domingo, 4 de dezembro de 2016

Beijo-trauma


Andávamos na rua. Ela reparou em duas meninas se beijando. Eu não reparei. Quando vejo coisas assim, sorrio. Ela disse da vontade dela de vomitar, por aquele absurdo. Depois, em uma conversa, isso virou uma fala do tipo “onde esse mundo vai parar?” Fui lavar as louças do bolo.

Agora é tarde, e vejo vídeos de um professor de canto que comenta sobre cantores. Dos que assisti, ao escrever isso lembro dos vídeos sobre a Cassia Eller e a Elis Regina (https://www.youtube.com/watch?v=MTXgJoH4MxM e https://www.youtube.com/watch?v=La2tvTtqgsI). Fico triste e feliz ao ver qualquer coisa sobre elas. Sinto empolgação com os detalhes que elas punham em suas interpretações. Sinto vontade de chorar nas partes mais dramáticas. Sinto ternura quando lembro que a morte levou tão fortes e frágeis criaturas.

Elis certamente fez o que quis da vida. Não se conteve. Cássia também. Ela apareceu com uma música em que ela dizia que a mulher iria colocar a boceta na dela. Ela canta e não deixa se levar por vergonha. Ela não tinha vergonha, como todo artista de verdade. E eu não coro ao ouvi-la. Vibro com o ataque do leão.

Cassia e Elis cantavam o tempo todo. Então estavam sempre atacando. Pode ser que, se parassem de cantar, parassem de dar show, diriam um comentário preconceituoso sobre algo. Com a conhecida, numa festa, falariam dos políticos corruptos, da violência da cidade e dos meninos que acham normal serem gays. Falas que são reproduzidas pelos robôs do tédio.

Quando esses falantes trabalham, talvez façam coisas bonitas. O mal é o que fazem na hora livre, quando mostram-se pessoas satisfeitas com o senso-comum, que não param um pouco para preparar uma fala-ataque, que demonstre elaboração e inteligência. Ataque não é agressão: é bela exibição.

Eu, como penso, penso o tempo todo. Penso em dores. Penso na minha vontade de ver coisas melhores do que a mediocridade. Penso num assunto, muitas vezes enquanto digito. Tomara que apareçam uns gays se agarrando pra valer, na rua. Assim, os que reclamam de agarração, quando na verdade viram selinho, terão seus olhos arregalados e nem saibam o que fazer. Algo neles mesmos se movimentará sozinho.

Um simpósio sobre a transferência


No Seminário 8, Lacan apresenta o Banquete, de Platão. Seu objetivo é investigar o fenômeno da transferência. Freud conceituou este fenômeno como a revivência, pelo paciente, de antigas posições amorosas suas. Lacan entenderá este fenômeno como amor, especificamente amor-desejo, amor que busca algo. Neste comentário ao Banquete, encontrará na relação amorosa entre Sócrates e Alcibíades um rico material para se pensar a transferência. O que deseja o amante e como é desejado o amado, explicam essas mesmas posições.

A transferência ocorre na relação entre o paciente e o analista, e está nos gestos e falas daquele. O analista fica embaraçado: ao mesmo tempo em que deseja que o paciente continue indo à análise, teme as consequências de ser amado por ele. Todo analista repete o embaraço que Breuer sentiu com o amor que Anna O lhe dirigiu.

O paciente chega à análise para falar sobre seus sofrimentos. Ele quer saber “o que tem”. Ele não sabe o que tem. Destaca-se, aí, o não saber. O inconsciente, como uma instância desconhecida pelo sujeito, e que nele produz os seus efeitos, é descoberta freudiana. Investigando e tratando os fenômenos histéricos, Freud descobriu a existência de um pensamento que opera independente da consciência. O paciente é tomado por uma instância que o faz falar e agir independentemente da sua vontade e da razão do seu eu.

Este não saber, Lacan o entende como um saber que foi excluído da consciência e constituído como inconsciente. Esse saber excluído funciona como uma cadeia significante, porém inconsciente. Ao contrário do que o sujeito da consciência imagina, a fala do paciente não se conduz apenas pela cadeia significante consciente. Em maior medida ela se conduz pelos caminhos do inconsciente.

Durante a análise, o analisando rememora pontos do seu passado. Estes pontos emergem a partir da cadeia de significações inconscientes, que se presentifica na forma de transferência, e que serão interpretados pelo analista. A transferência será o ambiente onde ocorre a fala do analisando, e também o instrumento para a sua interpretação.

“Nas condições centrais, normais, da análise, nas neuroses, a transferência é interpretada sobre a base, e com o instrumento da própria transferência. Não poderá, então, ocorrer que não seja da posição que lhe é dada pela transferência que o analista analise, interprete e intervenha sobre a própria transferência.” (LACAN, 2010. p. 219)

O passado do analisando, contudo, presentifica-se também em ato. A transferência é a reprodução deste passado na relação entre o analisando e o analista. É a reprodução dos primeiros amores dele. Não há, da parte do analisando, qualquer conhecimento acerca do que está amando, no analista. Como dizer aquilo sobre o qual não se sabe?

“Quando se chega, e em muitos outros campos além daquele do amor, a um certo termo que não pode ser obtido no plano da épistèmè, do saber, para ir mais além, é necessário o mito.” (LACAN, 2010. p. 155)

A filosofia antiga recorre ao mito, a fim de elaborar o seu saber. As narrativas de Homero são uma das principais bases culturais de Platão. O que distinguia o homem dos deuses era a mortalidade. Os deuses eram sem duração, eternos. De acordo com o estoicismo, os deuses eram uma realidade material “fina”, sutil e que recobria todo o existente. O saber do homem era limitado por suas vivências imediatas e por sua condição de mortal. O saber de natureza divina era o logos.

Sócrates filosofava por Querofonte ter lhe dito que ele, Sócrates, era o mais sábio dos atenienses. Querofonte ouviu isto das pitonisas do Templo de Apolo. Era um recado divino para Sócrates, que o fez investigar sobre o que os atenienses sabiam. Ou melhor, Sócrates pretendia conhecer, e cuidar, do cuidado de si dos atenienses, ou seja, do saber que eles tinham sobre a própria alma, em relação ao lugar que eles queriam ocupar na pólis. Sócrates perguntava para descobrir se eles de fato possuíam conhecimento acerca do que se arvoravam saber.

Sócrates também era, a todo momento, advertido por um daimon, que o acompanhava. Com essa presença divina, o filósofo buscou a sua ciência. Nos diálogos platônicos, Sócrates nunca discursa a partir de si mesmo, mas por inspiração divina. É como se ele, ou qualquer outro homem, não pudessem ter acesso a um conhecimento de uma ordem para além deles.

A respeito do amor, do qual se dizia mestre na arte, Sócrates aprendeu com Aspásia, amante de Péricles. E também com Diotima, uma mulher da Mantinéia, “que era sábia tanto nesta matéria quanto em muitas outras” (PLATÃO, 2012. p. 77). De Diotima, Sócrates traz para o Banquete um dos mais belos mitos a respeito de Eros. É o mito de Poros e Penia.

Nasceu Afrodite, e os deuses reuniram-se para festejar. Poros fartava-se de néctar. Em certo momento, ele adormece, embriagado. Poros significa expediente, recurso. Penia assistia à festa sentada nos degraus que davam acesso à porta. Penia era a miséria, ausência de recursos. Ela não estava à altura dos outros deuses.

Ao ver Poros adormecido, Penia deita-se com ele. Como resultado disso nasce Eros. Eros é filho do recurso com a falta. Está no meio de ambos, não sendo destituído de posses, como a mãe, nem sendo o Recurso, como o pai. E nasce no mesmo dia da deusa da beleza. Em relação à Beleza, Eros também é intermediário: ele não pode ser totalmente destituído de beleza, pois só poderia amá-la conhecendo-a ao menos um pouco. E ele não pode ser pleno de beleza, do contrário não a amaria, ou seja, não sentiria a sua falta e não a desejaria.

“Este amor de que falas, é ou não é amor de alguma coisa? Amar ou desejar alguma coisa é tê-la ou não tê-la? Pode-se desejar o que já se tem?” (PLATÃO, 2012. p.74), Sócrates interroga Agatão.

A quem ama, o objeto do desejo está ausente. É algo que lhe falta, por isso o deseja. Amor é, aqui, falta e desejo. O amor está entre o amante e o amado, entre o sujeito do desejo e o objeto do desejo. A respeito do amante, Sócrates novamente pergunta a Agatão: “Consequentemente, a essa pessoa e a geralmente todos aqueles que experimentam desejo, o experimentam por algo que não está disponibilizado ou presente; por algo que não possuem, que não são, ou de que carecem, sendo isso o objeto e do amor?” (PLATÃO, 2012. p. 75)

A cena final do Banquete é aquela na qual, segundo Lacan, ocorre uma virada: ao invés de falas elogiosas sobre o amor, os presentes passam a elogiar uns aos outros, o que significa que passam a agir no amor. Alcibíades entra, bêbado, disposto a exprimir o que Sócrates é para ele. E também o que ele gostaria de ser, para Sócrates. Ele entra bêbado em festa de homens que controlam a si mesmos na fruição do vinho. “Alcibíades espera muito de Sócrates.” (LACAN, 2010. P. 213).

Segundo Lacan, nesta cena encontra-se o fundamental do que ele chama de posição do sujeito do desejo. O sujeito é constituído por um splitting, desdobramento de duas cadeias significantes. Essa hipótese do desdobramento se justifica, dada a relação lógica inicial do sujeito com o significante. O sujeito é entendido como o suporte da cadeia significante. A cadeia significante se inscreve no sujeito como uma marca. Por essa marca deslizam indefinidamente os significantes da cadeia.

O infinito deslizamento dos significantes é um elemento dissolutivo, no sujeito. Há, contudo, um objeto que estanca esse deslizamento. É um objeto que constituirá uma fantasia fundamental, na qual o sujeito se reconhecerá, ficando fixado. Essa função do objeto o faz ser chamado de objeto a. Identificando o sujeito à fantasia fundamental, o desejo assume consistência. Esse desejo se coloca no sujeito como desejo do Outro, A.

“A é definido para nós como o lugar da fala, esse lugar sempre evocado desde que há fala, esse lugar terceiro que existe sempre nas relações com o outro a, desde que há articulação significante.” (LACAN, 2010. p. 215)

A é, em última instância, para quem se fala e por quem se fala, quando o sujeito se dirige a a. Em cada demanda de amor, é ao Outro que dirigimos nossas súplicas. Ele está além da demanda pelo objeto amado.

Alcibíades deseja Sócrates. Este desejo foi desencadeado pelo agalma de Sócrates, um objeto indefinível, uma joia, que ele encerra dentro de si mesmo. Sócrates, contudo, não se põe na posição de ser amado. Ele se põe como vazio, não há nada nele para ser amado. De fato, Sócrates amava Alcibíades. “Sócrates é alguém cujas disposições amorosas se voltam para os belos rapazes.” (LACAN, 2010. p.177).

Alcibíades, apesar de não ser tão jovem, conservava-se nesta aparência. Ele possuía pretensões políticas. Teria ele o necessário, para isso? Sócrates frequentemente estava com o condecorado general, orientando-o no conhece-te a ti mesmo. O filósofo também o salvou, por duas vezes, em batalhas.

Em sua verborragia, Alcibíades se queixou de que Sócrates jamais deu sinais do amor que sentia por ele, amor que ele tinha certeza que existia. As posições do amante e do amado se inverteram, e Alcibíades tornara-se amante de Sócrates, ou seja, passou a desejar algo dele, uma atividade, enquanto se apassivava.

