volto a dizer, tendem a ver não como inadequado, mas como monstruoso ou nojento o tesão aos 65.

Eu vejo homens de 65 falando da bundinha e do peitinho das mulheres, usando esse vocabulário que eu não uso. Usando-o em brincadeiras ousadas, feitas mesmo entre estranhos. Estas brincadeiras não deveriam ser perdidas, sob a pena de, ao adolescelentizarmos as conversas entre todos, criarmos medo em quem não é adolescente. E uma herança de infantilidade, para estes.

segunda-feira, 3 de abril de 2017

A inospitalidade: uma leitura de "Dom Casmurro", a partir de Peter Sloterdijk


Certo dia, os olhos de ressaca de Capitu mostraram-se para Bentinho: a onda que se lançou para a areia retornou arrastando tudo para dentro. Bentinho tentou segurar-se. Arrastado, entrou em Capitu. Percebeu a existência de um fluido misterioso e enérgico a atuar ali.

No livro “Esferas”, Peter Sloterdijk apresenta a teoria de Marsílio Ficino, filósofo florentino do século XV, sobre o enamoramento: dos olhos saem raios que, ao atingirem o alvo, permitem perceber os objetos. Quando dois seres humanos trocam olhares, o espaço entre os olhos torna-se um campo de irradiação de energias. O olhar mais forte injeta nos olhos do outro os próprios conteúdos. Um espírito vital, uma névoa muito fina de sangue vaporizado, invisível, assim é transferido. O sangue sai do coração do dono dos olhos fortes, na forma de vapor e, como uma flecha, atinge e penetra nos olhos daquele que se enamorará. Dentro deste corpo o sangue voltará a ser líquido, e então se alojará no coração como um enfeitiçamento ou uma infecção. O coração e todo o organismo do atingido passarão a querer ardentemente o dono daquele sangue.

A dona dos olhos de cigana oblíqua e dissimulada apaixona Bentinho. Em outro momento, Bentinho, sem qualquer experiência anterior, penteia os belos cabelos de Capitu. Faz-lhe um penteado. Por fim, dá-lhe um beijo nos lábios. Ambos afastam-se, de espanto. Bentinho quis acalmar Capitu, porém a mãe dela se aproximava. Então ele foi para o próprio quarto, e vibrou, comemorou. "Eu sou homem", ficou repetindo para si. Isso parecia indicar que ele não se submeteria mais às vontades da própria mãe. Dona Glória havia perdido o primeiro filho. Então prometeu a Deus que, caso lhe viesse um segundo, este seguiria carreira eclesiástica. Era chegada a hora de Bentinho ser enviado à revelia para o seminário. Ele não podia, enfim, evitar isso.

Aquele beijo é a mais doce das memórias do narrador Bentinho. "Os lábios aguçados envolvem o confeito, abandonam-no cerimoniosamente no espaço bucal onde a língua, com meneios impacientes, finalmente o recebe. A doçura se expande, se abre em um pequeno 'o' lisonjeador, para logo transformar toda a boca em uma bola doce que pulsa melosa e avidamente, e que se amplia para absorver cada vez mais. O próprio degustador se arredonda e continua existindo apenas como a periferia fina e cada vez mais tensa dessa esfera de doçura". (Citação de Friedrich Heubach, em Esferas, do Peter Sloterdijk, página 85).

O herói pos na boca o caramelo. Bentinho entrou na boca de Capitu, e passou a existir como um círculo dentro dela. O doce beijo fez um mundo oval, em que ambos passaram a co-habitar. Sloterdijk explica que o herói tem aversão ao adocicado. O gozo oral é inimigo do Grande Homem, daquele que sai de casa. O beijo de Capitu e Bentinho fez um mundo fora do tempo, para a habitação de ambos. Bentinho teve que ir ao seminário, onde passou alguns anos. Passou outros tantos anos na escola de direito, mas mas sua vida com Capitu não passava.

A mãe de Bentinho considerava que entregá-lo a Deus era uma forma de tê-lo. Com Capitu, Bentinho fazia promessas também para Deus, mas como para um terceiro, que compunha aquela união. Meter-se no tempo para envolver-se com Deus, e então ser de sua mãe, não lhe fazia sentido. A partir do interior da união fora do tempo, com Capitu, ele compôs-se com Deus.

Capitu não se dobrava à vontade de ninguém. A irritava o fato de Bentinho dobrar-se à vontade de sua mãe. José Dias uma vez acusou a dissimulação da moça. Capitu é um sujeito, sempre mantem suas intenções, mesmo que não as mostre. José Dias tenta ser sujeito, movendo-se para conseguir o que quer. No entanto, ele exibe as próprias intenções, só que com uma subserviência matreira. Bentinho não formula sua intenções por conta própria e, quando finalmente as têm formuladas, continua precisando do direcionamento de Capitu.

O narrador Bentinho fala das características de todos os personagens, mas deixa de dar as suas próprias. Voltou dos estudos, casou-se com Capitu. Sloterdijk fala do retorno do herói explorador ao lugar de onde ele veio: o interior de sua mãe. Dona Graça queria que Bentinho fosse padre ou advogado. Mas ela não o queria distante. A mãe acolhe de volta o filho que um dia saiu. O útero confere identidade, dá nascimento ao Grande Homem, um segundo nascimento. Mas o útero para o qual Bentinho voltou foi o de Capitu. Esse útero, porém, produz um outro filho, outro devido aos modos diferentes que apresenta. Fossem os mesmos modos de Bentinho, seria uma continuidade dele mesmo dentro da mãe. Com aquele filho, Bentinho não se identificava. Talvez nem pudesse, pois ele mesmo não completara sua gestação.

Diante da porta da caverna, a vagina de Capitu, Bentinho estacou. De onde veio aquele outro, que lhe atrapalhava o nascimento? Bentinho já havia percebido os olhares de Capitu aos jovens, na rua. Na Odisseia, Ulisses, em seu retorno a Ítaca, deu uma pausa de sete anos, tempo em que viveu com a ninfa Calipso. Ele havia enfrentado a longa e dolorosa guerra de Tróia. No retorno, escapou de gigantes comedores de carne humana e de mares perigosos. Agora a bela ninfa lhe oferecia descanso eterno, vivendo de sua glória na guerra. Ulisses, porém, sofria com saudades de casa. Ele precisava voltar, como que para realmente existir, ser o homem que fizera aquilo tudo que os aedos já cantavam. Ele sabia que se prosseguisse viagem enfrentaria outros perigos. Se ele ficasse, poderia viver para sempre, mas não teria nascido.

Ulisses, então, empreende o caminho de volta, enfrentando perigos maiores do que poderia imaginar. A deusa Atena sempre o acompanha. Quando ele chega em Ítaca, Atena o disfarça de mendigo, deixando-o irreconhecível para todos que conheceram há 20 anos, o tempo total em que ele passou fora. Aos olhos de todos ele não era ninguém, por isso um observador privilegiado para saber quem respeitava sua honra, ou seja, quem profanava seu útero. Encontrou diversos homens maltratando seu filho, Telêmaco, também gastando à vontade os seus bens e insistindo afrontosamente para que Penélope, a mulher dele, os desposasse. Cuidadosamente, Ulisses prepara sua vingança, e a executa sangrentamente. Assim, Ulisses presentifica sua lenda. Não é o "felizes para sempre", de uma história, a realização do segundo nascimento de um herói? Nascimento enquanto afirmação de identidade?

Bentinho viu à distância pretendentes de Capitu, mas nenhum se aproximava. Quando nasceu o Filho do Homem, nome que José Dias atribuíra Ezequiel, Bentinho não soube contra quem lutar. O resultado das outras trocas de olhares de Capitu, as quais ele não sabe direito o que houve, estava ali, diante dele. "Uma ponta de história, o início, não se atava à outra, o final".

Importa a este texto a dificuldade de Bentinho em nascer novamente, em ser Um Homem. Não importa, aqui, se Capitu o traiu ou não o traiu. Bentinho enviou-a, com o filho, para a Suíça, onde ela passou o resto dos seus dias. Bentinho lembra com muito carinho da menina que o capturou. A Capitu adulta está embaixo da terra. Este útero que não pode lhe dar nascimento.

Mesmo depois de adulto, Bento Santiago ainda era Bentinho.


Imagem:"Os Amantes de Veneza", de Paris Bordonne, século XVI.

domingo, 26 de março de 2017

Ponha-se em um lugar melhor


Acompanho como psicólogo um jovem de 16 anos. Todos os dias de manhã ele está na escola, cursando o segundo ano do segundo grau. Às tardes ele revisa as matérias, faz exercícios, estuda para as provas. Em tudo isso eu o ajudo. Cada atividade dessas ocorre entremeada a uma gesticulação e comportamentos pertencentes a um mundo particular dele. Mundo particular todos temos, e sempre a partir deles é que agimos. Mas V., assim como outros autistas, interrompe qualquer atividade que lhe solicitem, ou nem a começa, para fazer o que ele sugere a si mesmo. Mas, só fazemos o que sugerimos a nós mesmos. Para o filósofo alemão Peter Sloterdijk, sujeito é aquele que se autoconsulta e então se autodesinibe. Qual a particularidade do autista? Talvez seja que a voz interna dele fique distante das outras vozes, que não são dele. E que ela seja autoritária.

Na matéria Literatura, o professor dita a teoria, recita a poesia, empolga-se ao falar sobre romantismo, realismo e naturalismo. Ele diz que aquela turma é animada, amiga e mal comportada. Ele chama o V. para falar o que pensa da turma.V. o realiza. O professor pergunta se os alunos o ouviram bem. "Isso foi dedicado a vocês", e uma lágrima lhe corre as entradas do rosto.

