sábado, 28 de junho de 2014

O amante

Em uma turma de faculdade, as pessoas comentam que o João gosta da Maria. E que Maria não o corresponde. Mais do que isso não falam. Os amigos mais chegados de um e de outro são os que sabem mais detalhes, e consolam Carlos, quando ele está triste; às vezes dizem-no para desistir, ou simplesmente divertem-no, para que ele largue um pouco daquilo. As amigas da Maria incentivam-na a dar uma chance para Carlos, ou dizem que ele não é mesmo lá muito legal para ela. O caso desenvolve-se no interior das relações mais íntimas que cada um tem, mas oferece feição pública que diz "Carlos gosta da Maria". Na mesma turma, diz-se que o João atira para todos os lados, a cada hora mostra interesse por uma menina. No riso dos colegas há uma reprovação do comportamento frívolo de João. Foi assunto do grupo a falta de profundidade nos sentimentos dele, ou a sua confusão. Para que um homem possa tornar público um sentimento, sem ser censurado, que ele pareça saber o que quer e não pareça fugir ao controle de si mesmo. Um colega que agisse movido antes pelas emoções do ciúmes do que pela razão também viraria assunto. O diálogo Fedro, de Platão, ajuda-nos a falar algo mais sobre essas situações. Como uma pessoa passa a amar a outra? Uma pessoa vê coisas bonitas na outra. Vê beleza em seu rosto, corpo, gestos. Segundo Platão, essas sensações fazem-nos lembrar, sem que tenhamos consciência disso, do Belo absoluto, com quem nossa alma uma vez se encontrou. O candidato a amante procura conversar com o belo. Como este reage, e o que ele fala, ou assegura de que ali está um exemplar do Belo, e em relação ao qual só se pode ter amor, ou mostra que houve um engano e não há tal característica ali. A pessoa que faz pouco caso do interesse da outra mostra-se feia, até. Ainda assim, neste caso, o candidato a amante pode insistir. Insiste, também, como o Carlos, que foi compreendido por Maria e recebeu sua explicação do porque ela não queria ficar com ele. O que a outra pessoa faz continua mostrando beleza, aos olhos do amante não correspondido. Ele reúne uma porção de manifestaçöes do seu amado, para manter seu amor. Tem amigo de Carlos que o acha meio bobo, meio fora da realidade por gostar de quem não gosta dele. Bem, mesmo que seja correspondido, mesmo que receba uma resposta que justifique e incentive o interesse amoroso, o amante sempre ama algo além do indivíduo a quem ama. Isso porque o amor é justamente ver algo além, irreal (para Platão seria mais real), na pessoa do amado. Ama-se alguém porque sua beleza, suas virtudes (que são formas de beleza física, e toda beleza é física), fazem lembrar, vivenciar todas as coisas bonitas e boas que existem. Vir a amar alguém requer a reunião de elementos dele e a experimentação de coisas gostosas quando se está na sua presença. Requer, também, delicadeza, tato no lidar com quem se ama. João, num dia, disse estar interessado na Maria. Uma amiga dela lembrou-a de quem é o galinha da turma. Mesmo assim, Maria ficou com João. Reprovava-se João por ele não parecer realizar aquele trabalho de sentidos e de alma com relação a cada pessoa de quem ele se dizia interessado. Ele precisava curtir internamente o interesse por alguém e preparar sua ação em busca de dele. Quando se começa a sentir amor por alguém, se quer atirar-se para ele, entregar-se ao prazer junto dele. No entanto, a autocontenção é necessaria, e ela vem com um "agora não", do outro, e um engolir o impulso e o ocupar-se da admiração desse outro, a certa distância das mãos. Esse autoconter-se acontece no interior de uma relação amorosa. A atitude que torna-se pública pode ser a que veio com a falha da autocontenção do amante: uma atitude enciumada, ou um tomar o outro à força. João passou a gostar de Maria, depois que ficaram. Teria ele gostado de outras, com quem por ventura tivesse se interessado? Não dá pra dizer. Mas o seu "atirar para todo lado" era reprovado por ser uma caricatura do ser homem: se o homem é o que se interessa por alguém e nele investe, com esforço, o que desiste ao ouvir um não, é fraco; se o homem é conquistador, deixar seu alvo escapar e denunciá-lo mostra sua falha e seu ridículo. Ele quis algo e não conseguiu ter. Carlos também não, mas nele se via reserva e paciência. Mas, veja, João gostou mesmo de Maria! Quem diria? Não! Ele não era alguém vazio. Outro, no lugar dele, poderia ser. Mas esse João, que via beleza e buscava várias mulheres, por uma foi correspondido, recebeu mais motivos para achá-la bonita e com ela ficou. João fez amor com Maria, e, com o amor feito, ficou amando-a. Os amigos bem falavam "quando ele se apaixonar por alguém, vai ficar de quatro'.

sexta-feira, 20 de junho de 2014

Batemos em professores

Escrito em 2 de outubro de 2013, por ocasião de uma greve dos professores, duramente reprimida pela polícia: Batemos em professores. Somos capazes disso. Não parecemos ter qualquer limite. Quando queimamos mendigos, chacinamos favelados e matamos mulheres, sentimo-nos mal, mas jamais deixamos de comer e de dormir. E nos parece ainda mais natural que a escola pública esteja destruída, e que os professores ganhem mal e que farão greve. Quem está de fora, reclama da greve. Acha que o Brasil é difícil pra todo mundo, e que cada um deve se apertar calado, ou se manifestar em mesa de bar. A polícia bate em nosso lugar, e bate para matar. Se ainda não havia matado uma professora, foi por sorte. Também há um problema em pensarmos que não se pode estar seguro nos dias de hoje. Achamos normal pensar que dá pra morrer na mão de alguém, de uma hora para a outra. Cada um que cuide da própria vida, por isso o Estado não precisa cuidar de ninguém. Então não exigimos escola e hospital. Se estar vivo não é importante, quem assiste à vida não tem qualquer autoridade. Temos até alguma sensibilidade para com os problemas dos médicos, damos-lhes alguma importância, pois são quem assistem aos nossos últimos suspiros. Mas o professor, o que nos vê crianças, o que sabe que não sabemos tanto assim, aquele por quem temos ressentimento, esse deve apanhar. Ninguém diz que teve infância feliz, e se é feio culpar os pais, que apanhem de volta os professores. E não achamos importante a educação, ela não faz parte dos nossos planos para nós mesmos. Não acho que aceitaríamos que matassem todos os professores, pois, afinal, a nossa realidade de “Brasil desgraçado” estaria comprometida, poderia deixar de existir. Mas deixamos que apanhem, que penem bastante em vida. Todos deveriam participar das manifestações dos professores. Estamos todos ligados à escola pública, com o nível de cultura geral do país. Não podemos ficar satisfeitos em sermos medíocres. E devemos estar com aquelas que nos cuidaram, que cuidam dos nossos filhos. Sustentamos um Estado para que ele nos dê meios comuns de vida, mas viemos aceitando a violência por suas mãos, realizando a nossa intenção. Ficamos insensíveis e atingimos o cúmulo da barbárie ao batermos em professores. Uma manifestação por eles e pela escola é, na verdade, por mim e por você, por quem fomos e por quem somos. É por um futuro de boas possibilidades para o nosso desenvolvimento espiritual. E é por um presente de respeito e agradecimento por quem nos apresenta as chances de sermos pessoas melhores.

Menino e menina

Eu já não podia mais correr e imitar lobo, para o Daniel fugir. Ele queria mais. Sugeri que chamasse o Pedro, que se encontrava entre outras crianças. Maria ouviu, e foi logo dizendo que eles estavam brincando de Hello Kitty. Pedro, que participava da brincadeira, disse que Hello Kitty era só para meninas. Daniel gritou “eu gosto!”, e fez das próprias feições as do bichinho mais fofo do mundo. Pedro foi tomado de uma alegria repentina. Saiu de onde estava e foi falar com o Daniel, ficar olho no olho com ele. Acalmou-se e perguntou sério: “Você gosta mesmo de Hello Kitty?”. Daniel repetiu “gosto!”, e readquiriu a carinha bochechuda e de olhos puxados. Pedro viu que podia, sim, ficar alegre, e disse ao Daniel: “vem brincar com a gente!”. Recostei-me à grade. Menina ou menino é uma questão do que se gosta, e do que se brinca de ser. Isto, para as crianças. Para nós, menino ou menina são preparativos para o que achamos que cada indivíduo deve ser. A criança só pode ser um ou outro. E, se uma biologia sagrada diz que menino deve ser aquele que nasce com uma coisa pendurada entre as pernas, e que menina é, automaticamente, aquela a quem isso está faltando, então a definição de qual dos dois se é fica fácil. Enquanto isso, Daniel está lá no meio dos outros, agachado e miando.