O discurso de Fedro, proferido no início do evento, falou sobre esta troca de posições entre o amante e o amado. O destaque nisto é Aquiles e Patroclo, personagens da Ilíada, de Homero. O maior guerreiro do lado grego vivia com seu amante e admirador incondicional. Patroclo servia Aquiles como a um deus.

Aquiles andava encolerizado com o comandante geral das hostes gregas, Agamêmnon, e retirara-se da guerra contra os troianos. A certa altura, os gregos jaziam encurralados nas naus. Patroclo, então, vestiu as roupas terríveis do amado e lançou-se à luta. À visão dele, os inimigos petrificavam. Outros tantos ele matou. Heitor, o maior dos troianos, pusera, então, fim a esta folgança, assassinando Patroclo.

Sabendo disso, Aquiles, desesperado, caiu de joelhos. Arrancou os loiros cabelos e trocou-os por terra, retirada do chão. Vestido de nova armadura, fabricada por Hefesto, foi matar troianos, e também Heitor. Aquiles sempre soubera que estava destinado a uma curta vida. Então ela deveria ser gloriosa. Agamêmnon ameaçara esta glória, mas isso agora era secundário.

Aquiles era um amante ferido, e Patroclo havia lhe mostrado o caminho para o cumprimento do seu destino. Matar Heitor seria seu último feito, o maior de todos. Os deuses aplaudiam seu gesto de amante, por ele ter saído da posição de amado.

Sócrates era oco, não podia ser amado. Alcibíades investia, perguntando quando eles passariam a noite juntos. Mas a essência do filósofo é “este ouden, este vazio, este oco.” (LACAN, 2010. p. 198)

Sócrates observa que Alcibíades viu nele algo que tornaria, ao próprio Alcibíades, melhor. Em troca disso, Alcibíades oferecia a sua beleza. Este algo que Sócrates possui é uma beleza de outra qualidade. Sócrates não cede aos apelos de Alcibíades pois, fazendo isso, estaria trocando sua própria beleza distinta por prazer corpóreo. Ele não faz isso. E também não oferece a Alcibíades a doxa, a palavra fácil dos aduladores. Ele oferece a verdade.

“Filosofia é aprender a morrer”, frase de Montaigne. O filósofo sabe que suas experiências corporais são fonte de um saber qualquer, não de conhecimento. O verdadeiro saber é alcançado quando o olho da alma, da sua parte nobre, o intelecto, eleva-se ao seu ambiente original. O Mundo das Ideias, local de passeio dos deuses, é o lugar do saber sobre como as coisas realmente são.

O método interrogativo de Sócrates, o elenkhos, que é o da refutação, visava que seu interlocutor, ao perceber a incoerência entre suas próprias respostas, também percebesse que faltava-lhe um saber sobre a matéria a respeito de que conversava com o filósofo. No diálogo Hippias Maior, Sócrates conversa com o sofista deste nome acerca da beleza (como característica de coisas particulares). Sócrates pede que o outro lhe dê elementos para que ele, Sócrates, possa mais tarde convencer um difícil amigo seu, com quem ele vive. Esse íntimo amigo não é outro senão ele mesmo. Sócrates queria convencer a si mesmo do que Hippias lhe dizia.

A pior coisa, para o homem, é discordar de si mesmo. É fazer algo errado, e à noite ter de dormir acompanhado desta pessoa. Entre eu e eu mesmo deve haver amizade, e isso, aqui, tem o sentido de coerência do que se diz. Lacan aponta que, para Sócrates, a verdade está toda no discurso. Ela não está na fala que provém das experiências particulares da pessoa – estas ficam armazenadas e são formadoras da nossa psicologia individual, o si mesmo, auton hekaston. O saber perene das coisas, o saber verdadeiro, é acessível pelo mesmo em si mesmo, auto to auto.

Esta é a alma de natureza divina, e que um dia passeou, mesmo que brevemente, no rastro do cortejo de Zeus pelo Mundo das Ideias. Esta alma é uma particularidade do filósofo, e seu trabalho, na vida que tem aqui, é relembrar as coisas que um dia ele soube, mas que estão esquecidas.

Sócrates era enraizado em Atenas. Apenas duas vezes ele saiu de sua cidade, e por motivo de participação em guerras. Ele dependia de Atenas, para filosofar. Mas ele era estranho, para seus concidadãos. Sócrates preocupava-se antes com o conhece-te a ti mesmo, dele e dos outros, do que com o saber dos rapsodos e sofistas. Ele negava tanto a autoridade da tradição, dos primeiros, quanto do poder de convencimento, dos segundos. Ele ria da nossa satisfação com parcos saberes. A verdade estava na coerência do discurso, dos significantes.

Sócrates não hesitava entre viver uma vida sem conhecimento ou uma vida com conhecimento de si. O saber sobre aquilo que é não pertence a esta vida. Pertence à alma eterna que, assim como o conhecimento, tem natureza divina. A coerência de discurso, que um homem pode atingir, precisa deste fundamento no além. O lugar de Sócrates nesta vida, então, é um atopos, um lugar insituável.

Podemos considerar uma topologia entre-duas-mortes: o homem está diante de duas fronteiras entre a vida e a morte. A primeira fonteira é a que decorre do envelhecimento, da doença ou dos traumas físicos, que interrompem a vida. A segunda fronteira, que é essencial para entendermos, por exemplo, a glória, kléos, do homem antigo, é a da aniquilação, não da própria vida, mas do próprio si mesmo, a fim de se “inscrever nos termos do ser.” (LACAN, 2010. p.128).

Lacan nos fustiga, fazendo-nos ver que no amor, por mais que nos esforcemos para dar algo a alguém próximo e querido, fica a sensação de que algo está faltando. Uma relação, uma troca, é um girar em torno da fantasia que se tem acerca do outro.

No entre-duas-mortes, o desejo de algo, de um objeto, é esvaziado. O que há é desejo de discurso. Algo fala no homem, um isso. Um isso fala no homem, e um sujeito impensável se apresenta. Havíamos falado que, no momento em que o sujeito se fixou em a, o outro próximo, estancando o escorrer da cadeia significante, o desejo assumiu consistência. Ocorre que este desejo também se enraíza em A, é desejo do grande Outro.

O amor ao outro próximo é um endereçamento ao Outro. A pessoa a quem o sujeito ama é subitamente volatilizada.

“Tudo o que sabemos sobre o inconsciente, desde o início a partir do sonho, nos indica que existem fenômenos psíquicos que se produzem, se desenvolvem, se constroem para serem ouvidos, portanto, justamente para este Outro que está ali, mesmo que não se o saiba. Mesmo que não se o saiba que eles estão ali para serem ouvidos, eles estão ali para serem ouvidos, e para serem ouvidos por um Outro.” (LACAN, 2010. p. 221).

O amante quer transmitir um recado, que ele sabe não compreensível ao outro, ou até por si mesmo. O Outro é o destinatário dos nossos atos, sobretudo dos nossos atos de amor.

A fala de Alcibiades, no Banquete, é uma confissão no tribunal do Outro. Ele tentou dobrar a vontade de Sócrates, subordiná-lo como objeto do seu desejo, agalma, o seu bom objeto. Por isso, ele quis um sinal do amor de Sócrates por ele. A mola do desejo é a queda do Outro em outro. É uma tentativa de ignorar que, no amor, na verdade o que se faz é dirigir-se a A, algo além. E é a esperança de se satisfazer com a, em receber dele exatamente o que se deseja. Bem, uma vez que a expectativa que o amante tem do seu amado refere-se ao desejo, que está enraizado no grande Outro, ela não é passível de satisfação, nesta relação.

Sócrates é cúmplice deste grande Outro. Quando alguém estende sua mão a uma flor, uma mão pode esticar-se da flor ao amante. Tal é o milagre do amor. Ao ocupar-se do gnothi seauton, ocupe-se de sua alma, Sócrates faz-se cúmplice não do desejo pelo outro, mas pelo grande Outro. Lacan lembra de Rute, que perdeu o marido mas continuou acompanhando Noemi, sua sogra. Ambas voltaram a Belém, e estavam vivendo na pobreza. Noemi sugeriu que Rute fosse ver o que poderia arranjar nas terras de um certo parente seu, de posses. Ela prontamente atendeu. Rute catou as espigas que os trabalhadores de Booz deixavam cair.

Após um segundo dia de trabalho, a dedicação de Rute foi notada por Booz. Noemi mandou-a perfumar-se e esperar o momento certo, com Booz. Noemi viu-o deitado, após ele embriagar-se. Ela deitou-se com ele. Rute não pensava no motivo porque estava fazendo essas coisas. Ela apenas fazia. O propósito disso estava em Javé: por um caminho insondável, o plano era estabelecer justiça para com o pobre.

Noemi, para sobreviver, via-se obrigada a vender suas propriedades. Pela lei do levirato, o pobre tinha direito a que o parente mais próximo, caso tivesse condições, comprasse a propriedade dele. Assim, a propriedade não se afastava completamente do pobre. Booz consultou o parente mais próximo de Noemi. Vendo que ele não se interessava em “resgatar” os bens de Noemi, ele mesmo aceitou fazê-lo. Booz comprou as terras do filho de Noemi, e casou-se com Rute.

O filho de Rute e Booz foi considerado um filho de Noemi, uma graça de Javé para ela. E os bens deles também permaneceram próximos dela. As ações de Javé ocorrem por caminhos que o homem desconhece. Sócrates é um personagem que age misteriosamente. Nem sempre se sabe o que ele quer. Ele age pelo desejo do Outro, e suspeita disso. E ele entende o amor de Alcibíades por ele como amor de transferência, e procura dirigi-lo ao local do seu verdadeiro desejo.

O amor, sendo filho da penúria, é o desejo de possuir algo. Mas o que? Sócrates amava os belos rapazes. No diálogo Fedro, a beleza do amado, quando vista pelo amante, adentra os olhos deste, inunda-os. A alma do amante se aquece, suas penas voltam a brotar e ela fica novamente emplumada, ela que anteriormente era assim, antes de ficar completamente desnuda. Com as asas refeitas, a alma pode alçar voo para o mundo inteligível. A beleza é o meio pelo qual o filósofo pode ir além do físico e alcançar o mundo das Ideias, ou seja, superar o saber extraído do sensível, indo em direção ao saber verdadeiro.

De volta ao Banquete, Lacan diz que o homem encontra a beleza fora do domínio do ciclo da vida, da cadeia do ser gerado e do ser perecível, que o determina como mortal. Num lugar mais elevado é onde o homem busca a essência do seu ser. O belo é o modo como o homem pode aproximar-se do eterno.

Sócrates se diz servidor de Eros. Assim, ele se serve do deus. O objetivo da análise é o Eros do paciente. Não se busca satisfazer a uma demanda, seja do paciente ou do analista, a respeito do que seja o “bem” dele. A análise quer por em evidência o desejo do paciente.

O que caracteriza a posição do amante é que algo lhe falta, e lhe faz desejar. Ele não sabe o que lhe falta, e essa insciência é a do inconsciente. O amado, por sua vez, não sabe o que ele tem, que o faz ser objeto do desejo do amante. “O que falta a um não é o que existe, escondido, no outro. Aí está todo o problema do amor.” (LACAN, 2010. p. 56).

Na análise, o amante encontrará a sua falta. Ele sentirá a falta, pois o analista deixará vago seu próprio lugar. O analista não dá sinais do seu desejo, não como a flor que estica a mão de volta ao seu amante. Ele deixará espaço para o paciente atuar com o objeto a. O paciente deve viver o seu desejo, embora o que possa realizar esse desejo não é possuir o objeto desejado. O desejo emergirá como uma realidade como tal.