A coordenadora da Educação Especial, na escola, determinou que o V., por seu aprendizado mais lento do que o dos outros, e o tempo maior que leva para fazer uma prova, fizesse metade das provas neste momento e a outra metade faltante quando viesse o segundo período de provas. Vinícius tem estudado comigo na véspera para responder à prova do dia seguinte. Algumas noites ele está agitado, incomodado, bufa. Outras nem tanto, e me expulsa de sua casa sorrindo. Sorrindo, no dia seguinte ele chega, e anda pela escola e logo senta. Noutros dias entra correndo, com todo o seu mal estar, dando pequenos gritos.

A mãe diz do ano passado, em que eu não estive com ele (as pessoas sempre falam de um passado mítico, a um interlocutor que não o viveu), que V. cumpriu todas as provas e terminou o ano em completo surto. O psiquiatra até proibiu novas exigências. A mãe não quer de jeito nenhum isso acontecendo de novo, e diz que neste ano já tem havido um crescente mal-estar por parte dele. Eu retruco, com a observação de que ocorre uma renovação de um dia para o outro, e de um final de semana para a segunda-feira.

O professor de Literatura, ao saber que não estava programado que V. fizesse a prova dele, pediu para que eu arrumasse de ele fazer a prova. Levando o assunto à mãe, prontamente foi recusado pois, ela disse, as provas são todas estressantes para ele. Além disso, as matérias se encontram acumuladas, e fazer mais uma prova significa perder mais um dia de aula e de estudo à tarde. Uma palavra que define o professor de literatura, coloquei à mãe, é "amoroso". O amor pode ter uma definição bem simples: é alguma coisa que leva alguém a querer algo, assim como o ódio é alguém não querer algo. O professor quer os alunos, e sua prova é um presente, um mimo. Não é uma prova para que se prove, mas para que se prove, experimente-se, tenha-se prazer.

A mãe falou que, para V., a escola, os exercícios e as provas são coisas mecânicas. Uma ideia do Sloterdijk eu falei (e é a segunda que aparece aqui), adaptada à situação de fala: todo homem é dado a fazer algo como um exercício, de modo que amanhã o faça melhor. Ressaltei o "todo", incluindo, então, os autistas. No começo de sua carreira de psicóloga, ela disse, passava 10 horas por dia trabalhando em escritório. Saía correndo de lá, para atender. Aquele trabalho ela não queria fazer melhor, ela disse. Se ela fizesse pior, demoraria mais tempo, eu disse. Também seria penoso para ela o dia em que demorasse mais no percurso entre o trabalho e o consultório. Ou então, tal trabalho era mesmo miserável, não oferecia nenhum ganho humano para ela.

Nenhum exercício é pouca coisa, é um mero exercício. O homem é um ser de exercício. A miséria da mãe não tem que ser a do filho. A mãe diz que um problema que eu tenho é não me colocar no lugar de V.. Em que lugar me coloco? Não trabalho para que V. não surte. Trabalho para que ele, após fazer um exercício, sorria. Isto já aconteceu. Trabalho para que ele tenha experiências, momentos prazerosos e interesse pela escola. Muito se diz, com o nome de psicologia, em colocar-se no lugar do outro. É um senso comum. Prefiro me por num lugar melhor.

"V., você quer fazer prova de literatura?", pergunta a mãe ao filho. "Eu quero." "Você quer fazer a prova de literatura depois das outras?", nova pergunta. "Aí não. Não quero fazer no mesmo dia." Esta pergunta o confundiu. "Não, fazer em um outro dia?" "Ah, quero.". Sugeri que ela perguntasse ao filho porque ele quer. "Quero ficar mais esperto".

sexta-feira, 17 de março de 2017

O terror de ser um igual


Os homens se relacionam com objetos, assim como se relacionam com outros homens e consigo mesmos. Digo isto sem apontar como algo ruim. Os homens querem ter coisas, querem dar coisas. Crianças querem ganhar presentes: isto mostra para elas que são amadas, que estão no escopo de dar, de um adulto.

No mundo sempre se está dando algo. Se você tem algum dinheiro a mais, ou tempo a mais, e usá-los só para si mesmo, poderá se sentir sozinho. Nem sempre o si mesmo é uma companhia clara. Então dar presentes, assim como passar um tempo com o outro, é um carinho. Carinho em si mesmo. Este dar de si no mundo da generosidade é o que falta àquele que não tem. O indivíduo que não tem o que dar vale menos. “Não se espera nada dele”: isso o destrói. “Dele eu espero algo grande, que não sei bem o que é.”: esse vai longe.

A questão não é ter ou não ter, mas ter para aparecer ou não ter para aparecer. Aqueles que não têm, que nunca foram vistos como alguém à altura de dar, têm tudo para roubar. "Já que não dou, eu tiro. Assim você me reconhece." E é uma miséria querer ser reconhecido. Então não se trata de esperar para receber de quem tem, mas de ser aquele que determina quando quem tem dará ou não. Ghiraldelli conta, a partir do filósofo coreano-germânico, Buyng Han (http://ghiraldelli.pro.br/filosofia-social/somos-todos-terroristas-sociedade-contemporanea-e-individualismo-partir-de-buyng-chul-han-e-peter-sloterdijk.html) que a ação que visa causar impacto é uma tentativa de singularidade no mundo da igualdade de todos. Não ser só mais um consumidor, ou só mais um bandido. Ser O Consumidor, O Bandido, é o que importa.

Na sala a menina fala ao professor que uma vez foi à delegacia reclamar de ter sido roubada, e o policial não fez nada. Ele não diria para ela as histórias de grandes crimes, grandes bandidos, que conta aos colegas. Dessas histórias, ela não tem qualquer participação. Se ele lembrar, contará aos colegas sobre o quanto, frente ao que é grande, deixa de atender ao pequeno. O crime que ameaça o indivíduo é um drama pessoal, o outro que o subtrai. Este crime, um atentado bastante subjetivo, é tomado pelo policial como meramente subjetivo, querer chamar mais atenção do que os grandes crimes. Assistimos aos crimes como novela. Já que são abstratos, dão um crime-novela.

O crime pessoal é o que me faz sofrer, é meu drama. Para mim, é a pior coisa, e contra quem o cometeu eu quero a pior punição. Isto é pleiteado com força, justamente porque ninguém reconhece meu sofrimento em não poder mais dar. Ou melhor, riem dele.

O crime que me singulariza, como vítima ou bandido, é tomado como coisa nenhuma. A minha perda, ou o meu ganho, são triviais. Os objetos de que eles tratam são ridículos. Agora, falar de grandes crimes, grandes bandidos e grandes policiais é falar de objetos que importam. Esses personagens giram em torno desses objetos. O bandido tocou o terror. A vítima sofreu o terror. O policial também tocou o terror. Ninguém quer ser um qualquer. Na sala de aula, grandes são as ideias. A elas, o professor subordina os casos em que a polícia diminuiu a menina, ou aquele em que ele mesmo esteve sob a mira de uma arma. Mas a menina parece querer se singularizar mais pelo que passou com o policial do que com o fato de ser aluna. Lógico, o que é um aluno? Ou um professor?

terça-feira, 14 de março de 2017

Juventude contemporânea


Na sala de aula, a jovem observa ao professor: "Contemporâneo é uma palavra que me parece vazia. Todos dizem isso. Eu acho que é balela." O professor, após anos, talvez décadas de estudo, fala que o contemporâneo é uma ideia do presente. A jovem, por sua vez, está fora do presente, e também está dentro do presente, como Agambem, em "O que é o contemporâneo", leva a dizer.

Contemporâneo é aquele que odeia o seu tempo mas não arreda o pé dele. A academia usa a palavra "contemporâneo" em todos os seus textos, sem conceituá-la, ou seja, sem dar a ela um caráter universal, e por isso mesmo discutível (a má formulação é indiscutível). Esta palavra, então, acaba não saindo do senso comum, e não servido em nada para observá-lo. A pergunta da jovem mostra esse furo dos teóricos, esse desconhecimento que eles não percebem que têm.

A jovem mostra que formulações imprecisas não a satisfazem, não respondem às suas urgências. Estas urgências são sempre presentes, e delas a jovem lembra enquanto escuta do professor teorias contemporâneas. Ela percebe, ainda seguindo com Agamben, a escuridão que acompanha as luzes do presente. A jovem é de fato contemporânea porque está no presente e o mesmo tempo consegue olhar para ele. A vida do dia a dia é a motivação original de todas as teorias: a pergunta feita em sala traz essas questões não resolvidas, e que a todo momento se insinuam, inconvenientes.

Enquanto alguns se regozijam por suas teorias, que apontam para diferentes direções, aquele que está insatisfeito, que procura uma formulação que o ajude a convencer o seu pai obtuso (e se não o faz, ele próprio não se convence verdadeiramente, pois os problemas da vida não se separam dos resmungos do pai), quer um fio para atar as antigas urgências e aquilo que se põe como o presente. A jovem marca uma ruptura com o professor, ao mostrar que a prática da teoria não a atende, e que talvez não atenda mais ninguém verdadeiramente. Mas ela permanece escutando as aulas, quer se formar, só não esquece o que a levou ali. Da mesma forma como ela separou um passado insistente de um presente que não se enxerga, ela pode dizer algo diferente do que andamos pensando.

segunda-feira, 13 de março de 2017

Jovem adulto




Entre crianças de 5 anos, um adulto brinca. Corre, é o Lobo Mau, o monstro. Foge do Lobo Mau, do monstro. Senta e é pintado. Pinta de volta. Algumas crianças vêm e dão-lhe tapas.

Entre jovens de 15,16, um adulto conta piadas no intervalo do estudo. Suas tiradas engraçadas fazem a maioria rir. Alguns jovens o excluem do grupo de bate-papo, da turma.

Nas duas situações o adulto está fazendo algo que foi recentemente superado pelos indivíduos do grupo. Ou melhor, o que eles querem deixar para trás. Incomoda quando há alguma perturbação desse amadurecimento, dessa mudança de comportamento, desse aprendizado de certo autocontrole.