Miséria e ódio

Certa vez vi um garoto de oito anos falando sobre as opiniões de outras pessoas acerca de um filme. Analisou os erros e os acertos das opiniões, e só então deu sua própria. Em 2012, o filósofo americano Michael Sandel deu uma série de palestras em Havard, com o título “Justice – What’s the right thing to do?”. Estão todas no Youtube. Em uma delas (http://www.youtube.com/watch?v=Ch7qpPSuDMM), Sandel apresenta o libertarianismo de Robert Nozick. De acordo com a exposição, os frutos do trabalho de um indivíduo são de sua propriedade. O Estado não deve arrecadar impostos para o custeio de políticas públicas de saúde ou educação, das quais os pobres mais se beneficiariam. Serviços como polícia e bombeiros, nada que cheire a redistribuição de renda, seriam os únicos a serem oferecidos, neste Estado mínimo. Assim, uma proposta como o aumento de impostos para os mais ricos, seria inaceitável. A taxação de um indivíduo, proporcionalmente à sua riqueza, é, para Nozick, roubo de algo que é dele. E, como para trabalhar o indivíduo emprega seu tempo, a quantidade de tempo necessária para produzir aquilo que lhe foi tomado acabaria indo para o Estado. É como se ele tivesse trabalhado de graça, durante aquele período. Haveria, aí, uma situação moralmente equivalente ao trabalho escravo. Esta é a razão pela qual, para Nozick, qualquer medida redistributiva de renda é injusta, portanto, imoral. A cada aula, para turmas de cerca de mil alunos, Sandel apresentou as principais ideias de diferentes doutrinas de filosofia política, e os debates históricos que definiram os principais argumentos favoráveis e contrários a cada uma delas. Lançou situações-problema para sua plateia, como forma de provocá-la a dar respostas que fizessem emergir posicionamentos mais utilitários, mais libertários ou mais igualitários. Escutou as respostas, elencou-as e as organizou em quadros comparativos. Sandel certamente possuía uma opinião própria sobre cada teoria ou situação que propunha à plateia. No entanto, permitiu que cada filósofo pensasse nos problemas, no lugar dele mesmo. Deixou os filósofos trabalharem. Pôde abrir aos alunos o modo com que se desenvolvia cada raciocínio, e como aquele trazido por eles próprios traziam uma fundamentação mais próxima deste ou de outro filósofo. O que Sandel estava ensinando, antes de tudo, era uma disciplina para a conversa que cada um tinha consigo mesmo e com os outros, quando diante da vida e de discussões. Esta disciplina, a condução da conversa à maneira de cada filósofo, é o próprio modo de se estudar filosofia: em conversas com filósofos. Retornando a Nozick, a posição libertária nos soa estranha, pelo mesmo motivo que fez uma das alunas do curso pedir a palavra e colocar em questão a ideia fundamental do libertarianismo: a autopossessão. Viver em sociedade, trabalhando e gerando riqueza, implica que a força de trabalho de um indivíduo, e o modo com que este trabalho se organiza e realiza, seja inseparável de uma família, de instituições e de outros indivíduos, além dos altos e baixos da economia, do trabalho e das oportunidades, que independem dele. Um indivíduo, ao produzir e acumular riqueza, deve tributos à sociedade em que trabalhou e enriqueceu. Desta forma, complica-se a ideia da autopossessão, do ser dono da própria força de trabalho e do que advém dela. A existência de pobres, nesta sociedade, é uma questão a ser manejada pelo Estado que, por sua vez, precisa do que arrecada em impostos. O justo seria, portanto, quem possui mais riqueza contribuir mais. Na página deste vídeo, há mais um comentário à exposição sobre Nozick, agora dizendo que o raciocínio dos libertarianistas é bem montado, consistindo, assim, numa boa estratégia dos ricos para defenderem seus próprios interesses. Gastos sociais são crimes que o Estado comete contra eles, que não podem ser chamados para se implicarem na resolução das desigualdades sociais. Este comentário é puro ódio ao rico. Não comenta o raciocínio de Nozick, e seus pressupostos. Se alguém faminto me aborda na rua, compro comida ou convenço alguém a comprar. É claro que a indignação deve deixar para depois qualquer teoria. Diante da miséria, a razão deve ser prática, ou será cínica, tenderá a justificar o injustificável. Depois posso perceber as filiações mais igualitárias do meu modo de pensar. O comentário ao vídeo não gosta de teoria. Teoria é artimanha de ricos. O miserável, ou outra minoria, é o exemplar de um mundo doente e perverso, uma vítima dos ricos. Não se alimenta e dá abrigo a um mendigo porque ele precisa, mas porque os ricos são maus. Isto está presente em nosso senso comum, na parte em que uma cultura universitária o toca. Fica-se com a primeira teoria jogada por um professor que foi antes doutrinador do que alguém que apresentou raciocínios e ensinou a disciplina do saber e do pensar. O uso que se faz dessa teoria é irracional, não é pensado e não é empregado para pensar a realidade. Há militantes de todas as causas que trazem esse pressuposto de que o mundo é mau, divide-se em vítimas ou agentes da maldade, e que é preciso defender os primeiros com todas as forças. Nietzsche mostra, no Genealogia da Moral, que o motor desses militantes não é o amor pelo outro, mas o ódio ao mundo. E não se busca a liberdade desse outro, mas que ele se mantenha como vítima, e o salvador na posição de salvador. O suposto amor a ele esconde, na verdade, um sentimento perverso do salvador, nada cristão, desinteressado em ajudar. Não é preciso pensar no problema da mulher, do negro, do gay, do pobre. O machismo, o racismo, a homofobia e o elitismo estão em toda parte. O militante que age por incapacidade de pensar, e por ódio, encolhe-se ao lado de sua vítima, ao primeiro sinal das teorias “inimigas”. Uma aluna do curso de Biblioteconomia, da UFF, acusou sua professora de racismo (http://www.jornaldaciencia.org.br/Detalhe.jsp?id=89225), por, em uma prova, haver um texto defensor da tese de que há uma natural inferioridade intelectual dos negros, e uma propensão destes ao crime. A prova pedia que se analisasse o texto e atacasse seu raciocínio, utilizando teorias culturalistas. Na reportagem, a aluna afirma que tal embasamento não foi fornecido previamente pela professora, e que ela, universitária, não tem condições intelectuais de atacar o texto ofensivo aos negros. E se disse humilde. Preferiu acionar a OAB e o movimento negro. Ela poderia ter lido o texto, identificado o raciocínio que inferiorizava os negros, então contra-atacado da maneira como lhe fosse possível, com os recursos que tivesse. Mas parece haver uma identificação com o sofrimento, um dizer que se é tão humilde quanto quem digo que é humilde. Estamos vendo o Joaquim Barbosa sofrendo ataques racistas da esquerda, pois este ousou ocupar a posição em que está, e desempenhando muito bem seu papel de fazer justiça. Não conseguimos ver aqueles a quem identificamos como minoria saindo dessa posição, e tendo destaque, tendo poder. Há uma parte das diferentes militâncias que atrasa o lado de quem diz defender. É uma parte que se forma pela miséria intelectual, e pela identificação parasitária com a "sua minoria".