A análise é como a investigação socrática: uma escola de amor. O paciente fecha-se com o analista, para aprender a amar. A transferência, revivência que o paciente faz do seu modo de amar infantil, é um cenário preparado pelos impulsos, dele, que estão afastados da consciência e da realidade. O paciente não sabe porque se relaciona assim com as pessoas, como também não sabe sobre o próprio sofrimento. Ele supõe que o analista saiba sobre essas coisas, e que um dia ele lhe dirá.

O analista pede ao paciente que siga a regra da associação livre, que consiste em dizer tudo o que se passa em sua cabeça, procurando não reter nada. Em um momento de sua fala, porém, o paciente para. Ele percorreu seus pensamentos conscientes, e chegou aos inconscientes. Em palavras lacanianas, percorreu os significantes conscientes e chegou aos inconscientes. E parou de falar por ter tocado em representações inconscientes investidas de energia libidinal, representações estas que aparecem ao paciente como estando diretamente relacionadas à figura do analista.

O paciente move-se pela falta, a qual supõe que o objeto amado, o analista, satisfará. No momento em que para de falar, e passa a atuar a fantasia, o paciente está, pode-se dizer, no amor-cego, na paixão. O paciente assim atua justamente para não ter que continuar rememorando o próprio passado. Breuer assustou-se com o avanço apaixonado de Anna O sobre ele. A sede pelo objeto amado pode ser entendida como um amor desmedido. Paixão é uma relação especular: dá-se ao outro o que se imagina que ele queira. O paciente orientará a sua fala na busca por conquistar o analista, ter a posse do agalma.

A análise segue na tentativa de fazer o paciente, que está nessas condições, continuar percorrendo a cadeia dos significantes inconscientes, ou seja, continuar falando. A aposta é que o paciente vá se apaixonando menos pela figura do analista, objeto a que não corresponde ao seu amor, mas por confessar-se a A. O paciente deverá apaixonar-se pelo enigma que é ele mesmo.

Bibliografia
BÍBLIA SAGRADA. Edição Pastoral. São Paulo: Paulus, 1990.
FREUD. Sigmund. A dinâmica da transferência. In. Obras Completas. Vol 10. São Paulo: Companhia das Letras, 2013.
GARCIA-ROZA, Luis Alfredo. Freud e o inconsciente. 2. ed. 25. reimpressão. Rio de Janeiro: Zahar, 2014.
GHIRALDELLI JR., Paulo. Sócrates, pensador e educador: a filosofia do conhece-te a ti mesmo. São Paulo: Cortez, 2015.
HOMERO. Ilíada. São Paulo: Penguin-Companhia das Letras, 2014.
LACAN, Jacques. O Seminário, livro 8: A Transferência. 2.ed. Rio de Janeiro: Zahar, 2010.
PLATÃO. O Banquete. São Paulo: Edipro, 2012.
PLATÃO. Fedro. São Paulo: Edipro, 2012.

O valor da vida


Veja o vídeo da enquete feita por Fátima Bernardes, em seu programa: https://www.youtube.com/watch?v=-BQsafM8sVA. É uma pergunta sobre quem um médico deve salvar primeiro. Repare que ainda não estou dizendo as opções. Elas não são as que parecem ser, à primeira vista. No cenário, há os nomes “policial” e “traficante”, dando as opções de quem salvar primeiro. Fátima, porém, ao explicar a questão, diz que o policial tem um ferimento leve e o traficante tem risco de morte. Então, pela fala de Fátima, as opções não são o “policial” ou o “traficante”, mas o “levemente ferido” ou o “com risco de morte”.

Os participantes do programa, tendo ouvido a explicação de Fátima, optam pela pessoa em estado mais grave. Eles contam histórias de pessoas que roubam e até baleiam outras e que, quando precisam, procuram atendimento médico para si mesmas, sendo atendidas. A conversa, então, não é sobre criminosos menos ou mais perigosos, mas sobre o direito de todos a serem atendidos em sua demanda por saúde.

No programa também está presente um médico plantonista do hospital carioca Miguel Couto. Ele diz que a equipe de saúde segue uma classificação internacional de risco, para avaliar as prioridades de atendimento. Ao dizer isto, ele se coloca acima das posições sociais ou em relação à lei, e até de dramas pessoais. O termo “internacional” soou como “universal”. A preservação da vida deve ser universal.

Nenhum dos presentes possui algum dilema. Não há dúvida acerca do que deve ser feito. Porque não se trata de escolher entre “policial” ou “traficante”, mas de simplesmente salvar uma vida.

O quadro do programa de Fátima é rico, dá o que pensar. Mas quis apresentar um dilema que, diante de um valor universal, ficou diluído. O valor universal dá uma diretriz sobre o certo a se fazer. Estando sob esse cenário, escolher atender ao policial levemente ferido, enquanto se deixa o traficante morrer, é errado.

Os espectadores do programa ficaram menos com as palavras de Fátima e mais com as palavras “policial” e “traficante”, em suas cabeças. Para eles, a ideia do valor da vida ficou distante. Em primeiro plano, ficou toda a preocupação da pessoa com a própria segurança. Eu, mesmo no caso de eu ser médico, se estou em minha casa ou na rua, com a minha família, preferiria antes encontrar um policial do que um traficante. Olhando para o meu umbigo, e falando a partir de um medo social, eu diria que é preferível um traficante morrer a um policial. Mas, eu sendo médico, se estou diante de uma pessoa morrendo, esteja eu na rua ou no hospital, darei atendimento.

O médico faz um juramento em torno do valor absoluto da vida. Um advogado faz um juramento em torno do valor absoluto da justiça. Estes especialistas são defensores do que entendemos por prerrogativas do ser humano. Nesse sentido, são humanistas. E o humanismo é um princípio acerca do que é o certo a se fazer.

Por falta de educação, nossa, temos dificuldade de alcançar algo absoluto, ou um princípio, pois estas são coisas abstratas. Pensamos nossas experiências particulares e a dos outros como pão-pão queijo-queijo. Falta-nos recursos intelectuais para pensar nessas experiências. Vivemos pra atender demandas imediatas relacionadas ao medo, insegurança ou outras necessidades. A necessidade e o imediato (que são quase a mesma coisa) tornam-se o parâmetro ético. A defesa de valores absolutos torna-se coisa de “defensores dos direitos humanos”, numa acusação que quer dizer: “desconhecedores das necessidades ‘reais’ das pessoas”. O intelectual então é míope, sonhador no sentido de bitolado. Inútil, até pernicioso. São vistos com maus olhos o médico que atendeu um criminoso, e o advogado que buscou a justiça para ele.

Nesse anti-intelectualismo, que joga fora qualquer valor além de mim mesmo, não demorarei a começar uma guerra civil.

p.s.: Percebem agora o quanto a tv de qualidade está acima da capacidade intelectual geral da população?

Explicação da vida


“Como vou explicar esse mundo louco de hoje para o meu filho, daqui a uns anos?”, li no face, escrito por alguém que sempre posta em favor do PT. O mundo não é complicado. É um mundo em que se deve aprender a lidar com aquilo que constrói coisas e com aquilo que destrói coisas.

O amor e o orgulho constroem. O ódio destrói. Fantasia constrói mundos. Delírio destrói mundos, enquanto afirma Um. Sabemos dessas coisas. O homem precisa ser mais livre, e ajudar os outros nisso. O homem não tem de ser igual aos outros.

O mundo é simples quando se entende que ele se trata de fomentar a criação, e a impedir não a destruição, pois ela vem junto da criação, mas a mesmice. O mesmo mundo. A mesma teoria para explicá-lo.

Quem vive na mesmice é assediado pelo mundo. Vive tentando defender seu mesmo pensamento. Contra uma montanha de fatos, defende a inocência de um Lula. Não se diz que ele seja honesto. O que se diz é que ele é inocente, que não sabia. Um bichinho, uma natureza pura.

Lula tem a mesma cara de sempre, mas andou fazendo muita coisa de uns anos para cá. Ele tratou da vida dele como bem entendeu. Mas mantém a ideia do mesmo, criando seguidores com a mesma ideia. Seguidores que evitam o trabalho que dá, viver.

O entendimento da vida é direto: é a felicidade de criar algo. Mas ser feliz dá trabalho. Dá trabalho acompanhar o que acontece e ir pensando. Não deixar os julgamentos atrapalharem seu discernimento das ideias e dos fatos. Não inocentar desonestos que se dizem honestos para manter o mesmo roubo. Não manter a defesa do mesmo mundo.

O que farei, na vida? A mesma coisa? Criação, minha para os outros e dos outros em mim. Ideias novas a que comentam e comento. Sem abaixar a cabeça, deixar fazerem as coisas por você. Tem gente rindo enquanto você está parado. Pior: você está morto.

O novo surge no contraponto que as ideias vão fazendo a cada momento. Podem ser ideias antigas. Faça esse contraponto, veja os sentidos. Não seja literal, não queira falsas simplicidades. O homem é literário.

Por que o "Primeiramente, fora Temer" não evolui?


Eu estava indo para o Rio, a partir de Niterói, usando barca. Peguei uma barca novíssima: bancos, paredes e chão brilhando. Ar condicionado. O vidro do janelão ao lado era perfeitamente transparente, parecia uma passagem livre para o mar. Tanta coisa nova, ainda havia um ar de barca antiga, daquelas feitas de madeira e ferro, não vidro e plástico. No banco da frente, vejo escrita a frase, à caneta: “Fora Temer”. Meu pensamento deixou de estar ali, e naquela paisagem.

Em sua entrevista para o Roda Viva, quando perguntado se apoiaria algum nome para o Congresso, no ano que vem, Michel Temer disse que não daria qualquer opinião, respeitando seu papel de chefe do executivo. Mas, logo após dizer isto, Temer fez uma ressalva: “A não ser que o pretendente diga ‘Fora Temer'”. Neste caso, Temer falou aos risos, ele diria que tal comportamento, vindo de uma pessoa a quem ele chamou por “rapaz”, não é compatível com o cargo. Em seguida, Temer voltou a dizer que não se intrometeria.

Quem diz “Fora Temer” demonstra um comportamento incompatível com o Congresso. Dizer isso para qualquer um na rua, que é o efeito pretendido com uma pichação, é um comportamento inadequado para o público. Algo está faltando nesta pessoa. Está faltando educação. O pretendente à presidência do Congresso pode ter uma vida política pregressa que sugira aptidão para o cargo, porém, ao dizer “Fora Temer”, ele se torna um rapaz, algo anterior a um adulto e aquém da liturgia da política institucional. Além disso, este limite em sua educação leva a um limite na cognição e consequentemente na capacidade técnica, pois raciocinar e agir bem requer cotejar diversas ideias, e não fincar pé em uma ideia preferida.

Alguns adolescentes insistem em empurrar suas pichações, e dizer que estiveram ali. Querem ser diferentes, reconhecidos em sua diferença, donos de lugares, reis em sua diferença. Não lhes importa se o lugar em que estão dê prazer a qualquer um que se sente ali e, portanto, leve a pensar em outras coisas, ou a pensar em nada. Eles têm horror a serem qualquer um, mesmo que seja para algo prazeroso.

Mais tarde, ainda no passeio de hoje, passei em frente à UNIRIO, na Praia Vermelha. Havia cartazes dizendo que o lugar está “ocupado”, e um grande cartaz dizendo quais eram as reivindicações dos “ocupantes”. A primeira delas era, adivinha? “Primeiramente, Fora Temer”. Imagine comigo se o Temer resolvesse dizer essa frase. Imediatamente ela sairia da boca dos que a dizem. Essas pessoas não gostariam que o presidente fosse o espelho do seu balbucio adolescente.