Crianças não riem de piadas: são coisa se "adulto maluco". Elas gostam do adulto que corre e cai no chão, pois isto elas já deixaram bem para trás, e virou brincadeira.

Que o colega excepcional se apresente mais infantil, vá lá. Mas o adulto deveria ser o exemplo de obediência ao Totem, e por isso mesmo mostrar as recompensas das renúncias que todos têm que fazer. Isso falando com Freud.

Falando com Sloterdijk, o sorriso de cada um, assim como todo rosto, é desenvolvido com uma mãe. Ali na escola, o que cada um tem para dar é o desempenho após bastante exercício. O clima é de certa apreensão. Nos intervalos eles se divertem, dão e recebem sorrisos, e excedem-se em movimentos corporais e palavras. O adulto entra como parceiro, mas enquanto contraponto, pólo avançado que deve puxá-los para o exercício.

Todo adulto, só por sua presença, já intimida o jovem. É implacável o destino daquele que só oferece graça, e não o desafio que o jovem quer.

quarta-feira, 8 de março de 2017

O trabalho dos sonhos


Saiu em uma reportagem que o ator Mario Gomes vende sanduíche na praia (http://m.extra.globo.com/famosos/aos-64-anos-mario-gomes-vende-hamburguer-na-praia-fazendo-uma-experiencia-21022042.html). Segundo alguns comentários no face, não há problema nenhum nisso, pois é uma "ocupação honesta". Na reportagem, o ator afirma estar dando os primeiros passos para um food truck. Olhando diretamente para o caso, temos um ator vendendo sanduíche na praia. Um ator deveria atuar, não fazer outra coisa.

Existe o trabalho de ator, com remuneração. A partir disso, o ator paga seu sustento e o de sua família. Um ator vendendo sanduíche na praia é algo errado, no sentido de "fora do lugar". Mas no imaginário comum, o trabalho do ator é um dos menos associados a remuneração e sustento: é visto como algo meio mágico, cuja capacidade de se realizar vem por mágica ("ele tem um dom") e o seu resultado produz efetiva mágica na terra ("ele nos encanta, sua atuação é sublime"). Alimentar-se e pagar a conta de luz, entre outras coisas, não é visto como estando associado ao trabalho do ator. Por isso, o que nos causa embaraço não é Mario Gomes vendendo sanduíches na praia, ou fazendo qualquer outra coisa para se sustentar, mas a mancha na aura de ator.

Talvez Mario Gomes esteja vendendo sanduíche na praia porque neste momento o que ele recebe como ator (atualmente ele participa de uma série) não faz frente aos seus gastos. Vender sanduíche na praia, então, viria a cumprir essa função. Lógico que "é honesto", não apenas no sentido de que não é o roubo de ninguém, mas no de que satisfaz necessidades objetivas. Na expressão "trabalho honesto" também há esse sentido de "trabalho que satisfaz demandas objetivas". Mas como podemos encarar um ator com necessidades objetivas? Nunca cobramos do Tony Ramos que ele coma um bife da Friboi.

A existência de reportagem e dos comentários a ela mostram uma razão não enunciada: o ator é para estar num palco e ser admirado, e o homem que é o ator não deveria fazer um trabalho para se sustentar. De que forma olhamos para um gari ou para um frentista? Como pessoas que ganham seu pão. Excetuando os momentos em que negamos a valorização do espetáculo, e reagimos a ela, querendo valorizar o "ganha pão" (quando dizemos "o gari tem uma profissão tão nobre quanto à do médico"), valorizamos trabalhos ao quais atribuímos certa aura.

A desvalorização do professor correu no passo das suas greves (pensamos que o professor é um "morto de fome"). Não damos aos médicos, aos atores, aos engenheiros ou aos juízes o mesmo direito a fazer greves, a ter necessidades objetivas. Essas profissões possuem uma essência transcedente, são o que a sociedade quer comentar, são ideais de profissões.

O outodoor de uma universidade pergunta: "Sucesso financeiro ou sucesso profissional?". Uma falsa pergunta, não porque a profissão deva acompanhar o dinheiro, ou vice-versa, mas porque a palavra "sucesso" refere-se, de uma tacada só, a ser incrível, um especialista, um mago, e também a nunca perguntar o preço de nada, nem olhar para o interior da própria carteira.

A profisão que almejamos não pode parecer em nada com algo que dê trabalho, também não deve referir-se a nenhum custo ou necessidade concreta de quem trabalha. Mostrou-se do Mario Gomes um lance de bastidor que ninguém queria ver.

sábado, 4 de março de 2017

A hospitalidade



*Dedicado ao meu tio, Mauro Ricardo de Mattos.

Após lutar com o furioso mar, Ulisses chega à terra dos Feácios. Está exausto, dorme atirado na vegetação. Escuta vozes de donzelas. Levanta-se. Aparece para as donzelas com o corpo carregado de sal, suor e cabelos. Tal visão aterroriza as mulheres. Elas correm em debandada. Apenas Nausica permanece, pois no espírito Atena lhe incutira coragem. O estrangeiro, mestre das palavras, fala que se há uma deusa, ela está diante dos olhos dele. A jovem repreende as criadas, e as faz voltarem e mostrarem ao estrangeiro a hospitalidade daqueles que temem a Zeus.

As criadas banham o desconhecido, esfregam azeite em seu corpo. Atena lançou um encanto, fazendo Ulisses parecer mais alto e mais musculoso. Aos cabelos deitaram-se cachos aloirados. Nausica comenta com uma das criadas como seria bom se um deus a concedesse desposar aquele homem. A princesa orienta o estrangeiro a chegar na casa de seu pai, e destaca um grupo de criadas para acompanhá-lo.

Ulisses parte e logo chega ao destino. Ao contrário do que fizera em outras terras, quando anunciou a si mesmo “Ulisses, de fama conhecida pelos deuses, e agora cantado pelos aedos”, desta vez não dissera o próprio nome. Ajoelhado, pediu à rainha ajuda para voltar para casa. O rei disse que lhe ajudariam, e ordenou que lhe alimentassem e acolhessem.

Naquela tarde, os jovens começaram uma competição atlética: lançamento de discos, de dardos, corrida a pé, a cavalo e pugilato. Um deles convida o estrangeiro, pois havia reparado em seu porte atlético. Ulisses afirma estar muito cansado da dura briga com o mar para chegar até a terra deles. O jovem, então, diz que logo se via que ali não estava um atleta, mas um comerciante cioso apenas dos seus ganhos, e que por acidente viera ter ali. Ulisses sente-se atingido, e afirma que em Tróia ninguém rivalizava com o seu arco e sua coragem, os guerreiros amigos contavam com ele e os inimigos o temiam. Ele participaria, então, do pugilato, do lançamento de discos e de dardos. Não participaria, contudo, da corrida a pé e de cavalos, pois para o primeiro ele realmente estava desabilitado, e no segundo, ele reconhecia a superioridade dos feácios. Caso fosse novamente envolver-se em combates, Ulisses faria jus àquele povo, chamando seus cavaleiros.

Ulisses atira o disco muito além das marcas dos competidores locais. Também atinge grandes resultados no lançamento de dardos e no pugilato. Mesmo estando ali como um estrangeiro desconhecido, Ulisses diz ao rei que se sentira ofendido com os comentários daquele jovem. Sabendo reconhecer as virtudes de quem as possui, assim como Ulisses reconhecera as virtudes dos feácios na montaria, Alcino ordena que o jovem faça uma ação de desagravo. O jovem, reconhecendo os valores de Ulisses, dirige-lhe um discurso de desculpas, também entregando um presente valioso.

Posteriormente, enquanto confraternizavam, um aedo cantava sobre a Guerra de Tróia. O Grande Ulisses era louvado como um bravo combatente, excelente para os amigos, sofredor de grandes dores. O estrangeiro esconde o rosto em lágrimas. Percebendo isso, Alcino pede àquele homem que fale sobre si mesmo, sobre as coisas pelas quais passou. Ulisses toma o lugar do aedo, e conta o caminho que o levou ali, passando pelo cíclope, pela feiticeira Circe e até pelo Hades. Finalmente, ele apresenta a si mesmo, dizendo o próprio nome.

Um homem pode não precisar falar de sua virtude para pessoas que sabem ser hospitaleiras com estrangeiros. Receber bem significa não só dar de comer e beber: inclui considerar a possibilidade de o desconhecido ser digno de louvor. Tratar bem um estrangeiro é abrir-se ao que ele tem de bom e que pode, é claro, beneficiar o grupo. O menosprezo é um sinal de descortesia, é uma quebra da aliança entre povos, aliança esta que existe entre pessoas que não se conhecem, por pertencerem a povos diferentes. A hospitalidade é um “receber em casa”, em uma casa que antes não era a dele, e um “fazer com que o outro se sinta em casa”, na própria casa dele. Mostra a virtude de quem é hospitaleiro.

Em um outra terra, poder adentrar a casa de alguém, e fazer desta casa a sua própria, mantendo, logicamente, a primazia do primeiro aspecto, o do “adentrar a casa do outro, respeitar o seu ethos”, ou proporcionar isto a um estrangeiro, é permitir que haja trocas ao mesmo tempo conservadoras e renovadoras das características do local, além de oferecer ao estrangeiro um solo para ele dar o melhor de si.

Quando um homem, porém, está entre conhecidos e não é considerado em sua dignidade e em seu valor próprio, o ataque que ele sofre é o de estar sendo retirado da comunhão, da comunidade, e o de ser lançado a ter que provar a própria importância. Isto faz com que o trabalho de sua vida seja dobrado, pois ao que ele já realizou deve somar a prova do que realizou. Se entre desconhecidos a consideração com o outro é devida, entre familiares ela é fator de sobrevivência do grupo. Uma família ou comunidade funda-se em histórias de pessoas que fizeram o que foi essencial para eles estarem ali, e indicam o caminho do que ainda há por ser feito, e do que é preciso que alguém tenha, para fazê-lo.