Ódio ao negro, ressentimento do branco

Escrito em 10 de fevereiro, ocasião em que foi noticiado o aprisionamento do jovem negro a um poste, no Aterro do Flamengo: Quem busca justiça é movido por um afeto: a injustiça dói no peito, e a coragem impele para forçarmos o reequilíbrio de uma situação. Lutar por direitos humanos é coisa de macho (como diz Paulo Ghiraldelli Jr.)! Mas há os que acham que o paraíso na Terra é o fazer da vida de outros um inferno. Negros, pobres e gays têm sido olhados pelo Estado, e pelo todo da sociedade, com uma generosidade que não se tinha visto antes. Estamos mais próximos de uma situação de justiça, ou melhor, de justiça social. Isso desperta o ressentimento de certos setores. Uma fala "nunca fomos atendidos" vem de quem conseguiu uma condição relativamente boa de vida, fruto de inserção em oportunidades decorrentes da dinâmica mercado-governos, mas também sujeita a perda de poder de consumo, a não poder consumir como uma classe mais alta, e a ter que conviver com pobres. Vem de quem tem visto a aproximação, em poder e lugares de consumo, de muitos desses pobres, agora não tão pobres. Toda uma história do branco que acha que negro não é gente, que só ele próprio pode gozar dos benefícios da vida moderna, e dispor da vida do negro-bicho; uma história de frustrações, com o escravagismo que ficou anti-econômico, o não consumo de des/subempregados, que prejudicam os negócios, a empregada doméstica que extrapola o orçamento, etc; é uma história de vontade de conquistar coisas, misturada ao desejo de abusar do outro. Ambos têm sido dificultados, e seu impulso vira raiva remoída interiormente (vira todo um mundo interior de ressentimento), e espera da primeira oportunidade para se responder um roubo com linchamento e humilhação. A desproporcionalidade da resposta é essa raiva contra tudo dirigida a quem se pensa ser culpado. Que ele volte para de onde veio, que o negro pobre saiba seu lugar! Uma raiva deste tipo tem ocorrido em uma porção de lugares, e está atrás dos olhos dos justiceiros do Aterro.

A bunda mexe

As meninas no baile funk empinam a bunda. A parte plebéia e democrática do corpo não passa despercebida de homens e mulheres, policiais e manifestantes, gays e evangélicos, Pondés pessimistas e conservadores e Safatles programáticos e carcomidos. Ela dança sensual e, se cansada, senta onde dá. Valesca relembra-nos que a razão não pode desvincular-se da experiência, do materialismo vulgar, dos sentidos; que o homem é um animal que quer brilhar, consumir, e que rebate a inveja. Relembra-nos que precisamos comer e deixar de sofrer, e que sabemos dançar e trepar, com prazer. Ela oferece a visão do final das coisas: o chão e os dejetos, o inseparável dos nossos melhores planos. Recebe o pé que encerra os belos relacionamentos. O pé na bunda doeu, então ela tem a sua dignidade. Ensinará ao corpo a hora de agir ou segurar, para não falhar novamente. Chama-nos para as consequencias do que fazemos, a moral à consciência de si mesma. "Na consciência ingênua, a moral age como uma parte do inconsciente: o inconsciente, o mecânico, o não livre em nosso comportamento... eis o verdadeiro mal" (Sloterdijk, Crítica da razão cínica. p.251). A bunda é a Esclarecedora dos "esclarecidos" à esquerda e à direita. Está no horizonte de todo mundo, embora esquecida por razões muito preocupadas com si mesmas, as suas ideologias. Pondé e Safatle vêem, mas ficam no "porque não fico excitado? Tem algo errado com ela? Comigo?"

quarta-feira, 18 de junho de 2014

Tilburg e a paranóia

Saiu, em veículos de notícia nacionais, que na cidade de Tilburg, Holanda, estuda-se criar uma comunidade exclusiva para gays. A princípio pensei que o termo "exclusivo", ou "fechado", houvesse sido acrescentado pelos nossos jornalistas ao que realmente Tilburg está pretendendo. Mas esses termos também constam na primeira veiculação da notícia, no jornal holandês Brabants Dagblad. Como garantir que os habitantes de um lugar sejam gays? Será mesmo esta a intenção de Tilburg, e o seu jornal não forçou a barra noticiando que é pra ser "exclusivo"? No filme O Cruzeiro das Loucas, Cuba Gooding Jr e seu amigo entram em um cruzeiro, desavisados de que era um cruzeiro gay. Quando o percebem, já estão em alto mar. Como passariam as férias sem mulheres? Foram cantados, em situações divertidas. Divertiram-se muito, entraram no clima. Se fizeram sexo, ou não, pouco importa. Ninguém a bordo discriminou-os quando se afirmaram não-gays. Claro, se eles tivessem se mantidos sisudos, não teriam sido bem aceitos, pois o lugar era de descontração. Nos lugares com o gay, como identidade, o que conta é a abertura da pessoa para se divertir. Há uma preocupação geral de que essa abertura seja sexual. E de fato é sexual, pois é o corpo entrando no clima da festa, junto com os outros. Mas não necessariamente ocorre sexo. É necessário ser gay, nesses lugares, mas não é necessário dar ou comer alguém. Quando ficamos sabendo de um lugar que quer apenas gays entre seus habitantes, podemos ter um entendimento errado, por causa de uma perspectiva restrita do ser gay. Clubes de swing não exigem que se faça swing. Algumas praias de nudismo aceitam quem não quer se despir. Lugares de maior liberdade sexual ou corporal não costumam criar caso com as diferenças que são a normalidade, no resto do mundo. E que mundo é esse, se há "bairros gays", na Espanha e na própria Holanda, em que habitam não-gays? Ou em que só habitam gays, mas gays por morarem em um lugar cujo clima é de maior liberdade? Mas se for realmente a vontade de Tilburg só aceitar quem faz sexo com pessoas do mesmo sexo (coisa impossível de se garantir)? Como ela garantirá que esse gay não fantasie com o sexo oposto? Nossas identidades não conseguem dar conta da pluralidade dos nossos desejos. Mas, se existissem pessoas 100% gays, elas poderiam formar uma comunidade exclusiva? Comunidades não são cidades. Uma comunidade pode ter seu perfil de habitantes. Uma cidade é um espaço público. Uma comunidade pode ser uma grande casa, ou um grande espaço privado, com suas regras de aceitação de pessoas. Uma outra casa, que exista ao lado, já é uma quebra da comunidade. Os comportamentos já não serão comuns. Entre uma casa e outra, uma comunidade e outra, é o espaço público. Nele, grupos não podem ser discriminados. Uma comunidade que funciona sob regras escolhidas por seus próprios habitantes não é autoritária. Quem não compartilha delas, que busque outra ou forme a sua própria, associando-se a outros, no espaço público. Li algumas críticas a Tilburg. Dizem que pessoas discriminadas não podem discriminar. Ainda não sabemos se Tilburg realmente que ser exclusiva para gays. Nossa pressa em pensar isso, e querer combatê-lo tem muito de analidade problemática, medo de perder o controle das próprias fezes que vira impulso de controle social. Nada mais paranóico do que quem se diz "heterossexual".