Parece que, diante do discurso bem construído que Temer sempre apresenta, muitos dentre nós estão identificados com a Dilma perdida. Sim, aquela frase é um choro, e ela está bem no nível da ex-presidente.

Novas ideias para as escolas ocupadas


Os grupos de militantes mais expressivos que temos são os que defendem os direitos dos gays, dos negros, das mulheres e dos estudantes. Por direitos, em um contexto de política liberal, entende-se a garantia de condições para que os indivíduos se desenvolvam intelectual, moral, social e materialmente. Militar em favor desses direitos é, portanto, algo correto a se fazer. E a direção correta da militância é a defesa desses direitos. Fazer jus a direitos significa que se está inserido em uma sociedade e se participa de um Estado. Portanto, não se está isolado no próprio direito, mas este direito deve ser defendido pelo todo da sociedade, bem como assegurado pelo Estado.

Aquelas militâncias organizam-se em torno de identidades: o negro, o gay, o estudante e a mulher. Por meio dessas imagens, indivíduos fazem as reivindicações por melhorias em suas vidas. Nem toda reivindicação social para a política ocorre por meio de uma identidade: as pessoas, em geral, pedem melhorias nas vias públicas, na segurança de alguns bairros, etc. Mas a identidade, sem dúvida, é um agregador por meio do qual o indivíduo procura realizar um direito que já é seu, como indivíduo. É uma forma não só de apresentar-se socialmente, como de melhorar a própria relação com o Estado. No entanto, há situações em que a reivindicação baseada em identidade antes isola os indivíduos com relação à sociedade e ao Estado do que permite sua comunicação com eles.

Estudantes têm direito a estudar. A forma criada pela nossa cultura para proporcionar isso a uma população é a da escola, em que pessoas com mais idade e com alguma formação encontram pessoas com menos idade e sem formação. Nesse encontro, espera-se que as primeiras transmitam às segundas o melhor do conhecimento acumulado na própria cultura, em diferentes áreas do saber. E que também criem na escola um ambiente com normas e regras para a boa convivência. Atualmente, algumas escolas foram tomadas por jovens que deveriam ser alunos nelas. Tornaram-se territórios dominados pelas vontades deles, fechados à presença e à participação de adultos que venham como contraponto ao que eles querem. Como justificativa, esses jovens dizem estar lutando contra medidas do governo “contrárias à educação”.

Nessas dominações, a escola, como instituição de ensino, foi interrompida. A educação foi interrompida, de vez. Educar crianças e jovens é dever do Estado e da família. Se é dever deles garantirem a educação de crianças e jovens, estes também estão obrigados a frequentarem a escola e a se educarem. Esse é um dever que, quando exercido, faz laço social. Mas essa militância que domina as escolas é antes a primazia da identidade “estudante” do que a busca por realizar o direito à educação. Ser um estudante e dominar escola está vindo antes do certo a ser feito.

Paulo Ghiraldelli Jr mostrou que nossa militância de esquerda herdou de Rousseau o pensamento de que o pecado original do homem, a raiz de todo mal social, foi quando um indivíduo cercou um pedaço de terra e disse que aquilo é sua propriedade (http://ghiraldelli.pro.br/filosofia/espelho-de-lula.html). Quem tem propriedade tem o fruto de um roubo, nesse ponto de vista. A primeira medida que a militância de esquerda solicita da política é a taxação das riquezas. E um roubo como o que o PT fez ao país não é sequer mencionado, e quando o é, é justificado como uma “desonestidade que não é desonesta, mas correta”. É uma defesa do partido antes do que da honestidade. Os jovens que dominam suas escolas entendem que estão tomando de volta um território, e querem mandar sozinhos, nele.

Esse mito de que um dia algo lhes foi roubado vem à tona na urgência em ser Estudante, em tirar todas as pessoas e as propostas que não são Estudante, de perto. Vemos essa urgência quando uma militante feminista diz que um homem não pode falar sobre o feminismo, ou quando um militante pelos direitos dos negros diz que um branco é cínico quando vai à delegacia denunciar uma atitude racista que um negro tenha sofrido. Lições de mestres são tomadas como invasão, funcionamento escolar é tomado como prisão, e os Estudantes então anseiam por ter aquele território só para eles.

Há muito se diz, na escola, que os portugueses invadiram o Brasil. Ao discurso da descoberta e da posse vem se contrapondo o da invasão e da exploração. Sim, os índios morreram, e os negros sangraram, mas o que podemos fazer, hoje? Cuidar do que temos e de quem somos, certo? Mas aqueles jovens querem ser os índios que vêem as caravelas chegando. Ao invés do contraponto dos discursos, o discurso da dominação tornou-se uma obsessão. Rousseau não disse que um homem civilizado poderia retornar à vida sem cultura. Mas esses jovens que tomam escolas acreditam que podem dispensar a educação, a cultura, o Estado e os outros pontos de vista.

Tá na hora do governo, dos professores e dos pais, que estão fora da escola, exercerem o seu papel e tomarem aqueles jovens para novamente serem governados, alunos e filhos. Mas será que estes adultos também não têm uma má consciência, sentem-se dominadores? Governantes, professores e pais que não vêem sentido positivo em seus papéis, mas apenas autoritarismo? Autoridades que não dão nada em troca? Para desonerarem-se desse peso, os adultos deixam os jovens sozinhos, deixam-os excluírem-se a si mesmos nos muros de uma escola.

Sócrates e Eleazar: dois homens sob a lei


Sócrates incomodava seus compatriotas. Seu amigo Querofonte ouviu da pitonisa, no Tempo de Apolo, que Sócrates era o mais sábio dos atenienses. Seria mesmo? Interessado em saber o que ele mesmo era, o filósofo perguntava aos outros se eles sabiam o que eles eram: um soldado condecorado, sabia o que era a coragem? Um juiz sabia o que era a justiça? Com essas perguntas, Sócrates só angariava exemplos dessas coisas, não obtinha nenhuma definição da natureza delas. Ele percebeu em que medida ele era o mais sábio: na medida em que ele possuía a clareza, que ninguém possuía, de que ele não sabia o que aquelas coisas eram.

Em velhice, Sócrates foi acusado de adorar deuses estranhos e de corromper a juventude. Ele foi condenado, e sua punição seria a morte por ingestão de cicuta. Na prisão, o filósofo recebe a visita de seu amigo Críton¹. Críton propõe que o amigo fugisse, escapasse àquela condenação injusta. Em sua resposta, Sócrates fala como se fosse as Leis que o condenaram. O que as Leis diriam a ele, um velho ateniense que considerava fugir da prisão? As Leis dizem que Sócrates passou a vida sob a vigência delas. Ele cresceu e viveu como homem livre, em Atenas. Poderia ter se desagradado, e ter ido morar em outra cidade, mas permaneceu em Atenas. Fez e criou seus filhos sob estas leis, contra as quais nunca pôs qualquer objeção. Agora que ele fora condenado, não poderia recusá-las.

Não é consultando uma subjetividade que o ateniense se conhecia. O conhece-te a ti mesmo de Sócrates é o conhecer o que a pólis confere a ele: se ele é livre ou escravo, soldado ou artesão, o homem deve conhecer a si mesmo a partir dessa posição e de se ele está apto a exercê-la. O ateniense era considerado livre se tivesse o direito de viver em sua morada, ou seja, em seu ethos. Viver num ethos é viver de um modo próprio, mas segundo os costumes da sua cidade. É não ser coagido a adotar nenhum comportamento, pois isto caracteriza a situação do escravo, aquele que está fora do seu ethos. É não viver considerando que sua vida deva se dar o mais livre possível das leis da sua cidade, que é a forma como nós, modernos, entendemos como é bom de se viver.

As Leis atenienses guardavam o ethos da cidade. Segui-las levava o homem a ser justo, ou seja, a ajustar a própria vida à cidade. Essa instância objetiva era o meio pelo qual o homem era reconhecido pelos outros, e também se auto-reconhecia, conhecia a sua própria alma. As Leis devem se por para a individualidade de Sócrates existir.

Sócrates morreu em 399 a.C. Mais de um século depois, Roma surgia como uma grande potência. Ela havia incorporado a cultura grega, incluindo toda a sua mitologia. Na história do povo judeu, conta-se que a esta época eles tentavam resistir a serem helenizados. Os judeus haviam perdido as terras e a organização política cujo auge foi o reinado de Salomão. Agora lutavam contra a pressão de outros povos, para manter as tradições dos seus antepassados. Antíoco IV Epifânio, rei da Síria, era um dos que forçavam a que os judeus abandonassem seu ethos. O interesse nisso estava, logicamente, na facilitação da sua dominação econômica e política, sobre eles.

Um dos principais doutores da Lei de Deus era o Sumo Sacerdote Eleazar². Ele era velho, e conservava os traços belos. O Rei Antíoco o pegou. Mandou que seu soldados fizessem-no comer um pedaço de carne de porco, proibida aos judeus. Forçaram a carne em sua boca, mas Eleazar a cuspiu. O rei mandou matá-lo. Os torturadores eram antigos conhecidos de Eleazar, e dele se compadeceram: falaram para ele pegar um pedaço de carne permitida aos judeus, e então comer, como se fosse a carne ordenada pelo rei. Assim, ele estaria salvo da morte. Eleazar, porém preferia morrer honradamente a viver envergonhado. Ele tomou uma decisão coerente com a sua idade e com a vida sob a Lei de Deus, que era a sua desde a infância.

“Podem mandar-me para a mansão dos mortos. Em minha idade não fica bem fingir, senão muitos dos mais moços pensarão que um velho de noventa anos chamado Eleazar passou para os costumes estrangeiros. Com o seu fingimento, por causa de um pequeno resto de vida, eles seriam enganados, e eu só ganharia mancha e desprezo para a minha velhice. Ainda que no presente eu me livrasse do castigo humano, nem vivo nem morto conseguiria escapar das mãos do Todo-Poderoso. É por isso que, se eu passar corajosamente para a outra vida, me mostrarei digno da minha idade. Para os mais moços posso deixar um exemplo honrado, mostrando como se deve morrer corajosa e dignamente pelas veneráveis e santas leis.” (2 Macabeus, 6:23)

Os torturadores consideraram aquilo uma loucura, e tornaram-se cruéis. Para Eleazar, ser ele mesmo era agir conforme viveu sua vida, seguindo as mesmas leis. A diferença com as leis da pólis grega está no fato de que as leis dos judeus não estão numa cidade, mas no conjunto de práticas que eles carregam consigo, desde os seus ancestrais. Moisés, Abraão e Davi são lembrados como exemplos de homens virtuosos, exemplos para o indivíduo judeu, porque seguidores das leis de Deus. Eleazar via a si mesmo e era visto como um legítimo pertencente desta linhagem. Era um exemplo para os mais novos, alguém que os ensinava sobre a história do seu povo e a necessidade de se manterem os costumes.

Manter os costumes era obedecer às Leis de Deus, que era a lei da vida, contraposta às leis pagãs, entendidas como leis que geravam a morte. Na medida em que as Lei de Deus regravam as relações sociais de modo a que não se formasse domínio de um homem sobre o outro, elas garantiam a vida social em paz. Teologicamente, um Deus único, criador de tudo, é o rompimento da adoração de deuses relativos a elementos da natureza. Se Deus criou tudo o que existe, inclusive a natureza, ele se torna intangível para o homem. Ou melhor, sua única tangibilidade são as suas Leis. Nem o Templo construído para ele, em Israel, poderia contê-lo. Isso impedia que um homem aquistasse o direito de representá-lo mais do que outro homem. Ou que um homem se colocasse como um deus, como o próprio Antíoco fazia.