Ter o próprio valor questionado por sua família é ser posto no caminho inverso ao da hospitalidade: no primeiro momento, desaloja-se o indivíduo da casa dele mesmo, dos muros que ele construiu e que guardam as suas caracteristicas; no segundo momento, coloca-se o indivíduo na soleira da porta, próximo à expulsão da “casa dos outros”. Primeiro, “você não tem um lugar”; segundo, “você não tem lugar aqui.”

A hospitalidade, acolhida de vidas, traz bençãos dignas de Zeus. O contrário disso não pode levar a boa coisa.

Imagem: Jean Veber – Ulysses and Nausicaa, 1888.

Um jovem como Telêmaco


Telêmaco partiu em busca do pai. Ulisses, o grande rei de Ítaca, saíra de casa há 20 anos para combater em Tróia. Ninguém em sua terra natal sabia de seu paradeiro ou morte. Penélope esperava angustiada o marido. Telêmaco via a mãe sendo assediada por muitos homens, e os bens de sua família sendo dilapidados por eles. Guiado por Atena, na figura de Mentor, Ulisses foi a alto mar.

Ao chegar em Pilos, Telêmaco hesita sobre o que deveria fazer. Atena diz para ele não ter vergonha, pois é justo o propósito dele, e foi com o nobre objetivo de saber o destino do próprio pai que ele atravessou o mar. Ele falará com Nestor, ancião que vira muitas gerações de guerreiros, e ao lado de Ulisses combatera em Tróia. Telêmaco pergunta a Mentor sobre como deverá cumprimentar Nestor. O rapaz afirma não possuir experiência com palavras sutis, “e que é natural que um jovem se iniba de interrogar um homem idoso”.

O filho do grande e famoso Ulisses era ainda sem importantes feitos e sem fama. Ele teria suas próprias aventuras, onde mostrará as qualidades herdadas do pai. Telêmaco sabe bem da sua estatura atual, e não supõe saber sobre o que lhe é novo. Como portar-se diante do experimentado guerreiro e conselheiro Nestor? Na conversa com o ancião, Telêmaco se apresentará cuidadoso, educado e atento. Telêmaco tem berço. É impossível não ver nele reflexos de um jovem Ulisses.

Em nossos dias, vemos jovens que parecem acreditar já saberem de tudo, pois apresentam-se sem cuidado e apressadamente. A forma como se comportam na rua é a mesma com que se comportam em casa, que é a mesma com que se comportam na escola e em todos os lugares. “Tá tranquilo”, dizem, sem considerar os saberes e os comportamentos necessários para lidar com cada pessoa e lugar. Acham que com o seu “jeitinho”, conseguirão tudo: empregos, mulheres, posições sociais, etc.

Atena diz a Telêmaco: “algumas coisas serás tu a pensar na tua mente; outras coisas um deus lá porá: na verdade não julgo que foi à revelia dos deuses que nasceste e foste criado.” (Odisseia. Canto III, verso 25). Telêmaco possui atributos vindos dos deuses. Ou vindos de um grande pai, o que dá no mesmo. Simultaneamente, esses atributos são dele mesmo. Aqui não há a necessidade de distinguir os atributos próprios daqueles que “vieram de outras pessoas”. Telêmaco não é como eu e você, que anseia por ser individual.

Entretanto, quando, por exemplo, no esporte, assistimos a um desempenho excelente, sentimo-nos presenciando algo além de uma capacidade humana. Vemos um talento inexplicável. Por isso dizemos que quem tem talento, ou quem trabalha muito, é ajudado pelos deuses, ou tem sorte. Diferentemente da pessoa que já acredita saber de tudo: ela não é ajudada pelos deuses. Ela move-se depressa demais, e os seres divinos não conseguem alcançá-la. Você já deve ter visto um anjo da guarda chegando atrasado para evitar uma catástrofe, com o seu protegido. É isso.

A comitiva de Telêmaco é bem recebida por Nestor e seus homens. Telêmaco diz a Nestor que apresenta-se como suplicante, por qualquer notícia sobre o paradeiro de seu pai. No início de sua fala, disse de quem era filho. Mas logo mostrou não querer chegar rápido demais à posição deste. Por isso, ajoelhou-se. Nestor conta ao jovem sobre os mortos em Tróia, os melhores guerreiros: Ájax Telamônio, Aquiles, Pátroclo, e também o seu próprio filho. Acompanhado de Ulisses, ele próprio saiu de Troóia, após vencerem a guerra. Mas eles se dividiram em naus distintas, e estas tomaram rumos diferentes. Nestor chegou em sua casa. E de Ulisses, infelizmente, ele não possuía mais notícias.

O normal e o ideal


O normal pode ser o comum. Diz-se do comum que ele é o facilmente encontrável em certo tipo de lugar. Em uma escola, encontra-se pessoas que sabem matemática. Matemática é comum na escola mas é incomum fora dela. Falar português e possuir um conhecimento mínimo acerca desta língua é comum no país em que vivemos. É mais comum do que possuir um saber técnico de matemática.

Ainda como comum, o normal pode ser entendido como o encontrável em um grupo social. “O normal da minha família é todos dormirem após as duas da manhã. Nem todas as famílias ou grupos agem assim. Anormal, na minha família, é alguém dormir cedo. Isso é raridade.” Então o normal é o que mais frequentemente ocorre, tendo em vista um lugar ou um grupo. Contraposto a ele está aquilo que é o raro.

Diz-se também do normal que é o que diz respeito à natureza de algo. É normal para o torcedor gritar. É normal para os seres humanos sentirem tristeza com a morte de um outro ser. Esta normalidade ocorre dentro de um leque de comportamentos mais ou menos intensos, e fora do qual se é anormal. Um torcedor pode até não gritar, mas se ele não faz questão de ver os jogos, não é torcedor. Uma pessoa que não demonstra emoção com a morte de um parente pode estar dentro da normalidade. Agora, ficar alegre com a morte de uma mãe, é anormal.

Dentro da política, considera-se normal que haja certo nível de corrupção e ineficiência governamentais. No Rio de Janeiro, acostumou-se a isso. Alguns dizem que seria impossível um governo isento de corrupção. Um elevado nível de corrupção e ineficiência no governo do Estado do Rio seria anormal. Infelizmente, o grau zero nesse índices também seria anormal.

Um outro sentido de normal, aquilo que é o ideal, o melhor que pode ser atingido por algo ou alguém, e que se torna uma norma sobre eles é, no caso do estado do Rio, completamente esquecido em nome da normalidade do “rouba, mas faz” ou “maqueia, mas também faz”. Como cidadãos, comparamo-nos com a falha da cidadania. Esta falha tornou-se uma referência de normal.

O mais frequente em nosso estado, o que nos é particular ou o que é da nossa natureza, vista por nós mesmos como corrupta e ineficiente, tornou o nosso normal. Jogamos fora o ideal e a busca por tornarmo-nos “versões melhores de nós mesmos,” frase de Richard Rorty.

Não se trata de dizer, aqui, que o governo é corrupto porque o povo também o é. Ou ineficiente porque assim somos nós. Isso mantém a nivelação por baixo, mata a dignidade e a importância daquela função nobre. É do ser humano evitar o que está por baixo, ao nível do solo, do pior da própria natureza, e buscar o que está acima, o que de melhor tem o homem. Isto poderia ser uma norma para ele, não?

O governo tem a obrigação de ser melhor, e de ser exemplo para os seus governados. E não por sermos maus, mas por não aceitarmos o mal no mundo.

Tomar como inescapável, um destino, aquilo que ocorre com mais frequência, ou o que se entende como a natureza de algo ou alguém, é abandonar a busca por um mundo melhor.

Chega de saudade

Comentário ao “A Cartomante”, de Machado de Assis)

Quando criança, Camilo possuía muitas superstições. Encerrada a influência da mãe sobre ele, tornou-se cético. O que acontecia era-lhe claro, pensava ele, baseado nas próprias certezas.

Com Vilela e Rita, Camilo formou um novo ambiente de crenças. Era uma família, com bons momentos, amor e segurança. Uma família composta por um triângulo amoroso. A amizade de Camilo e Vilela não estranhava o envolvimento dele com Rita: havia um equilíbrio. Vilela não precisava saber do amor entre Camilo e Rita. Sem sabê-lo, ele louvava este amor, resultado da união dos três. Não havia motivos para quebrar isso.

Camilo, então, começou a preocupar-se com o que o amigo sabia. Um amigo não faz questão de saber o que o outro sabe: o que importa é o que eles vivem juntos. Camilo desapareceu da casa de Vilela e Rita. Encontrava com ela em outros lugares, sempre regulado pela agenda. Rita inevitavelmente considerou Camilo distante dela. Afastar-se de Vilela, ela entendia, mas a inconstância com ela mesma era de se desconfiar. Mas sem que percebamos de imediato, forte sofrimento acometia a Vilela, com o esgarçamento do trio.

Camilo recebeu uma carta de Vilela solicitando encontro urgente. O rapaz teve certeza de que o marido descobrira a traição. O problema para Vilela não seria o envolvimento de Camilo e Rita, mas principalmente o fato de isto ter causado o distanciamento entre ele e o amigo. Era urgente revê-lo.

O chamado de Vilela poderia ser por qualquer motivo, como um tiro, uma surra, uma dr, etc. Qualquer chamado do amigo o faria mover-se depressa, com a sensação de débito pelo distanciamento.

O distanciamento com relação ao amigo era uma preocupação constante para Camilo. A cartomante avisou-o de que tudo ficaria bem. Ao fazer isso, ela reavivou, para o amigo faltoso, aquela sensação de segurança que uma família proporciona.