O sol de César e Félix

Escrito em 1º de fevereiro, quando do último capítulo de "Amor à vida": "Há coisas que não podem ser ditas". Essa frase dizemos bastante. E ela é uma verdade, para nós. Assisto ao nascer do sol. Assisto ao nascer de um ser. Assisto ao morrer do sol, e de um ser. O sol, de fato, não morre, mas um ser, sim. Enquanto vivemos, sentimos amor por algumas pessoas. Também sentimos ódio. Quanto mais fortes forem esse amor e ódio, tåo mais difícil será explicá-los. A astronomia explica o que faz o sol aparecer e desaparecer para o homem. O astrônomo, contudo, olha pela janela ao acordar e sente alegria e boa disposição. O médico e o biólogo têm suas explicações para o começo e o fim da vida, mas choram quando nascem seus filhos, choram quando morrem seus pais. Choraram quando eles próprios nasceram. E guardam um medo da morte. Falamos muito sobre essas coisas, mas temos a impressão de que nunca é o bastante. Sentí-las é o melhor que podemos fazer. Como explicar porque amo alguém? Posso dizer muito, num momento, e logo adiante ter que dizer mais. O porque de ser amado também não é simples. E os motivos de um ódio nunca dão conta desse sentimento. É por isso que tantas histórias contamos sobre essas coisas! Félix passou a novela armando e executando planos para chegar à direção do hospital do qual sua família é dona. O principal alvo desses planos era sua própria irmã, pois a simples existência dela ameaçava seu objetivo, e, pior, roubava-lhe o amor do pai. Agir de forma maldosa não lhe era difícil. Explicar totalmente esse ódio é que ele não podia. Na cena em que ele confessou ter jogado a Paulinha, então bebê, no lixo, Paloma se disse enojada, e Pilar, sua mãe, que ele era monstruoso. O feito poderia ser explicado objetivamente, mas a sensação decorrente dele era inefável, um iceberg do qual só se percebe a ponta. Félix virou um pária, um ser estranho. Não podia mais conviver com a família, pois havia deixado de ser irmão e filho. Márcia, que o acolheu, e não estava tão envolvida naquele drama, disse que ele agiu terrivelmente. Niko também pôde dizer isso a Félix. Algum tempo depois, Pilar o procurou, e pôs como condição para o reingresso dele em casa, uma confissão completa a Paloma. E Félix contou à irmã o que, de tão terrível que era, havia sido mais fácil fazer, e esquecer, do que dizer. Paloma pediu para que ele lhe fizesse entender tamanho ódio. Félix deu suas razões. Ele mesmo então foi vendo a própria irracionalidade, e arregalava os olhos assustado de si mesmo, e temeroso pela reação da irmã. Félix precisava de uma chance para agir diferentemente. Paloma, então, pediu sua ajuda para livrar César de Aline. Para desvendar esquemas maldosos, ele era bom. Paloma ainda dizia não conseguir perdoá-lo, mas apreciava a solicitude dele. Félix também ajudou Niko a manter o próprio bebê. Apesar disso, o que ainda havia para se dizer sobre Félix é que ele é mau. No último capítulo, Paloma disse ao irmão que, ao abraçá-lo, quando da retirada do pai de ambos da casa de Aline, sentiu por ele uma nova afeição. O primeiro amor dela por ele fora destruído, e infinitas explicações de Félix não o consertariam. Mas a cooperação dele, e o abraço espontâneo, fizeram o novo sentimento. Félix também disse sentir afeição por ela. No casamento de Paloma, Paulinha veio perguntá-lo o porque de ele não gostar dela, que o admirava tanto. Uma dia ele contaria a ela o terrível ato que cometera, e seus motivos. Abraçaram-se. Félix prometeu ser sempre um amigo. Quando a verdade aparecer, eles então terão um forte, e não totalmente explicado, sentimento bom. Isso ajudará a suportar a monstruosidade do passado. Todos quisemos ver o beijo de Félix em Niko. Ele estava vivendo muitas coisas novas, mudanças boas. Como expressar isso em palavras? As palavras haviam sido todas usadas em suas guerras. O quanto ele dissesse que amava Niko não bastaria. Só um beijo faria jus ao que ele sentia. O público não se satisfaria com blá blá blá. A novela deveria ser mais ação e emoção, neste final, e menos fala. O beijo aconteceu. Também aconteceu de pai e filho olharem juntos o por do sol. Muitas bobagens eles haviam dito um ao outro, ao longo de suas vidas. O sol morria, mas prendeu o olhar de ambos e os fez darem as mãos. As leis do cosmos também no governa, pensamos desde os gregos antigos. Era hora de descansar. Não sabemos nos explicar direito. Nos é difícil fazer o certo. Buscamos nossos pais, mães, filhos, a vida toda. Palavras de amor nunca bastam. Palavras de ódio ujamais podem ser verdade. César e Félix disseram "eu te amo" um para o outro, como palavras-gestos intermináveis. Choraram, ainda de mãos dadas.

César, o dono do mundo

Escrito em 29 de janeiro, quando da exibição de "Amor à vida": Aline, a vilã de Amor à vida, foi obrigada por Mariah e Niño a fazer o que fez. Para César, agora ele podia ver a verdade. Félix se indignou com o pai dizendo essas coisas. Você nunca viveu o amor, disse César. Quem ama defende cegamente o amado, mas essa cegueira difere da que acomete os olhos, defende-se César, cegueira esta que ele também tem. O amor de verdade é cego para os defeitos do amado? No Fedro, de Platão, Sócrates diz que o amante ama as virtudes e a beleza do amado, e quer contribuir para o desenvolvimento daquelas. Contudo, há uma cegueira nesse amor: o amante doa todo o seu tempo para estar junto do amado. Atribui-lhe qualidades que não são as dele, o amado, mas do deus de devoção do amante, embora ele tenha encontrado semelhanças entre seu amado e esse deus. Quando este amor acaba, o amante se desespera pelo esforço gasto com quem se revela diferente do que ele pensava. Se o amado comete uma falta, ela será corrigida, pois este amor quer o melhoramento do amado na virtude prezada pelo amante. Quando o amante é também amante da sabedoria, a alma do amado é um espelho para o amante conhecer a alma dele. Ele sabe como age neste mundo, e que não deve desgovernar-se diante dos seus estímulos, além de não dever acreditar em suas aparentes verdades. Ele atinge à Verdade fechando os olhos do corpo, e abrindo os da alma, para o que realmente tem existência: as Formas, imutáveis, eternas e perfeitas. Amar é ser meio cego para si mesmo, meio focado demais em determinada ideia do que se quer para si e o outro, e alheio a outros ideais. Além disso, é não condenar o amado por suas faltas. Ao contrário, é cuidar mais ainda dele para que ele melhore. Agora, a cegueira dos olhos do corpo é uma metáfora do que ocorre com o filósofo, que se desliga deste mundo e se liga ao outro, de mais realidade. César tem esse amor por Aline, cuidadoso com ela, e autocuidadoso? Ou tem um ódio cegador, destrutivo, por não ter sido bom o suficiente para ela? Porque ela o traiu, tendo ele lhe dado vida de luxo, um filho e, se lhe faltava juventude, tinha experiência pra oferecer? Experiência para oferecer? Não, para esquecer. Esquecer do que lhe tirou o poder. Ele não diria nada sobre as ex-mulheres que traiu, além do que seria necessário para dizer que ela é o maior amor da vida dele, o que não era nada pouco. O passado não chegaria naquela casa distante. Os filhos foram afastados, e a visão dele não era necessária: dependia em tudo dela, mas era como se tivesse uma súdita. César deixou para trás o passado que o afrontou. O poder dele é o de fazer seu poder ser limpo, por isso seguro, duradouro. Sendo o Grande César Cury, ele não deveria ter sido descoberto nas traições, nas armações, tendo um filho como Félix e perdendo a presidência do hospital. Até a troca da esposa pela secretária queimava seu filme. Que isso ficasse guardado, junto do retrato de Dorian Gray. Essas faltas não lhe doíam, mas irritavam. Aline o guardava. Quando ela foi descoberta, César voltou para a casa da Pilar. Cada presença de olhos ousavam censurar seus vícios e, o pior, viam-no como corno, cego, um coitado. "Pappy poderoso", eterna bufonaria, apesar de respeitosa, agora era deboche. César foi um cavalo descontrolado que não fez como Félix, para quem, faltando o amor do pai, amou-se a si mesmo de tal forma que era desprezível o amor que as pessoas sentiam umas pelas outras, por crianças e até por ele, Félix. Félix tinha profunda autoconscência, muito amor próprio e ódio por quem se interpusesse entre ele e a realização dele mesmo. Foi reduzido ao nada, obrigado a se importar pelos males que causou, com a Márcia, que lhe disse "ai, ai, ai" e puxou a orelha, e com o Carneirinho, que queria ver uma imagem boa dele, e conseguia ver. Esse cavalo podia tornar-se melhor, olhando para si mesmo, desta vez com a ajuda do olhar amoroso do outro. O cavalo César antes quis reinar, com seus desejos, na casa em que morava com Pilar. Félix desviava as acusações que poderiam jogar nele. Dona Bernarda tentava alertar os demais. César simplesmente não podia não ter o que queria. Suas faltas só doeram porque descobertas, pois significaram o fim da imagem do poder, na direção do hospital, e do poder territorial, em casa. Quando pegou a secretária, foi como se seu cavalo tivesse ultrapassado a porteira. Foi longe demais, e Aline o levou pra roça. Ele era maravilhoso, os outros eram ingratos. O mau cavalo se sentiu locupletado de novo. E ai de quem viesse estragar seu paraíso! Agora, de volta à casa da Pilar, ele está na posição vergonhosa de ser apenas um cavalo velho, sem poder. César não sabe o que é isso, e odeia quem, além de lhe negar poder, desnuda-o no que ele fez para perder o poder que tinha. Nada mais ridículo do que perder uma coroa por decisões erradas. César deverá aprender que a vertigem que se sente na sala do diretor de hospital não pode levá-lo a fazer o orgulho próprio solapar a delicadeza no trato com quem se ama. Diante do amor da minha vida, eu devo ser um pouco súdito.