Em outro episódio, por exemplo, Antíoco torturou e matou sete rapazes e sua mãe, judeus, querendo que eles renegassem seus costumes. Antes de morrerem, eles foram dizendo ao rei que eles morriam seguindo as leis de Deus, e desprezando as leis do rei. Deus estava corrigindo-os por um erro que eles ou seus antepassados cometeram, mas logo ele seria misericordioso. Eles viveriam a vida eterna. Mas o rei, disseram eles, por usa soberba, jamais receberia a misericórdia de Deus. Ele será punido, e conhecerá a morte eterna.

Voltando a Eleazar, antes de morrer, ele disse: “O Senhor, que possui a santa sabedoria, sabe que eu, podendo escapar da morte, suporto em meu corpo as dores cruéis da tortura, mas em minha alma estou alegre, porque sofro por causa do temor a Ele.” (2 Macabeus, 6:30). Eleazar tornou-se um exemplo de heroísmo e virtude para os mais jovens e para o povo. Eleazar se afasta da dor física, para falar de uma alegria da alma. Afasta-se da morte deste corpo, para falar de uma outra vida. Afasta-se de um temor terreno, para falar de um temor divino. A identidade do judeu, assim como a do grego, precisa da vigência das Leis. É por meio desse elemento objetivo que ele conhece a própria alma, quem é ele. Sócrates e Eleazar falam de suas vidas enquanto seguidores das Leis. Esta é a identidade deles.

As leis dos gregos eram estabelecidas na Assembléia e sua força dependia que os indivíduos as assumissem. E os indivíduos as obedeciam, para que não houvesse injustiças, conflitos, no limite, guerras. As guerras seriam um castigo dos deuses pela desobediência às leis. Para Sócrates, seguir as leis era uma questão de liberdade, e liberdade era a coerência consigo mesmo. Ser incoerente consigo mesmo era também viver fora do ethos, estar em conflito com a cidade. Um devoto de Apolo, como Sócrates, não queria um castigo assim.

As leis dos judeus colocam-se para eles como uma tradição transgeracional. Elas foram recebidas de Deus pelos seus antepassados, e apresentadas como a chave para uma aliança que levaria o povo a uma vida de paz e prosperidade. As Leis são a objetivação da vontade de Deus, que deve ser absoluta para os homens. Eleazar não se preocupa se é ou não incoerente consigo mesmo. Ele sempre seguiu a Deus. O que ele não quer é que a vontade de um outro homem vença a Vontade de Deus nele. Ele não quer que a lei de um rei seja aquela que faz seus joelhos dobrarem. Eleazar não obedeceu Antíoco porque não o temia. O rei poderia tirar sua vida terrena, mas Deus tiraria sua vida eterna. E é Deus quem pode lhe dar esta. E é a obediência a Ele que fez de Eleazar um exemplo para o seu povo. Um povo que o olhou como herói e virtuoso.

Eleazar morreu sabendo que ele fez com que algo fosse mais forte sobre ele mesmo do que sua vontade de desistir, pela dor física, ou do que a vontade de um outro homem. A identidade do judeu parece ser o fazer com que uma força maior do que tudo determine a sua vida.

P.s.: A imagem inicial é de Gustave Doré, “The Martyrdom of Eleazar the Scribe”, de 1866.

1. Para esta exposição sobre Sócrates e Críton, e para as ideias subsequentes acerca da individualidade socrática, baseei-me no texto “Sócrates, o eu e as leis”, de Paulo Ghiraldelli Jr. (http://ghiraldelli.pro.br/filosofia/socrates-eu-leis.html)
2. A história de Eleazar é contada no livro 2 Macabeus, do Antigo Testamento.

Pensando as escolas ocupadas


O professor fala aos seus alunos sobre a situação política e econômica do país. O professor de história, de geografia, de filosofia, até o de matemática, falam. Ocorre de esta fala ser objetiva e não ideológica. Também ocorre de ser ideológica. A ciência tem a neutralidade por meta. Mas o professor precisa ter o direito de trabalhar o próprio ponto de vista e de apresentá-lo. Censurá-lo rompe com o nosso Estado democrático e liberal.

Este entendimento acerca do projeto de lei apelidado de “Escola Sem Partido” não é o que está na boca de professores e alunos. “Não existe saber politicamente neutro”, é o que dizem. Uma inverdade, evocada pelo cientista social que, enquanto apresenta sua pesquisa, é chamado de direitista ou de esquerdopata.

Não pode haver censura de professor, mas deve haver cobrança social para que a escola seja a melhor possível. De um professor o desejável é um estudo e um ensino acerca do Escola Sem Partido. Mas o professor e o aluno se dizem contra, como dizem “Primeiramente, Fora Temer.” : ser contra é sua palavra inicial e também final.

Os jovens que agora tomaram as escolas e as universidades públicas justificam-se com esse tipo de contrariedade ao Escola Sem Partido. Outra justificativa que encontram é a contrariedade à PEC 241, também do governo federal. O projeto estabelece um teto de gastos em saúde e em educação, a fim de sanar a dívida criada pelo governo anterior. Outra possível consequencia desta PEC é um uso mais estratégico e transparente do dinheiro público. Mas o discurso dos alunos e dos professores insiste em “congelamento dos gastos por 20 anos”. Não é congelamento. E o governo falou em revisão da proposta em 10 anos. Ocorrendo uma melhoria da nossa situação econômica, obviamente que esta meta pode ser revista antes disso.

A escola ocupada coloca-se com o objetivo principal de ser contra o governo. Diante das propostas do governo, estar contra ou a favor é a melhor coisa a se fazer? Ou é melhor ler o texto delas, junto de opiniões de especialistas, e então conversar com um professor para enfim formar uma opinião? Mas não uma opinião que coloque o ser contra ou o ser a favor no centro e, sim, um raciocínio.

Os alunos lutam por educação? Querem que o professor tenha liberdade para falar o que ele quiser? O que está sendo dito acerca da liberdade de opinião considera a responsabilidade que se deve ter acerca do que se diz? Dizer o que se quer dizer implica em saber o que se está dizendo. Este é um compromisso teórico e um respeito aos fatos.

Da forma como vêm ocorrendo, as ocupações são a plena realização do modo como as escolas vendo sendo utilizadas. Os alunos e os professores, que não estudavam e não ensinavam durante parte do dia, agora o fazem o dia todo. Há, no jovem um certo orgulho em não saber das coisas. Agora ele quer o aplauso de toda a sociedade. E a sociedade reconhece que há este orgulho em jogo: parte dela diz que a escola é mesmo do aluno, parte diz que aquele é um espaço que, por ser público, não pode ser tomado por indivíduos ou grupos. Ambas posições também não são alvissareiras: ao invés de considerar o orgulho pela impulsividade e pelo não saber, a sociedade deve considerar e perguntar ao jovem pelo seu orgulho sobre coisas boas.

Melhor seria que os jovens e os professores estudassem e mostrassem uma melhor visão para o que querem do governo. E também fizessem a escola da melhor forma que eles podem querer que ela seja. Então esta escola seria um modelo, pois teria as coisas postas em favor da efetiva educação dos alunos.

Mulher no bar


Mulher gasta dinheiro. Andando na rua, vê o cartaz com o homem gostoso, suado peitudo. Tira um selfie. Senta e bebe, manda para as amigas. “Antes bem acompanhada do que sóbria.” Muitas respostas, vamos marcar. O homem tomará o lugar de um drink, dois. Bonito por bonito… Colorido. Mulher gosta disso.

Assunto de homem que é comprido e esquisito. Sério, com riso. Briga de amigo. Bem melhor do que em casa. O dinheiro tem que dar. Pede pela loira ou pela morena. A da cerveja barata é a melhor. Mais barata, popular, do Faustão, Verão. Sede que não termina. A mais gelada do bar, a mina que vai salvar.

Homem não gosta de escolher, é correr e beber. Escolhido já está o bar. Sangue novo, o garçom apresenta. Desce duas dessa mina, no colo. Só é ruim quando é ruim demais. Kaiser terminou, cerveja com nome de alemão.

O cartaz da Boa tá na porta do banheiro. Mina companheira. Nem se sabe o nome. Mulher também quer homem. Não ser como homem. Cartaz no canto da porta. Arrumou o ambiente, ela consome. Olha para o papel, faz um charme. Mas nunca vai rolar. Já o homem dá um jeito de o cartaz roubar.

Como votei


Escutei gente dizendo que os dois candidatos a prefeito do Rio, no segundo turno, eram dois merdas. Após a decepção com o Lula (até para quem não votava nele!), existe uma aversão generalizada quanto a todos os políticos.

O bom senso diz para evitarmos o Crivella: ele tem ligações com políticos acusados de crimes, além de manter junto de si uma base de ideias que estranham os gays e as pessoas com religiões diferentes das dele. Nosso bom senso é o de uma época que considera mesquinho não aceitar o outro diferente. E que não aceita o crime. Mas, por força de um populismo, fecha-se os olhos para ações criminosas, e se os abre para a imagem de um líder. Assim funciona a militância lulo-petista.

Há, no PSOL, muitos dos elementos que fizeram esse populismo petista: jovens e jovens-adultos ligados às universidades públicas, juntos a pessoas entre 30 a 40 anos com queixas para as quais a democracia liberal tem uma escuta, como as que se relacionam às desigualdades sociais. Certa cultura universitária era um molho e uma forma de expressão dessa massa, que também buscava uma figura totêmica, para objetivar e proteger suas inseguranças infantis.

Discursivamente, a infantilidade é disfarçada e aquela figura é mostrada como um líder. Freixo, professor de história, é chamado a ser representante de uma massa que vem se formando. Lula cumpriu esse papel nos 80. A figura do operário arrefeceu o complexo de vagabundo de todo aquele que escolheu para si a universidade. O professor de história, por sua vez, é um escudo contra ataques de uma direita que vem ganhando força. Talvez ele tenha uma explicação para o socialismo estar acompanhando sua ideia de liberdade.

O PT caiu, com os seus crimes. Mas o lulo-petismo, para alguns, ainda é um salvo-conduto moral. Freixo atacou a organização milícia-Garotinho, na Zona Oeste. Ele também venceu o PMDB. Acredito que ele não se envolva em nenhum negócio. Mas um herói torna-se o bandido de amanhã se, para ele, o mal estava concentrado no bandido que ele combateu.

Votei no Freixo porque hoje ele era um bom candidato. A milícia e a corrupção policial precisam ser desmanteladas. Os pobres e as minorias precisam da clareza que Freixo demonstrou acerca do que é preciso fazer. Quando fala de forma mais ampla, contudo, a ideologia aparece forte em seu discurso: após a derrota para Crivella, Freixo disse, ao seu público, que eles venceram, pois estão juntos, na rua, e só aumentarão. “A cidade é deles” (http://g1.globo.com/rio-de-janeiro/eleicoes/2016/noticia/2016/10/nos-vencemos-esta-eleicao-diz-freixo-apos-ser-derrotado-no-2-turno.html).

Nos últimos meses, na cidade viam-se muitos jovens com adesivo de 50, no corpo. Hoje, dia da eleição, pai, mãe e filhos estavam com esse adesivo. Se houvesse máscara do Freixo, e não fosse ridículo usar fora do carnaval, eles usariam. São como feixes do Freixo.

O PMDB ou o Crivella, no poder, movimentam uma máquina criminosa que já está instalada. Um dia o PSOL também pode ser uma, sustentada com o aval dos seus feixes.