Os vaticínios da cartomante cumpriram-se, e realmente tudo ficou bem. Vilela decidira-se a encaminhá-los todos a um destino comum. Foi o fim das saudades.

“A Cartomante” não é sobre outra coisa que não a amizade.

Como pensar a "violência urbana"

Assaltos, à mão armada ou não; furtos; invasões, também armadas ou não, a domicílios, a fim de se realizar assaltos; sequestros e assassinatos de indivíduos com quem o autor destes crimes não possui relação pessoal: em nossa linguagem comum e nos meios de comunicação, formas de comunicação, aliás, cada vez mais integradas, aqueles casos recebem o nome de “violência urbana”. (Esqueci de mencionar algum?).

Também em nossas comunicações, cada notícia a respeito destes crime suscita, em geral, duas posições antagônicas: “bandido bom é bandido morto” e “o indivíduo comete crimes empurrado por suas péssimas condições de vida.” O segundo argumento entre nós já foi mais forte: nos anos 80, quando a face atual da miséria urbana (as favelas e os moradores de rua) passou a ser mais notada, falávamos em fome, analfabetismo, etc. Foi o tempo em que o PT elevou-se junto às classes médias esclarecidas. Hoje, porém, junto da grande rejeição a este partido, progressivamente ocorre a perda de força do discurso “social”. Isso ocorre por descrédito dos ideários políticos modernos (inclusive do liberalismo clássico!), acrescida de certa banalização da miséria.

A maior parte da população não se posiciona politicamente a partir de ideologias. O posicionamento delas tem sido cada vez mais pragmático, o que é ótimo. Dentro de um pensamento pragmático, pede-se mais segurança. Mas com um pensamento empobrecido, a solução que se alcança é “bandido bom é bandido morto”. E o discurso que aponta a miséria e o desespero social aparece como uma reação a ele. Alunos e professores universitários são os que mais o apresentam, para um olhar às vezes discordante, do restante da sociedade.

Já os que dizem “bandido bom é bandido morto” dificilmente aceitariam eles mesmos pegarem em uma arma e matarem o “bandido”. Eles querem que alguém faça isso por eles. Mas, é lógico, para eles o autor dessa execução deve ser preferencialmente justiceiros, e não o Estado. Os defensores daquela frase, em sua maioria, não gostariam de viver num mundo em que o assassinato seja lei. É preferível que isso seja feito por um encapuzado, alguém que eu não conheça, mas que me conheça apenas o necessário para saber que eu não sou bandido. Em lugares da Baixada Fluminense, há décadas grupos armados exercem esse “jeitinho brasileiro de matar”, e oferecem aos moradores uma “sensação de proteção”.

Há muitas formas de violência ou mau uso da agressividade. Uma condição de miséria é possibilitada por uma ou mais causas, e gera uma ou mais consequências. No discurso público, reduzimos toda violência à urbana, e toda causação e solução aos dois lados: “bandido bom é bandido morto” ou “o miserável é resultado do capitalismo, e o crime que ele comete é uma consequência inevitável. Mais do que isso: é uma revolta.” A presença da miséria, os índices de criminalidade e nossa dificuldade em formular uma demanda política pragmática nos faz retomar ideias socialistas e liberais, mas não mais como idearios e, sim, como ideologias.

Ideologias são conjuntos compactos de ideias que, ao serem utilizadas, matam a capacidade de pensar. O socialismo não precisa servir de inspiração para governos que se consideram acima das liberdades individuais. O liberalismo não é mais apenas o de John Locke, mas também o de John Rawls. Uma inspiração socialista vigente em contextos de sistemas capitalistas faz seus governos serem sociais, atentarem-se às necessidades daqueles mais empobrecidos. Uma ideologia socialista cria uma demonização do capitalismo, e a defesa de coisas invariavelmente piores. Por outro lado, o liberalismo, no maior país capitalista e liberal do mundo, os EUA, atualmente é entendido junto da ideia de justiça: nos anos 70, o filósofo político americano John Rawls propôs que os grupos social e economicamente desiguais deveriam receber ajudas distintas do governo, adequadas a que eles tenham começos equivalentes, com relação ao restante da sociedade, na corrida por estudo, trabalho, salários, etc. Esta filosofia marcou a política daquele país, e também a de outros paises.

Pessoas que, hoje, não pensam por ideologias, mantém, sem contradição, a ideia de que devemos nos esforçar por nossos bens, e de que temos certo mérito por nossas conquistas, mas que este mérito não é total porque há muita gente que nem ao menos pode começar do mesmo ponto do que os demais, além do inaceitável sofrimento e miséria, no mundo.

Aquelas frases-feitas forçam a que se pense estas questões cortadas ao meio, e que ou se defenda um lado, ou outro. O lado adversário parece desonesto ou burro, e assim não se vê que o próprio lado também não consegue ir além do slogan e da propaganda que não ajuda efetivamente as pessoas. O crítico à ideia de que a pobreza gera criminosos deixa desarmado o que pensa pelo slogan de esquerda. O crítico à ideia expressa naquela frase do “bandido morto”, deixa o defensor dela sem muito o que dizer além de dizer que um dia o crítico sofrerá uma violência e chamará a policia. Martelando uma mesma frase, o falante mostra uma experiência repetitiva e infeliz, e que ele deixa de perceber as nuances das próprias emoções e também do mundo. Determinada experiência se torna absoluta, e a visão geral, também.

Pensar em violência urbana deve levar à percepção do lugar onde situamos nosso medo, impotências e reações ideologizadas. É dar um passo atrás no uso dessa expressão, e descobrir porque se a utiliza como canalizador da própria sensibilidade e anseis. Este seria um real pensamento, sobre questões do mundo e também pessoais. Atentados contra a vida: insegurança, impotência, desejo de vingança, aposta num salvador. Miséria; desespero; desumanização; perdão; adrenalina e poder. Muitos aspectos compõem a realidade. Para transitar por eles, entendendo e tendo alguma chance de fazer o bem, é preciso não partir de slogans ou razões pré-prontas e fáceis.

Como a experiências pessoais podem dar em um bom discurso?


A imagem moderna da psicologia do homem, ou seja, do modo como ele se comporta, é a de divisão entre razão e emoção. No Iluminismo, a razão foi entendida como a faculdade de bem discernir sobre informações e do bem decidir como se agir. Cultural e cientificamente, sobre a razão assentou-se a saúde mental do indivíduo, a possibilidade de produção de um “conhecimento verdadeiro” e a legitimidade política. Os filósofos medievais e cristãos já haviam dito que as paixões da carne e do corpo exerciam influência negativa sobre a razão, atributo da alma. Assim formam-se as imagens atuais de razão e emoção, e a avaliação de que ao lado da primeira estão a saúde, o conhecimento, a legitimidade política, e ao lado da segunda estão a doença, a ignorância e a confusão, e a deslegitimidade em se falar pública e politicamente.

Além disso tudo, temos uma ideia oposta: a de que as emoções é que mostram a verdade e a saúde de quem as têm. Rousseau, no século XVIII, entendeu que a “sinceridade ou a pureza de coração” eram a matriz de uma verdade que se perde na cultura. O homem é naturalmente bom e, caso uma criança tenha sido preservada, por bastante tempo, da invasão da cultura sobre si mesma, será um adulto com capacidade de ser sincero. Notamos aí que a verdade é entendida como uma qualidade pessoal, a sinceridade, e não de enunciados publicamente avaliados. Se iluministamente, a verdade está na racionalidade, que pode ir a público, e a emoção é irracional, sendo privada, literária e psicanalíticamente há uma “outra razão” nas emoções de um indivíduo, enquanto que a sociedade, sendo baseada na falsidade, não o acolhe.

Portanto, ou se valoriza o que pode ser comunicado e eficiente em sociedade, e é consciente para o indivíduo, ou se valorizam as alegrias, as tristezas, a instrospecção, o inconsciente. Estas distintas valorizações parecem não se conciliar, no nosso modo de ver a psicologia do homem.

Faço, pois, uma sugestão: e se nossas razões conscientes e públicas forem formações paralelas e em comunicação com nossas emoções privadas e profundas? Ao propor isto, deixo de lado a ideia iluminista de que as emoções são fonte de erro ou falsidade, e também a ideia que reage a esta, de que as emoções são um vasto oceano, quase totalmente inconsciente, onde flutua uma pequena ilha, ignorante de si mesma, chamada razão. Recorro à ideia de coisas que correm em paralelo, para falar, por exemplo, de que uma experiência muito ruim, geradora de intensas emoções negativas, vivida por alguém, é por este alguém, no melhor dos casos, empregada como motor e matéria-prima de um discurso racional, que pode ser apresentado para si mesmo, nos próprios pensamentos, e para os outros.

Experiências muito ruins podem tornar-se dominadoras, sobre quem as experimenta. A capacidade de torná-las racionalmente entendidas e comunicáveis é a chave para escapar deste domínio. Pensar sobre um problema pessoal, e falar sobre ele e o que se pensou dele ajudam a resolvê-lo. E esta explicação uma pessoa oferece a outra, que também esteja passando por um evento difícil. Com um raciocínio, a pessoa entende e apazigua as próprias emoções, confere-lhes como que uma gramática. Essa capacidade de racionalização se desenvolve, e se alimenta de técnicas, através do aprendizado com outras pessoas, com filmes, músicas, livros, etc. Um raciocínio também tem o poder de discernir entre ideias razoáveis e não razoáveis, incorporando a si as razoáveis e instaurando um auto-convecimento. Esse convencimento é, sem dúvida, também feito com os outros.

Minha intenção nao é defender o primado da razão. Emoções ruins, geradoras de depressão, e emoções alegres, geradoras de euforia (em um sentido não psicopatológico), são organizadas não por uma ação da razão sobre elas, mas pelo movimento do pensamento sobre suas ambivalências emocionais. Este movimento é observador e organizador desses processos, e cria razões e emoções “trabalhadas”, organizadas.