Seres de um só dia

O catolicismo tem uma longuíssima tradição de investigação da relação do homem com o absoluto. Continua uma tradição poética e filósofica da antiga Grécia. E essas tradições sempre foram educadoras. Veja esses versos de Semônides de Amorgos: "Meu filho, Zeus tem na mão o fim de todas as coisas e dispõe-nas como entende. O homem não tem o mínimo conhecimento delas. Seres de um só dia, como os animais no prado, vivemos ignorantes do modo que a divindade usará para levar cada coisa a seu fim. Vivemos todos da espera e da ilusão: os seus desígnios, porém, nos são inacessíveis. A velhice, a doença, a morte no campo de batalha ou sobre as ondas do mar atingem os homens, antes de eles terem conseguido o que queriam." (Semônides, frag. 1, in Jaeger, Werner. Paideia. p. 163). O homem vivia em sua busca por ter uma bela e virtuosa vida, e com a idéia de que ele não sabia ou podia controlar tudo, portanto, ele tinha limites de existência e ação. Bem depois, nas práticas confessionais cristãs, presentificávamos a nossa alma para nós mesmos. Deus, sendo absoluto, deixou-nos mais livre do que um conhecido, um igual, nos deixaria, para explorarmos nossa alma. A alma era consciente de si mesma, e, a essa altura, apenas começávamos a falar sobre nós mesmos. E a existir enquanto individualidade independente. Essa individualidade ganhou força, e a doutrina do amor ao próximo, vinda da noção de que não somos nós que mandamos nas coisas, veio dar na nossa cultura liberal de respeito pelos direitos ou liberdades dos outros. Quer dizer, nossa moral laica é cristã. E o cristianismo é essa literatura moral (e que não se trata de dizer uma "verdade" sobre as coisas) de onde emanam princípios que qualquer um de nós pode achar bons, e que levariam a bons modos de viver. Contudo, não podem enxergar a nossa vinculação a esta tradição os que não adquiram nossa cultura grega-cristã, ocidental e iluminista (teologia não é ciência, mas sempre foi investigação racional. A ciência moderna deve a ela, e à filosofia, toda a sua ideia de racionalidade). Esta incultura vai dar nos que professam uma firme fé no ateísmo, ou na igreja evangélica. Não tendo aprendido a entender gêneros textuais, por uma escolarização ruim, acreditam que a bíblia serve a uma verdade que precisa ser seguida sem interpretação. E seu abraço, ou sua fuga dela dizem de uma crença de que a opinião deles ou do pastor é a única. Eles tornaram-se os absolutos! Nenhum deles crê em Deus porque, enfim, Deus são eles mesmos! Ficam presos às mesmas ideias, não conseguindo pensar direito, impossibilitados que estão de entender conceitos e, ao mesmo tempo, cotejarem narrativas. E não respeitam o diferente, pelo ódio que têm de quem se comporta de outra forma da que eles consideram a correta. São moralistas, pois, por não entenderem os fundamentos da moral, que dariam uma noção do seu sentido e das relações não bitoladas e sofridas que o homem pode ter com ela, acabam querendo o controle pelo controle. Um militante pelo direito de minorias, se estiver nessa condição de se dizer ateu e ser ele mesmo um deusinho, assim que puder vai por as manguinhas de fora e dizer o jeito "certo" de ser gay, ou negro, ou mulher. O evangélico, por sua vez, quando diz odiar a homossexualidade, mas amar o homossexual, está disfarçando mal a intenção de receber o gay e querer "curá-lo", e limpar o mundo desse jeito de ser. Porquê? Porquê está na bíblia como devem ser as uniões. Tá escrito, então é assim que deve ser. Eu finjo que acredito nisso, e me mantenho bem comportado e com medinho. E o pastor, com dinheirinho roubado no bolso.

Desmedida

Já tomei agua gelada rápido. Doeu a garganta, não desceu direito. Também doeu a cabeça. Água quente, por sua vez, não tem graça. Acordei ontem no meio da madrugada. A boca estava grudando, e o ventilador jogando ar quente. Tive preguiça de levantar, mas não conseguiria dormir daquele jeito. Deixei o quarto, desci as escadas, passei a cozinha e calmamente pus-me a preparar um copo de água gelada. Não peguei suco, nem coca. Bebi lentamente a água, e fazendo várias pausas. Sentia o geladinho se espalhar pela boca. Terminei. Foi gostoso. O geladinho dominava minha garganta e estômago, sem causar nada além de prazer. Eu não poderia querer mais nada. Satisfiz-me com um líquido bem escolhido, bebido na hora certa e na medida exata. Sinto que Epicuro tem razão. Mentira. Após a água, bebi coca. Estava quente e xaropenta. Voltou o grude da boca, e o gás deu calor. Tive que beber mais água. Epicuro, porque é tão difícil ficar com você, sem abrir pra ninguém?

Perséfone só quer gozar

Escrito em 24 de janeiro, quando da exibição da novela "Amor à vida": Esses dias, na novela, Perséfone serviu pernil, salada com bacon e macarrão com linguiça para seu ex-marido. Daniel queria reatar, mas ela precisava saber se ele ainda implicaria com sua comida. E Daniel reclamou, disse que linguiça no macarrão a deixava gorda. O mundaréu de comida anunciava que a sobremesa, servida no quarto, também seria farta. Daniel não quis nem uma coisa, nem outra, e Perséfone disse que ele não a aceitava em seus hábitos e corpo. Mandou-o embora. Ambos ficaram tristes, pois se gostavam. Para ela, ser amada é ser aceita por ser quem ela é, e o "quem ela é" aparece aqui como o que ela faz, o que ela come e o corpo próprio. Para ele, amar é justamente relembrá-la da tarefa de controlar a própria alimentação. Perséfone até pouco tempo era virgem. O sexo dividia seus pensamentos com a comida. Na verdade, naquela época ele vinha um pouco à frente. Sexo e comida, às vezes comida e sexo. Ela então casou-se, fez o tal do sexo e agora o que quer é compartilhar essas coisas com um namorado. Não vou dizer que Perséfone tem uma compulsão por sexo e comida. Pondé, se a visse, provavelmente diria que sim. Em entrevista para o Canal Livre (assista aqui: http://www.youtube.com/watch?v=EgHMHuUzaBc), ele falou sobre a felicidade. Ele trouxe uma posição comum na filosofia: a de que um estado permanente de felicidade não é para o homem. Apesar disso, esse homem tem buscado sem parar a felicidade "brega", no dizer de Pondé, prometida em propagandas ou em livros de auto-ajuda. Isso, prossegue Pondé, ocorre com o homem da cidade, cercado de muitos estímulos e solicitações. O do campo, diferentemente, encontraria no ambiente natural, imutável ou controlável não por ele, mas por uma força superior, um quadro para entender sua posição no universo, conferindo-lhe parâmetros para a própria vida e contribuindo para que ele não tenha vícios ou compulsões. O homem urbano sofreria de ansiedade esperando pelo prazer que não vem. É uma boa narrativa essa que Pondé nos apresenta. Podemos ampliá-la sacando, por exemplo, o "Tudo que é sólido desmancha no ar", do Marshal Berman. No campo a vida segue os tempos da natureza: o dia, a noite, as estações, a época do plantio e a da colheira; dos bichos, incluindo o homem, o nascimento, o desenvolvimento e o emprego nas funções certas, a procriação e a morte. Tudo anda bem azeitado, seguindo leis maiores do que o homem e que o determinam. Na mercearia da cidade pequena as roupas têm tamanhos P, M ou G, e está bom. Já a cidade grande é o lugar da modernidade, ou seja, a situação em que o homem pôs a mão no mundo e o modificou completamente, atendendo suas próprias necessidades. Tudo existe e funciona de acordo com a vontade humana, que não pára, enfim, de se exercer sobre o mundo. Fica difícil para o homem encontrar uma referência estável para a sua vida. Na loja da esquina, o P, o M e o G agora são seguidos pelo GG, o XG, o XXG, etc. A pizza é gigante, ou duas gigantes meio a meio. A fome aumentou. Tudo se amplia à medida que a vontade humana também se amplia, e sua mão entra em ação. Este homem não se importa com o que diria um estóico. Pondé bem apresentou o estoicismo, como uma doutrina filosófica antiga que atua como uma medicina da alma. O estóico diria que a vida, da mesma forma que proporciona condições para termos prazer, mais à frente retirará essas condições e nos deixará no desprazer. Por isso, o conselho é que minimizemos o quanto possível a vivência dos prazeres, de modo que, quando eles cessarem, não sentiremos a sua falta, não sofreremos. A iminência dessa falta também seria vivida com menos ansiedade. O estoicismo contraria a busca humana por exercer sua vontade, aumentar sua fome e buscar saciá-la. Na boca de Pondé essa doutrina o faz soar um mau psicanalista. Somos faltosos, falta-nos um objeto primordial de investimento amoroso. Passamos a vida buscando imitações dele, tomando-o pela coisa real, pelo que realmente queremos. Como não o é, não nos satisfazemos e o trocamos incessantemente por novos. Há Platão nessa psicanálise, a ver por essa ideia de que as coisas que conhecemos são cópias de outras, as verdadeiras, as quais nunca temos acesso. O que não é necessário é colocarmos estoicismo nessa jogada. Nossa condição é buscar incessantemente algo que não podemos ter. Podemos aprender a viver assim. Se esse não for o mundo real, não tem como sabermos. Nietzsche já nos alertou que acreditar num outro mundo, numa outra vida que seja mais real do que esta que temos diante de nós, é uma atitude de fraqueza. Uma saída disso pela via do querer menos, seguindo uma inspiração estóica, tem cara de desistência da vida. A fala que aconselha você a querer menos está na boca de todos, incluindo psicanalistas e filósofos. Está na boca de quem viu a Patrícia, amiga da Perséfone, fazendo sexo no consultório e no elevador, e ao invés de apenas relembrar as normas do lugar, lançou um riso de escarninho e censura para ela. Perséfone não tem problemas com a forma com que anda fazendo o que gosta. Será que ela não encontrou uma medida toda dela para viver o prazer, como outro médico da alma, Epicuro, aconselharia? Não tão pouca comida ou sexo, a ponto de não sentir o seu gosto, e nem tanto a ponto de começar a sentir enjôo. Nem uma gota, um grão ou uma fricção a mais. E o mínimo necessário para gozar. Assim ela não se frustraria. Ninguém pode dizer para Penélope como viver o prazer. É ela que deve experimentá-lo e aprender a própria sintonia fina. E ela espera um homem para dividir as fomes e o aprendizado de como regular o próprio prazer. Compulsivos são os que vigiam como e com quem ela come. Esses estão preocupados demais com os tesões do outro para terem qualquer chance de sentir o deles. Não há fórmulas para a felicidade, apesar de elas sempre serem oferecidas por aí. Será que realmente acreditamos nessas fórmulas? Ou temos, aqui e acolá, conseguido proporcionar para nós mesmos, e mais alguém, uma boa noite de prazer? Quem bate demais na tecla que o homem não vê a própria insatisfação quer substituir a propagada da felicidade pela da infelicidade.