A cidade não pode ser minha. Nem pode ser nossa. A cidade é onde moramos, e devemos cuidar. Temos uma relação de interdependência com ela. Mas ela não pode me ou nos representar, por ela estar acima das particularidades. Não posso usá-la, criando uma ideia de coletivo, para exercer minha vontade de ser absoluto. O PT quis ser uma máquina assim. E, no mensalão, mostrou querer dominar o governo.

Freixo não reconheceu a derrota nas urnas. As eleições são a manifestação da vontade das pessoas, na medida em que a maioria decide quem vence, e quantidades gradativamente menores de pessoas vão decidindo as colocações gradativamente inferiores. Os votos brancos e nulos são uma escolha legítima, que comunica uma insatisfação com as opções disponíveis. Eles precisam ser respeitados, pois a divergência de opiniões é democrática. Mais democrática do que dizer que venceu, quando se perdeu, e que seu público é o dono da cidade.

No caso dessas eleições, Freixo me pareceu uma boa escolha. Digo isso sem adesivo no peito. Nas próximas eleições, o caso será outro, e o pensamento também terá de ser.

sexta-feira, 28 de outubro de 2016

Psicologia pobre


Há manuais de psicologia que utilizam Foucault para criticarem a própria psicologia, dizendo que ela nasceu com base no “racionalismo cartesiano”. Em uma faculdade onde não se ensina Descartes, mas só os textos desses manuais, os alunos, a partir deles, já se sentem conhecedores de Descartes. A partir de um conhecimento de “ouvir falar”, os alunos já se sentem à vontade de comentar sobre Descartes, ou até criticá-lo.

Em uma matéria eletiva, também na graduação em psicologia, o professor apresenta um texto do Nietzsche. Nietzsche não quer ensinar a história da filosofia. São textos críticos, que pressupõem que o leitor saiba sobre o que ele está falando. É uma leitura que precisa ser feita só após outras terem sido feitas. Assim também são os do Foucault.

Naquela aula sobre Nietzsche, o professor conta que o filósofo está atacando a ideia de que existe um mundo além do sensível, onde possa haver um fundamento para a verdade. O aluno engole rapidamente todas as ideias que os professores lhe jogam, para depois vomitá-las na prova. Uma ou duas dessas ideias esse aluno escolhe para usar de camiseta.

Particularmente, lembro de quando eu estudava um autor de psicologia social chamado Serge Moscovici, que construiu sua teoria mais conhecida, as Representações Sociais, dizendo que elas eram formas de conhecimento dinâmicas, em comparação à “falta de dinamismo” das representações coletivas de Durkheim. O jovem bobo já criou uma antipatia pelo clássico da sociologia e da modernidade.

Deixar de lado o “sujeito racional”, para abraçar um “sujeito corporal”, está mais para a crítica do que o senso comum diz respeito de Descartes. Sendo assim, é uma crítica que é ela mesma senso comum. Esses alunos, e também seus professores, cometem o pecado de não lerem Descartes e Platão, e de falaram deles. Mais do que isso: deixam de ter o prazer e a formação que vêm destas leituras.

Qualquer diálogo do Platão é melhor escrito do que qualquer coisa que se encontre por aí. E também mais gerador de ideias, para o leitor que não faz como aquele aluno. Ler Platão, Descartes e Durkheim não são apenas preparatórios para Nietzsche e Foucault: é dotar-se de óculos para se enxergar a própria época, não importa a época em que se esteja.

Os que perdem os clássicos não têm condições de lerem os autores contemporâneos. Um leitor de Foucault, que também seja leitor de Platão e Nietzsche, pode fazer mais do que simplesmente entendê-lo: ele conversa com o Foucault, refaz o seu pensamento.

O fim do herói


O super-homem ajuda as pessoas. Ele é bom, no sentido que damos a esta palavra. Aquiles derramava os intestinos de parte daqueles com quem lutava. Da outra parte, ele trespassou a cabeça com sua lança. Ele é bom num sentido antigo, o de excelente. Nietzsche foi quem apontou essa mudança no sentido do bom, o que levou o homem a deixar de ser uma ave de rapina e a passar a ser um animal de rebanho.

Aquiles era o melhor guerreiro que já existiu, fazia o que nenhum outro homem podia fazer. Os gregos estavam encurralados e morreriam todos, não fosse a entrada dele no combate. Após matar Heitor, decidindo a guerra, Aquiles pôde morrer.

Cumprir um destino era ao mesmo tempo realizar um grande feito e chegar ao fim da vida do corpo. O momento final desta vida vem pelas mãos de um inimigo que ataca sorrateiramente. O suicídio de um herói trágico parece ser apenas formal, pois a vida dele terminou no momento da revelação do trágico. O destino nunca está nas mãos humanas. E nenhum homem é páreo para o herói. Por isso que o Coringa nunca chega a matar o Batman, mesmo quando tem oportunidade.

Na série The Walking Dead, survivors são como volta e meia um personagem antigo se refere a outro personagem antigo: hordas cerradas de zumbis, inclusive em lugares fechados, e grandes vilões foram contornados por eles, durante anos. A história parece basear-se no ciclo de uma natureza hostil, com dez meses de desastres, perigos e fome e dois meses de paz. Esse ciclo sempre vai ocorrer, e os heróis, survivors, são aqueles que vão superando os anos. Para ser survivor não tem que ser bom. Tem que ser excelente.

Após um hiato de alguns meses, um novo episódio da série foi lançado. Todos os survivors estão ajoelhados e cercados pelos capangas armados de Negan. Negan carrega um taco de baseball envolto por arame farpado. Ele chama o taco de Lucille, e por ele mostra admiração. Negan chega a dizer que Lucille é um taco-vampiro, como se escutasse a necessidade dele.

Com um movimento de cima para baixo, Negan amassa a cabeça de Glenn, um survivor. Após este primeiro golpe, Negan deixa Glenn dizer algo. Com uma voz de morto, Glenn diz à sua mulher que a encontrará. Maggie está apavorada. Glenn está deformado, como os milhares de zumbis que ele mesmo venceu.

Negan sorri e dança com Lucille. Ele quer que Rick, o líder dos survivors, considere a ele o seu dono. Rick deve olhá-lo com medo, não com ódio. Com ódio, Rick enfrentou e resolveu situações dificílimas. Seu olhar para Negan o apontava como mais um da sua lista de desafios. Negan sabia disso, por isso insistia em desfazer aquele olhar. O ódio de Rick era gana voltada a livrar-se de alguém ameaçador para ele e seu grupo.

Negan disse que mataria todos os outros, caso Rick não decepasse o braço de seu filho, que fora posto deitado diante dele. Os olhos de Rick passaram a ser de susto. Ele fora reduzido à situação de não ser mais ele mesmo, a não ser mais aquele que lutou para proteger seu filho. Ele foi lançado para ser um monstro. Rick agora olhava assustado para Negan. Estava passivo, não era mais um herói.

Só os deuses deveriam poder selar o destino dos heróis. A morte de Glenn e a submissão de Rick, que fizeram deles coisas entregues, assustou os que acompanham a história. Negan não os enfrentou e quis ser um deus, aproximando-se do destino deles. O que Negan conseguiu foi fazer os heróis tornarem-se o que não são, passivos. Glenn e Rick viraram nada, diante dos nossos olhos. Aí está a monstruosidade de Negan.

A urgência não pensa


Pensar é construir conceitos. É conter-se na ação e criar um não lugar, algo fora de qualquer particularidade. Essa é uma herança platônica, nossa.

“As mulheres precisam ser empoderadas”. Que mulheres? Todas? E que poder? Poder-fazer o que? Essas perguntas delimitariam a mulher empírica x, y ou z, e o poder x, y ou z.

A definição dos particulares permite ir além deles. Permite finalmente encaminhar a construção do conceito de mulher e de poder.

A frase “As mulheres precisam ser empoderadas.” supõe a existência de uma opressão generalizada sobre a mulher. Por isso, ela pede um poder também generalizado.

A frase também sugere uma mulher universal, escondendo uma experiência particular que quer se absolutizar. Contra o poder que supõe absoluto, a frase propõe outro absoluto. Ela patina no platonismo.

Existem diferentes mulheres, que possuem diferentes experiências e, no interior dessas experiências, há diferentes experiências de poder e de falta de poder.

Esse esmiuçamento é um caminho para se elaborar um discurso social não absolutista, mas perspectivista e pragmatista. E também é um caminho para se pensar os conceitos.

As mulheres querem a mesma coisa? Elas querem a mesma coisa que você, militante?

E o que é a mulher? O que é o querer? Há de se ter um lugar a salvo da urgência do mundo, para se pensar.

P.s.: Baseei-me, aqui, neste texto do filósofo Paulo Ghiraldelli Jr: http://ghiraldelli.pro.br/filosofia/pragmatista-e-o-platonista.html

Lulismo narcisista


A criança pequena ama a si mesma. Desse amor, ou ela destinará uma parcela ou destinará o amor inteiro para investir num objeto externo a ser amado. Havendo uma frustração desse investimento, a libido volta para o eu. Contudo, mesmo quando está investida no objeto externo, a libido ainda tem sua raiz no amor ao eu.

Amar alguém nunca deixa de significar amor próprio: todas as qualidades da pessoa com quem você se relaciona são elogios a você mesmo; todos os defeitos dele depõem contra você. E, onipotentemente, você entende que foram as suas qualidades ou os seus defeitos que fizeram o outro querer, respectivamente, estar com você ou se separar de você.

Essa construção do eu narcisista, o eu ideal, é de Freud, e está nos Três Ensaios para uma Teoria da Sexualidade. A partir dela, é possível enxergar o narcisismo do amor do militante por Lula.

Uma pessoa que se coloca como defensora de um partido ou de um político não é um participante dos processos que possam estar sendo movidos contra essas figuras. Ele é movido por paixões. E, na sua defesa ou nos seus ataques, usa informações que colheu seletivamente da mídia.

Não sei se os crimes do Cunha estão mais comprovados do que os do Lula. Portanto, não coaduno com o que os defensores de Lula dizem, de que há sustentação para se manter o primeiro preso, e que não há sustentação para se prender o segundo. Repito: militante não é advogado ou juiz nesses processos.

No caso do militante pró-Lula é possível perceber que há, ao mesmo tempo, a ciência e a tentativa de ocultar os ilícitos dele. Todos dizem que algo é errado, inclusive o seu pai, mas o jovem insiste em virar o rosto e fazê-lo. Ama sobretudo a si mesmo.

O PT era o partido da honestidade. Lula foi eleito com a missão de acabar com a pobreza e a desigualdade social, no Brasil. Isso tudo veio abaixo, com os escândalos de corrupção (repito mais uma vez: como não somos figuras jurídicas no processo, as notícias, comuns ou escandalosas, são o que temos para pensar) e o enfraquecimento das políticas sociais.

Diante de tudo isso, Lula se comportou como se a justiça estivesse errada em investigá-lo, como se ele fosse maior do que ela, como se ele fosse um cidadão especial, inimputável, devido às suas “nobres” intenções.

Os não militantes pró-Lula, vendo isso tudo, agora têm uma paixão anti-Lula. E essa paixão não tem nada a ver com ser de direita ou anti-esquerda. É uma paixão pela honestidade e boa capacidade de governo, que são avaliadas por nós, nas figuras públicas, através das notícias.

Todos sabemos que Lula cometeu crimes. Aqueles que lhe são favoráveis, contudo, tentam esconder isso. Defendem o Lula até o fim, pois também estão pondo em jogo a própria honestidade, ao fazê-lo. E qual seria esse fim, ou até onde vai essa defesa? Justamente até a prisão do Cunha, talvez a do Aécio e do Temer.