Uma pessoa que sofra uma grande violência de uma outra experimenta uma gama de emoções ruins. Dependendo do seu repertório mental, toma esta experiencia a partir de uma perspectiva ou de mais de uma perspectiva. A pobreza mental leva a que se veja o acontecimento de forma unidimensional: “sofri x, sou vítima de um y. X é a pior coisa possível, y é o pior possível. Y deve sofrer o pior castigo possível”. Tal associação de ideias com conteúdo drástico faz com que a emoção ruim inicial seja reafirmada pelo próprio indivíduo. E essa refirmação da emoção a absolutiza. Absolutizada, tiranizando aquele que a experimenta, a emoção solidifica aquela pobre associação de ideias, e a catapulta a discurso público. A pessoa amargurada passa a vida empurrando aos outros uma visão de mundo amargurada. Ela não varia o discurso, porque não varia as ideias, porque não varia as emoções.

O indivíduo que lê gêneros textuais diferentes, que conversa e pensa em contextos também diferentes, que sabe que para cada coisa que ele sabe há um grande não saber é, portanto, um grande “pode ser” ou um “porque não?”, possui um repertório para não só transformar a própria dor em saber, como para fazer com que esse saber reconheça as nuances de emoções dele próprio, e mantenha a tarefa de “um algo a mais a ser conhecido”.

Em todo bom discurso há uma forte emoção. E quanto mais refletida é essa emoção, discernida em meio a uma ambivalência de emoções, mais ela é reconhecidamente presente em sua razão e discursos. Santo Agostinho entendia que a fé era uma luz situada acima de sua cabeça, iluminando o caminho de sua razão. Suas Confissões são bela e emocionada filosofia. O discurso claro e lógico, ou seja, limpo e com encadeamento causal, não se separa de uma forte e também clara emoção ou fé. O discurso sem emoção, sem participar de um common ground com experiências marcantes, é frio e duro. Ele não absorve o impacto emocional que lhe causam as críticas e as ideias diferentes, não entendendo novamente sua própria emoção subjacente e sendo incapaz de elaborar um novo discurso. O discurso que sabe se acompanhar, não tenta escamotear, sua emoção, tem o calor e a força do argumento da experiência, mas não assusta os outros, como se “se aconteceu comigo, acontecerá com você”.

A emoção e um discurso apresentados com entrosamento de um com o outro fazem pensar e empolgam, emocionam. Criam uma comunicação entre corações. O autor do discurso emocionado tem as melhores intenções, com relação ao leitor ou ouvinte. Quer que ele seja capaz de pensar sobre suas próprias experiências não sem se emocionar, mas se emocionando de forma mais rica. Um discurso ressentido, que mantém bem guardada a emoção que o gerou, emoção que até pode ser inicialmente boa mas, por ter sido guardada, produz o ressentimento, é duro, no sentido de não permitir ser repensado, ou no sentido de não poder ser tocado por experiências novas, inclusive a própria experiência do discursar, que é um momento que produz emoções.

Semelhança

Uma mulher tem uma criança. Fala próxima aos ouvidos, ao nariz dela. Quer ser sentida. Quer que a criança a inale, junto do sentido das palavras que se transmitem feito sopro. A criança responde alguma coisa. Com o passar do tempo a mulher vai percebendo que a criança não é semelhante a ela. Fisicamente, é semelhante. Mas não subjetivamente. Parece-lhe, então, essencialmente dessemelhante.

Deus fez uma figura de adama. Semimaciça, com canais que ligam o exterior ao interior oco. A mulher é capaz de produzir uma figura, assim. Após a primeira etapa, Deus soltou seu hálito sobre a figura de barro, e o hálito entrou e a preencheu. Deus tem a capacidade de fazer um ser semelhante a ele, não apenas fisicamente semelhante. A mulher não sabe do que foi feito com o hálito que lançou sobre a criança. Alegra-se quando presencia algo da criança que pareça semelhante a ela própria.

A mulher cola o rosto no espelho, e respira. Fala com o espelho, que devolve o hálito dela mesma. Isso é estar sozinho. Deus não estava sozinho, quando moldou a argila. Também não estava quando soprou na narina de Adão, pois o sopro voltou e Deus o inalou. A existência de Deus e de Adão acontece junta, por essa troca gasosa. A da mãe também acontece junto da do filho: ele é mais semelhante a ela do que ela consegue perceber. Não é um igual, é um semelhante.

Semelhante é parecido, e assim o é por uma parceria. Parceria de inspirações para além do que cada um entende. Quando a mãe quer entender o filho, e o filho à mãe, acham-se bem diferentes entre si. Uma troca de mesmo tipo, e também entre pessoas diferentes, é a da mulher com ela mesma. Pensar, segundo Platão, é fazer uma conversa íntima. A pessoa faz perguntas a si mesma, sem saber a resposta, e ela mesma responde. Isso nos explica o Paulo Ghiraldelli Jr.

Diferentes, semelhantes e em sintonia. A mulher pode ter dificuldade de entender o que ela mesma sente sobre alguma coisa, assim como sente em relação à criança. Deus fez um ser semelhante a ele, isso é sabido. Quanto a nós, não atribuímos a nós mesmos esta capacidade. Mesmo que a tenhamos. A semelhança entre a mulher e a criança é justamente o fato de que cada uma delas está próxima da outra. Uma anseia pela outra.

Inspirado no “Esferas I”, o livro que sopra você.

"Não sou machista". E daí?


Fernanda Lima está linda na capa de uma revista, dizendo que cria seu filho para não ser machista. Cria o filho para isso. Porei no meu currículo que eu sou feminista. Ou que votarei no Bolsonaro. Nas últimas eleições para vereador, vi um santinho com uma primeira frase “Sou lésbica e feminista”.

Isso não começou hoje: já vi muita propaganda de político dizendo, de início, “pela moral e os bons costumes”. No meu currículo não porei que sou psicólogo, que trabalhei em escolas e que escrevo sobre psicologia e filosofia. Isso não interessa, mais. Fernando Holiday ganhou, em São Paulo, não por ser contra as políticas étnicas, mas por ser um negro contrário às políticas étnicas.

Perdeu o valor aquilo em que trabalhei, e por “trabalho”, aqui, refiro-me ao que é socialmente considerado trabalho, e assim o é por ser a produção de algo com valor para essa própria sociedade, e que passa pelo que ela considera importante para o mundo. Tem a ver com o mundo que costumávamos querer!

Hoje o valor está em ser negro, gay, ou de direita ou de esquerda, como opções pessoais com as quais se partiu da reivindicação de respeito para a busca por fazer com que a própria perspectiva fique acima de tudo, seja absoluta. Parece que o valor está naquilo que “brotou naturalmente”, da pessoa. Nesse rousseauísmo inconsciente, aquilo pelo qual se trabalhou não vale mais do que a “própria essência”. Então eu sou primeiramente conservador, implicante, depois eu vou ver contra o que vou implicar. Como sou conservador, vou reclamar de tudo!

Ser gay, negro ou de direita não deveriam ser valores mas, sim, serem aspectos do humano. E como o humano é diverso, suas características consequentemente ganham valor. Mas esse valor é secundário ao do ser humano. A causa animal, ambiental, dos gays, etc, deveria tocar a todos. Mas, se tudo que preciso ser na vida é “não machista”, estou empobrecendo o que quero para mim. Também não se trata de me dizer “não machista, não feminista, não negro, não gordo, não-BBB, etc”. Uma teologia negativa diz que não se pode definir o que é Deus, por isso dedica-se a dizer o que Deus não é.

O homem não pode se definir negativamente. Ele vai vivendo e se definindo. Vai dizendo sim para o que ele quer para o mundo e para si. Interessante era quando se podia dizer para um filho o que ele não deveria fazer, e também o que ele deveria fazer. Mas há gente achando que é opressão influenciar um filho. E a isso se junta a transmissão do medo do diabo, “não seja o coisa-ruim, meu filho!”. E as coisas boas que a tradição diz para valorizarmos? E as coisas boas que se descortinam, na vida? Onde estão?

Não se é bom por não fazer o mal, mas por fazer o bem. Preocupar-se com o mal é olhar o chão, temeroso de olhar para cima. Há que se olhar, e a ensinar a olhar, para o alto.

Cuidar

Não é respeitar: é cuidar da vida. Mulheres, crianças, gays, negros, índios, animais, todos os que sofrem atentados por serem quem são. Você não está com eles? Também não é regrar. É estar com e ali.

Uma mulher que tem um profundo desejo. Crianças empenhadas numa brincadeira. Gays se beijando demoradamente, na rua. Índios que dançam e cantam, como sempre. Animais que te olham pedindo mãos em que possam deitar o rosto, como filhotes: Você fez a mesma coisa que eles, e alguém cuidou de você, acompanhou, simplesmente extasiado. Se isto ocorreu, você acompanha aqueles seres, participando daquele momento, daquele lance de vida.

Participou numa distância ótima, próximo. Cuidando, e também em êxtase. Feliz, fazendo o outro feliz. Estático, você não desgrudou os olhos, não perdeu a atenção ao que era mais importante do que tudo.

Quem não foi cuidado, protegido, comemorado, não sabe cuidar e comemorar. Pensa em coisas como “a violência que ocorreu e o necessário revide”, “o modo errado de ter prazer, e o castigo que deve ser aplicado”, etc. Tal espírito vaga, pois evita o que está vivo.

Já o ser que teve parceiros, e sabe ser parceiro, vive uma afinação simpática entre seus próprios sentidos e aquele outro ser. Seu espírito temporariamente sai do corpo, e co-habita nessas vidas que acontecem.

P.s.: Inspirado do “Esferas I”, do Peter Sloterdijk.