Amor e ódio no BBB

Escrito em 16 de janeiro, quando o BBB 14 foi transmitido: Primeiro encontro com amigos da namorada. Mais do que gostar deles, meu dever era ser gostado. Propositalmente ou não (os psis invertem isso, dizendo "inconscientemente ou não", colocando o caráter não intencional da ação na frente), em situações assim, acabo quebrando as expectativas. Digo algo que incomoda e falho no dever de ser gostado. Mas isso é no primeiro encontro. Primeiras impressões não se corrigem, mas aceitam, posteriormente, que se acrescente impressões diferentes. Na votação do Big Brother, ontem, um dos participantes deu como motivo para votar em outro uma frase dita por ele, que o deixou com mal-estar. A frase não foi repetida, mas foi o suficiente para que o votante formasse sua primeira impressão e, não tendo tempo para trazer novos elementos, entendendo de outras formas o dito, utilizou-o como motivo para a votação. Geralmente, quando conhecemos uma pessoa, não abrimos tão rápido o que pensamos sobre ela. Há, contudo, casos de pessoas que verbalizam suas impressões, e até valorizam essa atitude e tomam-na como característica da própria personalidade. Tem participantes do BBB, inclusive, que entram na casa afirmando dizerem "na lata" o que pensam. O público fica com a impressão de que logo ele discutirá com alguém e dará em momentos interessantes, interrompendo o marasmo de estar naquela casa (e de assisti-la). E é marasmo porque é muito parecido com a vida que ocorre fora dela. Um morador da casa do BBB age como normalmente agimos, quando se incomoda com alguma coisa: deixa a situação dar uma esfriada, mas ele próprio não esfriou ainda. É movido por um impulso timótico, que tem a ver com os desdobramentos da ira, como a honradez, senso de justiça ou de necessidade de receber uma reparação, etc (para os gregos antigos, os impulsos erótico e timótico eram forças que agiam sobre os homens, por ação dos deuses, e sob os quais o controle que estes podiam ter era o autocontrole, ou seja, o cuidado com a forma como agiriam após terem sido fustigados. Impulsos, então, não tinham a ver com nossa ideia atual de sentimentos, mas de forças que nos tocavam, impulsos que aconteciam conosco. Contudo, podemos dizer que nossos sentimentos de amor e ódio têm essas raízes). Esse morador puxa para o lado uma pessoa de confiança e fala do seu incômodo. Os outros não vêem. A confissão não interfere diretamente na convivência entre eles. O mal estar passou, e o impulso tende a esfriar. Contudo, quem está fora da casa viu o caso inteiro. Bial aproveita para abrir um paredão surpresa, obrigando os moradores a jogarem, e nesse momento o jogo é de sacar as impressões que já se formaram uns dos outros para justificar uma campanha, individual ou não, para a eliminação de alguém. Essa pessoa será seu alvo para sair da casa, talvez para a formação de outros paredões e em outras decisões relativas ao jogo. Quando os moradores tornam-se jogadores é que vemos melhor seus impulsos. Mesmo que eles já tenham se auto-controlado, e o caso que os despertou tenha passado, eles podem ser atiçados pela própria condição de ser um participante-competidor de um reality show. Nós estamos aqui, de fora, para ver como eles lidam com o amor e a ira. A pessoa que ama, gostamos de ver se entregando, vivendo a desmedida do amor. E, como um amor desmedido não pode ser correspondido à altura, o alvo daquele amor fica nos parecendo indigno dele. Pronto, aquele que ama já cai no nosso gosto. A pessoa que odeia, se tem motivos para odiar, precisa cuidar para não perder o senso de justiça. O mal que ele ou alguém próximo a ele sofreu (ou que ele mesmo causou) precisa ter uma compensação. Mas essa compensação precisa ser justa, manter nossa impressão de que trata-se de um guerreiro que sabe o que faz com os outros e consigo, não se descontrolando. Se, além disso, esse guerreiro é amado por alguém na casa, ou ama alguém de forma que nos comova, então o amamos também. Vivemos junto com ele os seus sentimentos e ações, e, após torcermos por ele no jogo, faremos o que pudermos para entregar-lhe a vitória. Bial chama os participantes do BBB de nossos guerreiros, e os amantes e amados de príncipes e princesas. E são mesmo, como nas novelas. Vivemos, juntos deles, esses sentimentos nossos.