Esses adversários políticos do PT, também envolvidos em crimes, se punidos antes do Lula, darão ao lulista a sensação de que ele tem alguma razão, defendeu um “bandido menos pior”. A ideia do “rouba mas faz (pelo social)” é a sustentação inconsciente da defesa do Lula.

Mas, e se o Lula cometeu crimes piores do que os outros? Também consideramos essa possibilidade. Assim, o Lula torna-se uma espécie de Pablo Escobar, para os seus defensores. Um santo, meio incompreendido meio ladrão daqueles que não são do povo.

A um grande preço o lulista aceitaria a prisão dele. O mundo todo precisa estar errado, antes que ele possa dizer uma palavra contra aquele que sobretudo ama a si mesmo. Egoistamente, o lulista quer que todos paguem por seus crimes, para então aceitar o Lula sendo preso.

O ego ideal é a manutenção de um estado psíquico infantil, em que a criança se vê como o centro do mundo, e tendo que ser agradada. Não sendo agradada, ela deseja mal aos outros, que só puderam ter desejado o mal dela. Erros são encobertos, com o uso dessas justificativas, para não trazer desprazer à própria consciência.

Todo mundo sabe ter sido uma criança que fez muitas coisas erradas, mas ao mesmo tempo colou justificativas a esses erros, absolveu a si mesma. Lula chora, fica emocionado, chama a atenção como uma criança. O militante sai em sua defesa, entendendo que Lula precisa desviar das acusações (sobretudo das auto-acusações, que o militante sabe serem as piores que existem).

O militante quer mostrar ao Lula como manter-se com o ego íntegro, acreditando no próprio ego ideal, ou seja, acreditando que todos são contra ele, que é o mais honesto e certo de todos.

Mas, veja, Lula é alguém que sabe muito bem fazer isso: se parece frágil é porque entende que isso faz com que as coisas andem como ele quer. Ele sabe que comove as pessoas. O militante antes aprende o que é narcisismo onipotente com Lula do que o ensina.

Wagner Moro


Pablo Escobar morreu há mais de vinte anos. As coisas que ele fez, na Colômbia, são conhecidas. Nas fotos de divulgação da série Narcos, Wagner Moura tem no rosto uma expressão que não pode ser interpretada de uma só maneira. Os feitos de Escobar produziram tanto admiração e seguidores quanto repulsa. Que ele deu algum dinheiro aos pobres, é verdade. Que ele foi um terrorista, é verdade também. O rosto do Pablo, de Moura, tem essa dubiedade, e reaquece um pouco o amor e a repulsa por ele.

Por que reaquece um pouco? Porque Wagner e a série Narcos não formam defensores ou condenadores firmes, para Pablo. Parece que um dos sinais de que um acontecimento ou episódio ficou no passado é a dubiedade com que olhamos as suas figuras notórias. A mesma pessoa que hoje vê em Pablo um bandido, também pode ver nele um benfeitor aos pobres. Quem tinha que morrer já morreu. Quem tinha que ganhar dinheiro por causa dele, já ganhou. Ninguém se comove mais por Pablo.

Ontem foi noticiado que Wagner Moura havia recusado um convite para fazer o papel do Juiz Sérgio Moro, em uma série sobre a Operação Lava-Jato (http://www.uai.com.br/app/noticia/series-e-tv/2016/10/17/noticias-series-e-tv,195605/wagner-moura-recusa-papel-de-sergio-moro-em-serie-da-netflix.shtml). Uma notícia falsa. Disseram, inclusive, que o ator havia declarado não interpretar “mau-caráter”, brincando com a contradição por Moura ter feito Pablo Escobar.

Apesar de falsa, a notícia me fez pensar sobre como seria para um ator brasileiro interpretar, hoje, Sergio Moro. O rosto de Moro é sempre conforme a atuação dele como juiz: ele recebe dados de investigações criminais, indicia e emite mandados de prisão. O rosto de Lula é conforme a imagem que seus defensores possuem dele: um homem com ideais e inimigos, e que peleja para realizar o que quer e para defender-se de acusações. O rosto de Moro é sério, sugerindo que o importante, nele, são suas decisões. O rosto de Lula é risonho, bravo ou choroso, sugerindo que o importante nele são suas emoções.

O rosto de Lula e de Moro são o rosto que seus apoiadores, em certa medida, vêem como o seu próprio: um guerreiro injustiçado, de um lado, e um empedernido realizador da justiça. Um rosto não quer ser confundido com o outro, e não se percebe um traço de segunda intenção em cada um deles.

Para um ator que, em sua vida pessoal, defenda uma dessas figuras públicas, é difícil interpretar a outra. Quanto mais calorosa é a defesa, maior é a dificuldade em interpretar o outro. E maior seria o prazer em interpretar a figura que ele apóia. Mas menor seria a riqueza desta interpretação, como menos nuances ela seria apresentada, com zero chances de dubiedade.

As paixões políticas nos limitam. Criam compromissos entre a pessoa e quem a conhece, e também com a própria consciência. Mais do que uma opinião, a paixão política é um impulso por se colocar a favor ou contra uma figura política. A pessoa não quer se contradizer ou ser pega se contradizendo, neste ponto, sendo pega tendo ímpetos em defender aquele a quem anteriormente atacou.

Mas, depois de alguns anos, você pode ficar sabendo de alguns arrependidos que, contudo, não sentem vergonha. O tempo muda as opiniões e desculpa os ímpetos. E cria personagens não mais comprometedores. Pessoas que se dizem ateias podem interpretar Jesus. Bem, defensores de direitos humanos não interpretam Hitler, a não ser acentuando-o como o sumo mal (Deus está morto, mas o Diabo não?).

Talvez para figuras em quem depositemos o absoluto o tempo não faça efeito, não amaina nossas paixões. Este não é o caso do Lula ou do Moro.


p.s.: Este texto é uma versão modificada de um outro texto, que tomava por verdadeira a notícia de que Wagner Moura havia sido convidado, e recusado, a interpretar o juiz Sérgio Moro. Fiz esta modificação quando do desmentido da notícia.

domingo, 16 de outubro de 2016

Literatura de alto impacto


Parei num orelhão. Havia livros em cima e embaixo. Havia “Urupês”, do Lobato. Puxei o corpo mergulhado no orelhão. O pasteleiro nem olhava para o meu lado. Aquilo era gente querendo deixar livros para alguém. “Desapego” misturado com disseminação da leitura.

Pegava os livros brasileiros mais velhos da biblioteca. E desconhecidos. Só eu sabia daquelas histórias e nomes. Capa e páginas quebrando. Comprando ou ganhando, esses velhos iam comigo morrer lentamente os cinquenta anos que tinham pela frente. Eu não apressava sua deterioração, segurava-os com cuidado. O papel amarelece e endurece, como folha de árvore.

Sempre alguém acaba desgraçado nos contos do Lobato. Para essa estréia, ele dizia “ou entro ou racho”. Personagens morriam ou faliam. Também rachou a cara do intelectual que idealizava o caipira.

Contos são para rachar. O prefácio aqui diz: o efeito pretendido era o leitor levantar o pescoço para olhar mosca invisível. Parada para respirar. Algo aconteceu no texto escrito e não escrito. A história inclui o leitor na queda do personagem.

O escritor ansiava para desferir aquele golpe. Sentia um prazer armando a arapuca. Preparando um veneno que não age rápido. É o mesmo prazer que sente o leitor que indica esta leitura para um amigo: enquanto o amigo lê, o leitor fica olhando de rabo de olho, só para pegar o exato momento da queda.

Nossa capacidade de matar



Um homem espera a abertura do portão da garagem do seu prédio. Sua esposa o acompanha dentro do carro. Aproximam-se dois homens, um deles armado. O homem que está dentro do carro é um policial. Ele puxa a arma e dá um tiro na cabeça de cada um dos outros dois homens.

Foi dessa forma que me chegou essa história, ocorrida com amigos de amigos de amigos de amigos meus. Só uma perícia poderia dizer os pormenores, e desses pormenores inferir as intenções e então apontar as responsabilidades. Mas posso dizer que um agente de segurança deve sempre agir de forma a preservar o máximo possível a segurança dele próprio e das outras pessoas. Qualquer pessoa.

Na República, Platão diz que um guardião deve ser como um cão: dócil com quem ele conhece, e desconfiado com quem ele não conhece. Por conhecido e desconhecido, Platão referia-se ao concidadão e ao estrangeiro, respectivamente. O guardião deve tratar bem as pessoas que vivem na mesma cidade que ele, mas sempre estar atento e pronto para agir caso alguém de fora se aproxime.

Alguém que se aproxima de você, na rua, pode ser tomado como um estranho com más intenções. Mas acho que o tomamos como alguém familiar, “o bandido”, para quem já temos uma pronta disposição para atacar. A imagem do bandido é muito utilizada por nós quando querermos nos permitir atirar. É como o caçador que diz precisar, de vez em quando, dar uns tiros em ursos.

Não estou falando aqui de um descontrole da ação, por um desejo de matar que tenha invadido a razão. Apesar do título dos filmes, Charles Bronson não era alguém possuído por um desejo de matar. O que ocorre é uma ação belicista, que une uma razão e uma emoção particularmente belicistas e assassinas. A razão e a emoção participam de um impulso que não quer parar.

Matar um ladrão parece que trará menos aporrinhação do que rendê-lo ou render-se a ele. A frase “foi legítima defesa” é sacada mais rápido do que a frase “tem que fazer queixa, e depois tirar novos documentos.” “Tem que levar o cara pra delegacia, tirar depoimento, dar depoimento, preencher uma papelada e abrir um processo.”, então, parece demorar um milênio. A pressa, aqui, ocorre no não se querer ter o trabalho de preservar aquela vida. O policial matou o bandido não só porque ele e sua mulher estavam sob a mira dele: o policial quis resolver logo, aquilo.

Hitler é uma figura que concentra o mal, parece que o monopoliza. Livramo-nos de nossa própria maldade. Quando os nazistas começaram a matar seus prisioneiros, foi sob o nome de “Solução Final” que o documentaram. Eles não diziam a verdade, queriam livrar seus eus de terem que ver o que estavam fazendo, e então ficarem condenados a conviverem com um assassino.

O sujeito invadido por uma vontade estranha a ele é coisa de uma psicologia moderna. Essa psicologia é herdeira de uma psicologia platônica, em que, além dos apetites e da razão, havia o lugar do thymos, a sede do orgulho, da ira e do senso de justiça. Hoje, vemos o homem como um ser que, quando invadido pelas próprias paixões, deixa de bem deliberar.

Mas a psicologia do defensor que mata não apresenta este ou qualquer outro conflito. Ela está mais para uma psicologia estoica (veja a diferença entre a psicologia platônica e a estoicista: http://ghiraldelli.pro.br/filosofia/alma-assassino.html), de apresentação por inteiro de um homem em seu impulso e em sua razão, vindo juntos. É um impulso e uma razão belicistas, num homem então belicista.

Noticiado mais amplamente do que o ocorrido na garagem foi um caso ocorrido ontem, em que um militar matou um homem com quem ele discutia por uma cadeira na praça de alimentação de um shopping, no Rio (http://extra.globo.com/casos-de-policia/homem-baleado-dentro-de-shopping-em-campo-grande-20280360.html). Houve posts no face dizendo que é por esse motivo que deve haver um maior controle sobre quem tem acesso à compra e à posse de arma de fogo, no Brasil. Sabemos que somos destemperados, não confiamos plenamente em nossa capacidade de nos controlar em situações que nos pareçam perigosas.