A leitura de Obama


Há situações em que você se sente sozinho. Sem conversa. As ideias ficam presas, e sem resposta. Respostas são o que fazem as ideias andarem.

Obama disse (https://mobile.nytimes.com/2017/01/16/books/obamas-secret-to-surviving-the-white-house-years-books.html) que precisava estar com os livros, em suas noites na residência presidencial. O dia estudando relatórios sobre os problemas dos cidadãos faziam-no se sentir sozinho, à noite.

A política está para o cidadão. Mas as histórias estão para o homem. Com elas, Obama aprendeu a ser negro, nos EUA. Aprendeu os problemas dos homens. Mais do que isto: aprendeu sobre as diferentes riquezas dos homens.

Obama leu e escreveu sobre o mais próximo de tudo, o essencial. Como Heráclito disse aos visitantes que o viram aquecendo-se à lareira: “Aqui também está cheio de deuses.”

Deixar-se ficar sentado, lendo, não é para qualquer um. As pessoas querem fazer coisas. Começam fazendo o que devem fazer. Depois fazem o que não devem. Algumas vão direto para a segunda parte. Uma inquietação.

Não conheço outra foto de presidente refletindo sentado. O que está além das Casa Branca, da presidência? As histórias dos homens, um ambiente que Obama co-habita com os outros.

A pessoa sozinha não é aquela que não conversa com os outros: é a que não conversa consigo mesma, não tem a si mesma como parceira. Então não pode ter mais ninguém.

Por ter lido mais do que relatórios, Obama foi mais do que um presidente para cidadãos: foi um homem para homens. Assim, ele pôde ser um grande presidente.

Naked eye


No filme “O Homem Nu” (dir. Hugo Carvana, 1997), Cláudio Marzo pisou fora do apartamento para buscar um pão. A porta fechou-se atrás dele, e a mulher estava no banho, não podia ouvir os apelos. “Vão me ver”. Ele saiu do prédio, e logo viu-se correndo pela rua, perseguido por uma multidão. “Estão me vendo”.

Minha filha saiu do banheiro e foi para o quarto dela. Passei em frente à porta, na hora em que ela saiu. “Ai, estou nua!”

Adão e Eva não se enxergavam. Ao comerem a fruta proibida, seus olhos se abriram. E foram direto para a nudez um do outro, fazendo cada um envergonhar-se da própria. A função primordial dos olhos é ver a nudez. Aí está a verdade do homem: ficar nu e ver o nu. Assim que elas foram descobertas, o primeiro passo foi proibi-las. O homem não pode ficar nu, ser visto nu. E seu olho não pode cumprir sua função primordial.

Um filme pornô mostra para o olho ver à vontade. Não é a nudez que o olho não pode ver. Não me sai da cabeça o dia em que fui ao banheiro na casa do meu amigo, na hora errada. Passei em frente ao quarto da mãe dele. A porta estava aberta, e ela, toda nua, só arregalou a boca e os olhos. Imagens como essa não saem da cabeça.

Vi o que não deveria ter visto. Ela ficou como não deveria ter ficado. Não houve tempo para o meu querer ou meu não querer ver. Nem para ela se esconder. Não foi um segredo sobre a mãe do meu amigo, nem sobre mim. Pode-se dizer uma porção de coisas: que ela se descuidou, que eu passei na hora errada, que eu me dei bem, que nos envergonhamos, etc. Frases sobre quando aos meus olhos foi dado o que eles não podiam ver. E sobre quando à nudez dela foram dados os meus olhos. Frases paradas exatamente sobre o ocorrido. O momento do olhar e da nudez. Não há como desver. Então não adianta aparecer de roupa, depois.

Não queremos ficar nus na rua. Mas bem que gostaríamos de ver tal coisa. Agora, enviamos nudes para determinadas pessoas. É impossivel não ver um nude que te mandam. E ficamos pensando em quando podemos enviar um nude para alguém. Criar um acidente, mas de comum acordo, sem risco.

No que crê o homem.


No século II a.C, Antíoco Epifânio foi rei da Síria. Ele quis forçar a helenização da Judeia, perseguindo os costumes dos judeus e invadindo e profanando o Templo de Javé. Em um episódio constante no 2 Macabeus, ele prendeu uma mulher judia e seus sete filhos. Com torturas e chicotadas, ele ordenou que aqueles judeus comessem carne de porco, proibida para eles. Um dos rapazes levantou a voz para dizer que sua família estava pronta para morrer, antes de desobedecer às leis dos seus antepassados. O rei enfureceu-se e mandou que cortassem a língua, arrancassem o couro cabeludo e decepassem os braços e as pernas do insolente. O jovem, ainda vivo, fora posto em uma assadeira¹.

A mãe e os irmãos assistiam a tudo, e diziam um para o outro, em língua dos seus antepassados, que eles deveriam ter coragem, pois o Senhor Deus os observava e certamente terá compaixão deles. Os carrascos pegaram o segundo jovem, e logo arrancaram seu couro cabeludo. Perguntaram se ele aceitaria comer a carne de porco, antes de ser torturado. A proposta foi recusada, e aquele mesmo suplício foi feito a ele. Antes de morrer, o jovem chamou o rei de bandido e disse que sua família está morrendo não por causa dele, mas por causa da lei do rei do mundo. E este rei os fará ressuscitar para uma vida eterna.

O terceiro jovem foi pego e, por conta própria, ofereceu a língua e as mãos para o corte. “De Deus eu recebi esses membros, e agora, por causa das leis dele, eu os desprezo, pois espero que ele os devolva para mim.” Também foi posto para assar. O quarto irmão, após passar pelo mesmo tratamento, disse que para aqueles que os matam não haverá ressurreição para a vida. O quinto completou esta ideia, também antes de morrer, dizendo que o rei Antíoco é um simples mortal, porém não tem limites para o que faz com os homens. Com grande poder, Deus torturará Antíoco e sua descendência.

O sexto irmão, antes de ser levado ao forno, disse que aquele sofrimento é por culpa deles mesmos, daquela família, pois pecaram contra Deus. Rei Antíoco é perverso, e isto será punido. Mas aquilo que ocorre àquela família é a correção de um pecado, ou seja, a recondução deles às leis de Deus. Vendo a morte dos seus filhos, a mãe pôs-se a dizer: “Não sei como vocês apareceram no meu ventre. Não fui eu que dei a vocês o espírito e a vida, nem fui eu que dei forma aos membros de cada um de vocês. Foi o Criador do mundo, que modela a humanidade e determina a origem de tudo. Ele, na sua misericórdia, lhes devolverá o espírito e a vida, se vocês agora se sacrificarem pelas leis dele”

Antíoco puxou o jovem restante, o mais novo, e para ele prometeu riqueza e felicidade, o faria amigo dele próprio, caso ele renegasse as tradições dos seus antepassados. O menino não aceitou. O rei mandou a mãe convencê-lo. A mulher abaixou-se ao lado do filho e, enganando o rei, disse: “Meu filho, tenha dó de mim. Eu carreguei você no meu ventre durante nove meses. Eu amamentei você por três anos. Eduquei, criei e tratei você até esta idade! Meu filho, eu lhe imploro: olhe o céu e a terra, e observe tudo o que neles existe. Deus criou tudo isso do nada, e a humanidade teve a mesma origem. Não fique com medo desse carrasco. Ao contrário, seja digno de seus irmãos e enfrente a morte. Desse modo, eu recuperarei você junto com seus irmãos, no tempo da misericórdia.”

O rapazinho virou-se aos guardas e afirmou que os irmãos dele, naquele momento, já participavam da aliança com Deus. E que aquele rei receberá enormes flagelos, que o farão reconhecer que Deus é o único. O menino então sofreu os piores castigos de todos, em comparação com os de seus irmãos. Após ele, sua mãe também foi morta.

Em uma cena de brutalidade, aqueles rapazes e sua mãe sustentaram uma outra cena: o rei verdadeiro não é Antíoco, mas Deus. Deus criou tudo do nada, e do nada voltará a criar tudo. Portanto, a vida que surge, surge por Ele. E quando morre, se reconhece a lei Dele, voltará a viver. Ser servo de Deus é dobrar-se às leis Dele, que são as mesmas que foram seguidas pelos próprios antepassados. A cena em que o mundo é criado e governado por Deus é apresentada geração após geração de judeus, diante das agruras enfrentadas com outros povos e reis, e também diante dos desafios de sua organização de vida. Cada indivíduo encontra o que deve ser feito, nesta tradição de leis. E o que deve ser feito se distancia dos poderes com que circunstancialmente o povo escolhido por Deus se depara.

As leis de Deus e a tradição judaica são, nesta história, um lugar a partir do qual o indivíduo age. O maior desafio do judeu é manter-se sob esta estrutura. E a maior punição que alguém pode receber é ser obrigado a aceitar uma crença, é ter de dobrar-se a um outro poder, reconhecendo-o como absoluto. Antíoco não escapará disso. Para o filósofo alemão Peter Sloterdijk, sujeito é aquele que se autoconsulta e se autodesinibe. Ele conversa com uma razão interna e, através disso, sai da teoria e vai à prática. O terceiro jovem morto, na família de judeus, antes de qualquer coisa ofereceu sua língua e mãos para serem cortados. Isso causou admiração ao rei e seus soldados. Não foi um ato de obediência a eles, mas algo cuja explicação deveria ser buscada em outro lugar. Este lugar fora explicitado pelo próprio rapaz, quando ele disse que aqueles membros lhe foram dados pelo mesmo ser que os daria de volta a ele, infinitas vezes, contato que o jovem seguisse as leis dos antepassados de sua família.