Rolezinho

Escrito em 15 de janeiro, quando os "rolezinhos" foram notícia: O que direi abaixo não é uma reprodução do episódio recentemente ocorrido em alguns shoppings de São Paulo, de quebra de vidraças e furto de mercadorias. É uma situação hipotética. Imagine que você está em um shopping caro, onde um almoço, um computador ou um móvel custem muito mais do que custam nas lojas em que você compra. Ou melhor, o shopping vende coisas que você nunca pôde comprar, em lugar algum. Você anda por ele acompanhado dos seus amigos, e todos estão relaxados com o ar condicionado, os corredores em tons pastéis, arborizados, que desembocam em uma praça com um grande chafariz. As vitrines atraem os olhos, os fazem imaginar como seria fantástico ter isto ou aquilo. Você e seus amigos sentam-se numa lanchonete, e seu dinheiro dá para uma água. Você não se incomoda muito por só poder beber água, pois estar naquele lugar já é bom por si só. No seu grupo de amigos há garotos de 15 e 16 anos. Em determinado momento, eles esperam o restante do grupo tomar distância à frente. Lançam um para o outro o desafio de entrarem numa loja e roubar um doce. Ou então, entram em uma loja de computadores, para olhar, e suas brincadeiras e conversas altas incomodam os outros clientes e os atendentes a ponto de estes pedirem que os garotos diminuam o barulho. Os garotos respondem agressivamente, e chutam a vitrine, que se quebra. Os seguranças são chamados e agarram os garotos. Isso tudo assusta os clientes, que passam a querer ver aqueles estranhos o mais rápido possível fora dali. Não querem que eles sejam agredidos fisicamente, mas se esquecem de que um dia quiseram conviver com o "diferente" e pedem que se retire o direto de eles circularem por perto. Os garotos são levados para uma sala no shopping, onde são zoados pelos seguranças, que um dia foram garotos como eles, andando por shoppings caros. Um dos seguranças, aos risos dos outros, vai da zoação para a agressão verbal e também física, dando tapas nos garotos. Estes então são soltos, e reencontram o restante do grupo do lado de fora do shopping. São repreendidos pelos demais, ouvem que precisam se controlar melhor, para não darem muita bandeira e acabarem sendo expulsos dos lugares, sendo agredidos e proibidos de voltarem. Coloco esta situação para você, que é parecido comigo, na capacidade e no desejo de consumo, e nos lugares por onde costuma dar seus rolezinhos. O shopping que descrevi é padrão Eike Batista de consumo, muito acima do nosso. Nesse lugar hipotético, nós somos os pobres, nós somos os que estão começando a consumir mais e a conviver, em shoppings e universidades, com a elite. Já sentimos muita revolta por vermos alguém passar ao nosso lado com coisas boas e caras a que nunca tivemos acesso. Fomos adolescentes fortalecidos por seus hormônios e chutamos muitas lojas, corremos atrás de muitos "cidadãos de bem" e fugindo de policiais. Ouvimos muito de nossas mães que teríamos que estudar para ter as coisas, e não ficar muito tempo na rua de molecagem, quando éramos pequenos, ou inventando coisa que podia dar mais complicação, quando éramos jovens. Agora estamos no shopping, vendo as novidades, comprando uma coisa ou outra, ainda aos poucos, e mostrando nos nossos modos e roupas as novas aquisições de produtos e estilos. Nossos entusiamo nos faz um pouco engraçados, pecarmos no exagero de um boné levantado+fone gigante+óculos, ou de minissaia+cintão+botinha+cabelão. Riem de nós, mas até nos copiam um pouco. Os lojistas também riem, mas adoram ver o aumento nas compras. Às vezes acontece de um grupo dos nossos jovens se exaltar demais, querer mostrar valentia para um mano ou uma mina, e roubar um objeto, ou quebrar uma vitrine. Isso faz voltar a reação (aí sim) violenta dos outros consumidores, dos seguranças e dos lojistas contra nós. Enquanto pobres, sempre fomos vistos como potencialmente perigosos. Agora que estamos melhorando de vida, e convivendo mais com a elite, estamos nos acostumando aos modos adequados a um shopping, e o shopping está se diversificando no estilo e no modo de tratar as pessoas. Tá até ficando mais esperto, descontraído. Diminui a desconfiança deles por parte de nós, e de nós por parte deles. Mas ainda estamos no começo da convivência, e problemas vão acontecer. E, no calor de uma situação, todas as forças sociais podem reagir com discriminação e violência contra nós, pobres e negros, para que voltemos "para o nosso lugar". Mas tudo bem, as coisas ainda estão numa boa. Acabou o texto, e você já pode parar de imaginar. Vamos de rolezinho?

Keep calm e fique nervoso

Vejo camisetas "keep calm ... (com vários finais)" andando por aí. Alguns mandam ir pescar, outros mandam se foder. Valesca Popozuda mandou deixar de recalque. Ela fala puxando o final das palavras, de um jeito que no Rio chamamos de "nem", referindo-nos a um estereótipo, mas também a fatos, surgidos no morro e que agora circulam no shopping, na universidade e na tv e internet. E circulam em mim, eu posso falar recalquieeee também. Mas ainda há os que buscam se diferenciar dos "nem". Os ritmos populares trazem o estilo de quem as inventou? Não, o ritmo ajuda a inventar o estilo de ser. O funk faz o garoto dançar enquanto sobe o morro, e dar seus gritos obscenos. E às mulheres puxarem o final das palavras. Muitos que não se acham nem um pouco "nem" compartilham a Popozuda, divertem-se. Mas longe de quererem ser confundidos com a nem. A própria Valesca pode levar na boa o seu Popozuda, deixá-la aparecer diante da plateia, mas de manhã, falar do jeito universitário em uma universidade, e do jeito educada, em uma reunião de produção musical. Ela pode transitar entre os estilos. Agora nós nos achamos educados, mas não temos a liberdade que uma educação boa e literária, que cruzasse por narrativas, permitiria. Ora achamos ridículo, ora gostamos, mas sempre queremos distância do nem. Seríamos nós os recalcados a que a Valesca se refere? Os que gostam da sua bunda e de como ela dança e se veste, e com um pouco de força até admitimos isso para os outros, mas que, por tratarmos isso tudo como exótico, queremos que não se confunda conosco? Podemos pensar uma posição "nem", para a Valesca, com ganhos para nós todos. Diante de alguém que se diz feminista, vou perguntar se algo identificado por machismo não pode ser interessante. E faço o mesmo com quem se diz machista, falando de feminices. Não sou feminista, nem machista. Também não sou de esquerda, nem de direita. Não sou nem uma coisa, nem outra. O que cada caso me diz, e o que cada elemento da cultura pode trazer de bom para mim e para os outros, é a coisa pela qual eu pergunto. Portanto, prefiro uma posição "nem" a uma posição tomada antes de pensar sobre o que acontece.

Provocação

Na época em que estavam quentes os protestos contra o Bolsonaro, mostraram no Congresso uma imagem dele com bigodinho de Hitler e braço levantado de saudação nazista. Ele disse não ser o Hitler. A brincadeira não o deixou chateado. Noutro dia vieram com uma foto dele de batom vermelho nos lábios. Aí ele não gostou, disse que tinha criação e que educava os filhos para não seguirem esse caminho. Que Bolsonaro é um Hitler, isso está na cabeça de todo mundo, até na dele mesmo. Ele deve ver Hitler como uma imagem que não contraria a que ele tem dele próprio. Na verdade, é como se fosse sua acentuação, o Bolsonaro levado ao máximo. Essa associação ele mesmo é capaz de fazer, embora não para rir, mas para se orgulhar. Que ele seja gay também passa pela cabeça das pessoas, mas é uma associação que inverte o sentido do Bolsonaro. Ele é gay, tem raiva disso e se esconde. Passam um batom que chama atenção para seus lábios. "Veja, os lábios que ordenam estão sensuais". Até: "os lábios que falam merda estão sensuais." Ele aceitaria que pensem que ele fala merda. Ser sensual, isso ele não quer, não quer que pensemos na sua boca em outra coisa que não para agredir. O batom na boca masculina é uma provocação. Primeiro te faz sentir um incômodo, faz reparar nos lábios envoltos de pelos. Depois, o batom faz virem pra fora ideias de que aquilo é ruim porque é para mulher, porque é coisa de gay, porque ele não está na idade, por isso, por aquilo, porque sim, que não explica nada e só está em busca de algo que faça parar de olhar a boca e imaginar como ficou a textura, o cheiro e o s
abor da pele.