Bem, há mais um ponto que sabemos a nosso respeito, que nos aconselha a ficarmos longe de armas: não somos apenas homens do conflito psicológico entre uma razão que pesa princípios e consequencias e impulsos destrutivos, mas também somos homens de pensamentos e disposições de descarte do que nos incomoda e do não compromisso com nada. Isso faz com que, no limite, sejamos capazes de matar animais e outros homens. Sermos assassinos é algo que está em nosso horizonte.

O homem, um ser de família



Neste ano, 2016, foi lançada “Amoris Laetitia: Exortação Apostólica Pós-Sinodal”, escrita pelo Papa Francisco. Este é o resultado dos sínodos, reuniões de bispos, ocorridas nos dois últimos anos. O tema destes sínodos foi a família. No texto o Papa apresenta, como não poderia deixar de fazer, uma visão de homem, atrelada a uma visão de família.

A Igreja é como uma avó, que tem um olhar antigo, tradicionalista, mas ao mesmo tempo disposto a compreender as mudanças do seu tempo. Reposto por essa exortação está que o casamento trata-se da união de um homem e uma mulher, pois apenas eles dois, juntos, são capazes de fecundidade. Assim, estão excluídas uniões entre pessoas do mesmo sexo. No entanto, mesmo rígida, a avó continua sendo avó. Papa Francisco entende que a família que é possível de se encontrar no mundo não corresponde ao modelo da Igreja e do evangelho: casais divorciados, em que, frequentemente, uma criança passa a ser criada por apenas um dos pais; casais que coabitam sem terem contraído matrimônio; pais que fazem usos de substâncias tóxicas; casais que deixaram de frequentar a Igreja; etc. A Igreja deve acolhê-los todos, pois sua missão é não apenas doutrinar, mas também acolher e aliviar as dores. Sem falar que ela deseja o desenvolvimento de todos os homens, e não fará a exclusão de ninguém.

A que visão de homem se deve essa posição? O homem é uma criatura, que trabalha e coordena as coisas do mundo. Para que ele não sentisse sozinho, Deus lhe deu uma mulher, com quem ele se uniu. O matrimônio é assunção pública da união entre o homem e a mulher. Essa união é o compromisso de enfrentar o desafio de amar e ser amado pelo outro, cuidar e ser cuidado por ele, envelhecer junto dele (“gastar-se”, como está na exortação). Esse compromisso de fidelidade é a imagem da fidelidade de Deus para com o homem. Por isso, dificuldades de diálogo, dificuldades financeiras ou problemas advindos de hábitos pessoais recebem orientação.

O homem é um herói, ao manter seu compromisso, mas para isso, não conta com suas próprias forças. O Espírito Santo lhe dá uma força. Em suas Confissões, Santo Agostinho falou da dificuldade por que passou quando jovem: estando noivo, não conseguia deixar de desejar outras mulheres. Ele esforçava-se, sofria, mas não conseguia se conter. Depois veio a perceber que o homem que pretende lutar contra um vício do espírito e um mau-habito do corpo, contando apenas com as próprias forças, é incapaz de vencer. É preciso pedir a ajuda de Deus. Deus é, então, a fonte da força que permite ao homem manter-se no compromisso com Ele, consigo próprio, com seu cônjuge e a sociedade, a qual ele está construindo apresentando sua própria família.

O homem exerce sua vontade sobre si mesmo e o mundo. Contudo, não pode considerar-se autônomo e soberano sobre a criação. Regras de vida colocam-se para ele. Conforme o espírito do Antigo Testamento, regras de vida servem para evitar que se viva uma vida que leve à morte, como a escravização dos outros seres e o deixar-se escravizar pelos próprios impulsos. Ao homem é esperado o auto-governo, e também lhe é oferecida uma estrutura além dele. Um cônjuge não toca o âmago, a alma do outro. A relação de ambos é de ternura, olhar atento para as necessidades e anseios do outro. Mas cada um tem um espaço intocado, que é para o encontro com Deus.

Um pai, um filho, um marido, um irmão têm necessidades de coisas, e impacientam-se com os comportamentos e os “tempos” diferentes daqueles com quem eles convivem. Deus acolhe incondicional, irrestrita e gratuitamente. Filosoficamente, o que esta teologia está dizendo é que a cada homem é oferecida a ideia de que há algo maior do que ele próprio e do que qualquer outra coisa que este homem conheça, e que este algo é uma espécie de Outro que o observa, com ele se importa e dele cuida.

O homem foi gerado e, no casamento, gera uma nova vida. A família é aberta ao mundo, não fechada. Diferentemente do narcisista, que acredita bastar-se a si mesmo, o casamento e a fecundidade são a doação do dom da vida, que cada homem um dia recebeu. Não é estar guardando um sentimento, estar ressentido. O ressentimento isola o homem e o faz condenar aqueles com quem ele ele diverge, ao invés de permitir que ele aceite o direito deles de também viverem neste mundo. Pode-se estar ressentido com um cônjuge, e com ele não conseguir conversar. Pode-se ser o ressentido que na cabeça possui uma ideologia, por exemplo o cristianismo enquanto ideologia, e condenar quem é apontado como desviante do ideal. Como diz o Amoris Laetitia, o homem deve aceitar o homem, e querer o melhor para ele, assim como a Igreja deve fazer.

Esta ideia de melhor baseia-se na busca do homem em ser menos mortal e mais imortal. Por isso ele deve constituir família e gerar frutos. Que ele faça opções pelo permanente, e rejeite o transitório, deriva que ele deva unir-se a outra pessoa, com pretensões de que isso seja pela eternidade, e que o homem não se dê a práticas que tornem a sua vida algo corriqueiro e banal.

A relação entre o homem e o mundo deve espelhar à da Igreja com ele: deve-se exercitar a aceitação da vida, em suas diferenças e limitações. Esta exortação toma o homem como algo inspirado no divino. Considerar esta ideia está para além de preocupar-se com a existência deste divino. Em um contexto pós-nietzscheano, a vida é entendida não como busca por autoconservação, mas como vontade de potência e amor fati. No entanto, falar contra o desperdício da vida é falar contra a falsa liberdade do homem atado a um de seus impulsos: o impulso do descarte. O uso descompromissado e o descarte compulsivo de relações e pessoas não têm nada a ver com a vida pujante e afirmativa que Nietzsche defendia.

O Papa e Nietzsche querem tirar o homem da escravidão e do solipsismo desumanizadores.

sábado, 8 de outubro de 2016

Encontro de amigos


Haverá em um teatro de Niterói um círculo de monólogos interpretados por grandes atores: Lázaro Ramos, Matheus Nachtergaele e Fernanda Montenegro. Para os dois primeiros, o ingresso é de R$ 40,00. Para a Fernanda, é de R$ 60,00. Neste momento não sei o que pensar a respeito dessa diferença no valor do ingresso.

Minha mulher falou que é porque a Fernanda é mais conhecida. Falei que os outros também são. Então minha mulher soltou o argumento imbatível de que ela tem mais experiência. O ingresso para assistir a Fernanda Montenegro é mais caro do que para assistir outros atores. A frase ficou acabada, como num livro.

Um livro não conversa. Nem mulheres. Sócrates bem o sabia, por isso ia filosofar na rua. Outro filósofo, Sloterdijk, disse que livros são cartas dirigidas a um amigo distante. Esse amigo pode ser alguém ainda não nascido. Certamente é um amigo até então desconhecido do autor.

O autor não conhece seus leitores, mas seus leitores conhecem-no. No sentido de que um livro é uma carta, ele é uma mensagem. Inserido numa cultura, num cultivo de homens, essa mensagem é formadora. Não enviamos cartas a quem nos formou. Mas enviamos a amigos, e com eles conversamos sobre o que está nos formando.

Mas será que essa conversa pode ser constante? Será que, caso o leitor enviasse uma carta-resposta a um autor, a conversa entre eles iria render, se alongar? Penso que logo cada um iria mostrando empecilhos, para continuar.

Conversa me parece algo que surge de um encontro. Você encontra uma pessoa, tanto faz se é alguém a quem você já conheça ou não, e passa horas com ela. “É como se eu te conhecesse há anos.” Isso não é fácil de acontecer.

Em um encontro de pessoas que amam o saber, um prepara o que dirá ao outro, escuta-o com atenção e prepara uma resposta. Tudo feito com carinho e cuidado. Há o prazer de ouvir as boas formulações do outro. Há o grande prazer de ver a sinceridade do outro. Há o enorme prazer em dizer um pensamento bem pensado. Há o raro prazer de poder ser sincero, pois se está num lugar em que isso não é problemático.

A sinceridade é um esforço para dizer algo. Uma frase cliché é pobre e repetitiva por ser o recurso de alguém que não está sendo sincero.

Você dá a sorte de encontrar um bom livro. Acontece de estar numa época de sorte, e encontra alguém para falar, sobre ele. Guardará esses momentos para sempre. Em contextos apropriados, você falará desses momentos para outras pessoas, querendo que elas também vivam isso.

Dez horas, no máximo, foi a soma da leitura e da conversa que um dia você teve. Mas esse tempo é daqueles que fazem uma pessoa dizer que dá valor ao tempo que tem. E que dá valor às coisas que diz. Porque esse tempo passou com o homem se intensificando. E também porque ele permanece algo válido a se dizer, para os outros. É bem diferente das coisas que dizemos em nosso dia-a-dia, para cumprir um papel.

domingo, 25 de setembro de 2016

Os comovedores


Hoje, o Padre Fábio de Melo apresentou-se no show “A estrada sou eu”, num ginásio próximo daqui. Só agora parei de escutar a música comovente.

Chamo-a assim ao lembrar de Agostinho que, nas Confissões, falou de um bispo que mandava recitar cânticos com o mínimo de inflexão de voz. A música deveria ser o menos comovente possível. É que o espírito seria seduzido pelos prazeres corporais, entre eles os do ouvido, fazendo a razão desviar-se do sentido das palavras.

A razão deveria voltar-se ao suprassensível. O eterno merece toda a nossa atenção, não o temporário.

É esse o sentido das recitações, dos cantos, dos rituais, enfim, da Igreja. O papa Francisco tem feito exortações sobre o cuidado com a Terra, incluindo o homem, criatura. A chamada Renovação Carismática, da Igreja, e também o neopentecostalismo, tem apostado em shows, para formar um público.

A TV Record, por exemplo, pela manhã e à tarde passa histórias de crimes, e à noite pastores dramatizando na sua pregação. As vivências das pessoas são tratadas numa dramaticidade.

Agora, escutar o Papa te faz pensar. É como escutar um professor: são frases com espaços de silêncio. Ler também é assim: a folha é branca, o espaço após cada frase vai sendo preenchido com pensamento.

Esse pensamento não é o da pessoa sobre si mesma. Ela não está sendo ganha por alguém que diz “exatamente o que eu precisava ouvir, sobre mim.” O pensamento é um ser levado para fora de si mesmo.

Em Platão, pensar é rumar para o conhecimento acerca do que é mais real, desvencilhado das experiências particulares de cada um. Essa é ainda a pretensão da filosofia, mesmo que parta das experiências particulares: ela não quer entreter, fazer rir ou chorar. Ela até pode provocar isso, mas almejando que a pessoa deixe o lugar do saber e pise no do não saber, que é o do espanto e o do olhar diferentemente as coisas.

Uma frase solta. um cliché, que é a forma em que se estuda, atualmente, faz a pessoa jurar que está pensando. A mesma pessoa jura que não há pensamento numa mulher nua. Bem, peço licença a Agostinho para dizer para uma mulher linda nua: “Meu Deus do céu!”.

Ídolos pregando sobre violências, golpes, prometendo que retornarão em 2018, como se fossem Jesus, são lances de um espelho, que quer te manter cativo e sempre igual a si mesmo.