Paulo Ghiraldelli Jr explica, na esteira de Peter Sloterdijk, principalmente no livro Esferas I, que diferentemente do homem grego antigo, que se fazia sujeito a partir de uma adesão completa às leis da cidade, num comunitarismo objetivo, portanto, o homem do início do cristianismo era sujeito através de um comunitarismo subjetivo, seguindo leis não de uma cidade, mas de uma narrativa de linhagem². Deus fez o homem à sua imagem e semelhança, e também a mulher, ambos filhos Dele. O triângulo da família era o único modo de relação conhecido pelo judeu nômade.

Sloterdijk critica a ideia de intimidade e de relação que o homem moderno mantém: elas surgem da figura histórica do indivíduo, vinda do liberalismo, tendo como background a ideia de intimidade, forjada pela religião cristã. Este indivíduo é como seria uma mônada, forjada por si mesma e auto suficiente, e que, apenas circunstancialmente e sem nenhuma implicação maior, se relaciona com outras mônadas. Contra esta ideia, Sloterdijk conta que o homem é essencialmente dual, surgindo como participante de uma ressonância entre ele e um algo, dois pólos. No útero da mãe, a placenta envolve o feto, mas ao mesmo tempo faz parte dele. A ressonância que eles mantém entre si produz uma esfera elíptica, que os envolve. É um terceiro elemento que ao mesmo tempo veio e faz parte dos elementos anteriores.

Ghiraldelli lembra, ainda com Sloterdijk, que Martin Buber dizia que o homem tem uma “nostalgia do Tu”³. Ele tem um instinto de relação, uma inclinação natural a fazer coisas junto com outros. Como a placenta, um parceiro primevo do homem pode ser encontrado na figura de Deus. Agostinho escreveu nas Confissões sua dificuldade em reencontrar-se com aquele com quem um dia esteve, mas do qual se distanciou em troca das coisas do mundo. O homem separou-se de Deus ao não obedecer a Ele. Esta obediência não era em relação a algo externo, como um indivíduo se relaciona com uma lei da cidade. Era obedecer como participar daquilo para o qual ele mesmo fora criado: para ser semelhante a Deus, e governar o mundo. Pai, filho e Espírito Santo eram uma unidade trinitária. Portanto, o homem que obedece à lei de Deus obedece a si mesmo, está em contato consigo próprio.

Agostinho4 conta que Deus, infinito, habita o interior do homem, finito. O homem, então, precisa afastar-se daquilo que entende como sendo o próprio eu, que não é a verdade dele mesmo, e abraçar o sujeito que está dentro dele, sua essência e realidade.

Boécio, um nobre romano cristianizado, e que estudou filosofia grega quando jovem, havia perdido seus bens, sua honra e liberdade, e logo perderia a vida5. Havia sido acusado de trair o governo do rei Teodorico, e amargava torturas na prisão. Como podia um homem que só havia procurado o bem dos outros, ter sido condenado à morte, enquanto homens perversos viviam impunes? Como Deus permitia isso? Essas perguntas eram repetidas e deixavam-no cada vez mais triste, com o espírito mais e mais distante de poder usar a razão. A Filosofia vem até Boécio, no cárcere, e através de um diálogo coloca-o de volta ao uso da razão. Ele relembrará a filosofia que um dia estudou. Mais do que isso: descobrirá o supremo bem. Aquilo que ele estava amargando era obra da Fortuna, uma roda que não cessa de girar, tornando temporárias tanto a felicidade proporcionada pelos bens terrenos, quanto as dores com a falta desses mesmos bens.

Boécio, assim como a maioria dos homens, é como um ponto num disco, distante do centro, que se move sem entender a inteligência que rege o todo. Tudo o que ele perdeu foram coisas que não eram dele mesmo, mas que foram dadas a ele, além de serem transitórias. E se eram consideradas bens, é por participarem de um bem absoluto. Neste cristianismo de base platônica, tudo o que existe e se movimenta foi criado e é regido por Deus. Ele é a soma de todos os bens, e a suprema felicidade. É aquilo a que tudo busca, por natureza. O homem se esquece disso, e passa a buscar os bens da terra como se lhe garantissem a felicidade. Acaba amargando o próprio destino, que invariavelmente lhe prega uma peça.

Boécio deveria elevar sua razão a este funcionamento do mundo, à inteligência de Deus, entendendo que se um bem terreno é retirado ao homem bom e dado ao homem perverso, é para testar a paciência do primeiro e lhe mostrar o quão pouco aquilo vale. Conforme diz uma passagem também de 2 Macabeus, o servo de Deus tem sua fruição de um bem terreno rapidamente interrompida, para que o seu pecado não se prolongue. Aí está uma explicação para a nossa queixa: “os bons morrem cedo”.

O homem que deixa a carne turvar sua razão, ao buscar os bens terrenos ao invés de buscar a felicidade suprema, no bem absoluto, torna-se um ser abaixo do homem. Já aquele que reconhece e segue as leis de Deus, ou seja, volta-se à sua própria natureza, torna-se partícipe Dele. Diviniza-se. Ser homem, portanto, é elevar-se acima das situações vividas, e das ideias e emoções adquiridas (o que Boécio chama de “passivo biográfico”), e retornar à sua origem, em Deus. É morrer para viver em Deus. Em Agostinho, isso é dito como abandono do eu, voltar-se ao infinito que habita nele mesmo, sendo então sujeito, abraçando a própria essência e realidade.

Hoje a fortuna virou sorte mundana, como um negócio que inesperadamente dá retorno, uma herança que chega na hora certa, um chefe que te acha bonito, etc. Desse homem não se diz que teve sorte, mas que tem fortuna6. Ele tem o espírito de aventura, o de aproveitamento da fortuna como oportunidade de uma vida. Mas, para diminuir o risco, esse homem conta com a Providência. Providência, garantimento de algo, entre nós é feito pelo Estado. O homem liberal tem o duplo aspecto de ser um acrobata e ter uma rede por baixo. Ou seja, é criativo para lançar-se às chances que o capitalismo apresenta, mas requer um Estado Providência. Ser liberal é requerer também, claro, que essa Providência traga os que entraram no jogo sem cartas, para uma situação de poderem ter cartas para também jogar, como boa educação, saúde, etc.

A economia torna-se científica. Até os humores e as vontades dos homens também se tornam científicos, em um contexto em que se deve minimizar o risco, conhecer o comportamento de todas as variáveis que produzem riquezas. Os competidores querem minimizar o risco sem, contudo, tirar o aspecto de jogo e de sorte, ou a vida ficaria completamente desinteressante. Um indivíduo deprimido, há muito tempo desempregado, consegue atendimento psiquiátrico e de serviço social, num hospital público. O Estado pode oferecer-lhe um trabalho qualquer, esperando que desse pouco o indivíduo faça algo maior. O Estado poderia dar um ótimo trabalho a este indivíduo, mas não o faz. A crítica que uma Providência super generosa receberia baseia-se no interesse dos outros indivíduos em manter o jogo interessante. “A graça do jogo tá aí.”

William James diz que somos empiristas, queremos provas para o que acreditamos, mas temos uma inclinação natural que nos leva a considerar o absoluto7. Não há como provar a existência de Deus, como se pode provar um déficit de receita pública. Mas o homem concreto tem o espírito aberto: James dá o exemplo de um cara, numa festa, que só aceita as opiniões dos outros caso eles apresentem provas, e só concede favores a quem lhe der uma retribuição. Este homem segue o intelecto, não o coração. Quer exista, quer não exista Deus, hipóteses impossíveis de se provar, é uma boa atitude estar aberto para a possibilidade de ele existir.

O livro de Jó é apresentado, na Edição Pastoral da Bíblia Sagrada, como uma crítica às teologias da retribuição, que entendem Deus pagando as virtudes dos homens com bens, e as perversidades deles com males. Bem, o homem deve entregar-se gratuitamente a Deus, e dele receberá entrega gratuita. Boécio e Agostinho mostram a operação espiritual que desencadeia o contato do homem com Deus. James explica a religiosidade nas tendências passionais e volitivas que levam um indivíduo a estar aberto a uma crença dessas, que a deixam ganhá-lo. O intelecto crítico é o ideal a ser buscado, segundo James, mas a natureza passional do homem é um determinante das suas crenças.

Ghiraldelli nos diz, acompanhando James, que nós, homens laicos, temos uma meta religiosidade sensível às muitas experiências religiosas com que nos deparamos8. Trazendo um comentário de Sloterdijk sobre A Vontade de Crer, de James, Ghiraldelli diz que em nosso processo de laicização nos desgarramos da religião, não a negando, mas transformando nosso interior para essa variedade de experiências religiosas. A que Deus podemos olhar, hoje? Talvez para um Deus esquecido do próprio plano para o mundo. Ele só não esqueceu de nos programar para atiçá-lo (pela oração) para ele voltar a realizar o plano que Ele mesmo criou. O homem faz Deus ser Deus.

Enquanto houver crença em Deus, Deus existirá. E corresponderá a toda paixão implicada nessa crença. E quando não se é um crente, que se tenha essa meta religiosidade capaz de entender as religiões dos homens e, claro, de não perder a chance de ser considerado por Deus, no caso de ele existir.

1 Esta história é contada em 2 Macabeus, capítulo VII. Bíblia Pastoral. Editora Paulus, 1991.
2http://ghiraldelli.pro.br/filosofia/fortuna-e-os-espacos-de-animacao-boecio-maquiavel-e-os-modernos.html
3http://ghiraldelli.pro.br/filosofia/cristianismo-relacao-forte-e-subjetividade-em-peter-sloterdijk.html
4 idem, ibidem
5 Boécio. A Consolação da Filosofia. Editora Martins Fontes, 2012.
6http://ghiraldelli.pro.br/filosofia/fortuna-e-os-espacos-de-animacao-boecio-maquiavel-e-os-modernos.html
7 William James. A Vontade de Crer. Edições Loyola, 2001.

8http://ghiraldelli.pro.br/religiao/religiosidade-atual-james-sloterdijk.html