Sem eu e sem sujeito

Filme "Violent Shit" (dir Andreas Schnaas, 1987). O cara encontra um homem na floresta. Corta sua cabeça. Encontra uma mulher. Corta seu braço. E a cabeça. Encontra mais um homem. Abre sua barriga e retira os órgãos gosmentos. É isso. Centopeia-Humana e Sexta-feira 13 também são isso, mas com uma historinha para dar motivo. Há centenas de filmes com gore, com ou sem motivo. O assassino não é um caçador: quem ele encontra pelo caminho terá o corpo mexido. Ele abre o armário e tira as roupas. Remexe as gavetas, em busca de alguém. Apenas coisas gosmentas que se lavam, se dissolvem. O personagem encontra Jesus na cruz. Eu e você não concebemos a dor de ser crucificado. Jesus a suporta, com corpo intacto e o rosto triste, não desesperado. Então tenho esperança, espero suportar o meu sofrimento. Ele não me despedaçará. E Jesus tem o fardo e a resistência que lhe cabem. Mostra que o meu fardo (olhamos para Jesus quando nossa consciência dói) é muitíssimo menor, bem como a resistência necessária. Aquiles matou Heitor, o melhor dos troianos. Heitor havia matado o companheiro de Aquiles, Pátroclo. Aquiles amarrou os pés de Heitor a um cavalo, e fez com que seu rosto fosse arrastado no chão. Heitor era bom marido, bom cidadão, bom soldado e bom devoto de seus deuses. Aquiles estava colérico, insuflado por Hera. Mas também bestial. Apolo e Afrodite protegeram a integridade do rosto e do corpo de Heitor, não apenas da insanisade de Aquiles, mas dos efeitos do tempo. O bom homem, no sentido de homem virtuoso, é protegido pelos deuses e, de certa forma, não se degrada. Ganha permanência, ainda que continue sendo mortal. No filme, cavuca-se o corpo do outro e não se chega a nada. O cavucador também não tem eu. Nem é um sujeito. Ele é apenas um mecanismo. Não há pergunta a si mesmo. Não há si mesmo, na jogada. Sloterdijk, lido por Ghiraldelli, diz que sujeito é alguma coisa que consulta a si mesma, encontra sua motivação (um motor) e se aciona. Dorian Gray ganhou um belíssimo retrato dele mesmo. Foi um canalha com uma moça. Seu próprio rosto continuava belo. O retrato, porém, ganhou, um ar de cinismo. Dorian não pôde mais ver o retrato. Trancou-o. Que as coisas que ele fizesse simplesmente passassem se lhe formarem uma consciência, esse inquiridor íntimo. Matou, roubou, era rico, divertia-se. O retrato enfeiava, além de envelhecer. Dorian não o olhava, e continuava um mistério de belo e jovem. Eis que, então, acabou vendo o retrato. Viu-se diferente do rosto imaculado que pensava ter. Sua eterna juventude fora atingida pela degradação natural, que é dele e de tudo. Não havia um eu, pois ele não tinha consciência de si. Ou o seu eu era completamente raso, sem apoiar-se em qualquer registro, memória. O reflexo cheio de memórias, do retrato, cortou-lhe a face etérea. O vasculhador mexe na própria barriga. O que há ali? Ah, as mesmas tripas e órgãos, essas coisas que se estragam. Como um robô, ele continua. Tira um bebê de dentro. Pensamos que finalmente houve um nascimento, um sujeito pode vir a ser possível pois ele olhará o bebê e então a si mesmo como tendo que cuidar do bebê. E também haverá um eu, uma consciência de si. Qual! Ele morre, e o bebê tem a mesma marca que ele trazia no rosto. Um rosto impossível de ver a si mesmo. O vasculhador continuará agindo. Sem saber porque age. E sem ter um eu.

Ser brasileiro também pode ser ser anti-Copa

Comemorar um grande evento é reunir os queridos e olhar gente nova, em meio a uma liberação do que se fala, bebe e de como se age. Irresistível torcer pela Copa, então? Ainda mais que há um ser brasileiro calcado no futebol de 70 e 94? Veja, há as concentrações anti-Copa. Elas estão sendo reprimidas. Mas podem crescer, e serem mais do que a polícia pode conter. Hoje, domingo, terá uma na Pça Saens Peña, Rio de Janeiro. Gente conhecida e desconhecida gritando "não vai ter Copa". Protesto, mas, na verdade, uma festa diferente. Não haverá um compromisso com aquele ser brasileiro. Haverá falas sobre os nossos problemas. Um monte de crítica. É bom exercitar isso, ouvir críticas diferentes para melhorar a própria crítica. Até que consigamos propor algo que seja bom, como um candidato, uma proposta, informações a serem espalhadas na internet, etc. Tem que ocorrer mais festas anti-Copa. Porque tomar um grande evento como uma dádiva? Porque não pode haver outros eventos, até grandes, fazendo concorrência? O monopólio que a FIFA quer é sobretudo o da festa. Então, buscar liberdade é fazer outras festas. Comemorar e fortalecer outras coisas. Querer que boas festas sejam mais e mais atraentes. Que tal empurrarmos pra frente o time de quem fala na rua, levanta cartaz e insiste para que a vida de todo mundo melhore? Empurrarmos com esperança, ou seja, com ânimo, espírito, energia. A seleção brasileira da FIFA não tem essa bola toda. A seleção anti-Copa é melhor, e é muito mais generosa ao aceitar quem pode fazer parte dela, e nos seus desejos. Nem é seleção. É reunião. É onde a coisa tá quente de verdade. Vá para uma festa anti-Copa e divirta-se. Com selfies.

Mal-agradecidos

A classe média acha que a classe média que protesta é mal-agradecida, pela sorte que teve. Só o protesto do pobre é moralmente válido. No protesto deste domingo, dia 15, ocorrido na Praça Saens Peña, pessoas que assistiam jogo num bar bateram boca com quem falava contra a Copa. A fala deles é de que a Copa já está aí, e que se deve apenas curtí-la. Um deles deles ironizou os manifestantes, afirmando que são os mesmos "bonzinhos dos direitos humanos". Em relação aos direitos humanos, há uma indiferença de parte da classe média. Quem protesta é o jovem universitário e o mais velho com menos dinheiro. O primeiro, quer ter o gosto de fazer algo (onde estiver a vanguarda, lá estará ele). O segundo tem demandas antigas e justificadas, aos olhos dos setores mais abastados. O que incomoda os "remediados", os que "puseram o boi na sombra", é que o jovem tem o peito que ele já não tem, e gostaria de ter, enquanto passa seus domingos crescendo a pança, no bar. E o que eles não sabem é que o protesto do jovem ocorre junto com o do pobre (a Frente Independente Popular, com pessoas de vários municípios do Rio, falando sobre as faltas do governo, estava hoje, na Tijuca), e ganha força moral, para o próprio jovem. Os do bar agradecem a Deus o que conquistaram (quem nem é lá essas coisas, e eles sabem), e ficam curtindo "no sapatinho", porque não querem a revolta do pobre pra cima deles.

Contabilidade

Demorei entre quatro e cinco meses para ler Ilíada. Não peguei outro livro durante esse tempo. Eu pegava o metrô às 6:20 e lia entre 14 e 18 páginas, até às 7:00, quando desembarcava. De segunda a sexta. No restante do dia, eu ia pensando no que acontecia na história. Um porção de detalhes eu esquecia. Muitas vezes não consegui raciocinar, criar uma razão, para um acontecimento, e ficava sentindo o impacto, perguntando-me o por quê de aquilo ter acontecido. Hoje, quando escrevo, surgem cenas, que se dão a serem contadas por mim. Elas vêm para me fazer pensar em novos aspectos sobre o que escrevo. Eu digo que Ilíada é um texto infinito. Falarei, aqui, sobre o tomar um livro como igual a outro livro, e igual a todos, feito por alguém que quer ler o máximo possível de livros e contar sobre eles. Não, contar sobre a quantidade deles. Um livro termina, alguém se diz leitor, mas isso dura pouco e outro livro precisa ser terminado logo, para que se possa ser novamente leitor. Há, no Youtube, canais de vídeos (um deles: http://m.youtube.com/?hl=pt&gl=BR#/user/patriciapirota) em que as pessoas relacionam as leituras que fizeram ao longo daquele mês. Há um vídeo por mês, contabilizando os livros lidos (também há outros, mas os de contabilidade são mensais). Há uma contabilização dos vídeos feitos, da audiência e dos comentários. Cada vídeo é alguém dizendo o que leu, sendo sujeito calcando-se em seus feitos, mas em torno de objetos que valem a mesma coisa, simplesmente passam. O heroísmo de ler Ilíada duraria só uma exibição. Para a próxima, outro feito deverá ser exibido. Falam sobre o que trata cada livro. Sua história, o personagem que gostariam de ser, os personagem sem graça, que não dão vontade de ser como eles. Falam as idéias que tiveram com o livro, e que a coisas da vida são mesmo daquele jeito. Esse objeto, livro, que inclui capa e arte interna, será olhado de um jeito. Há um olhar para cada livro, e esse olhar, as sensações que teve, são o principal ponto do contador. É um olhar que será deixado de lado tão logo termine o vídeo. Mais uma sensação foi contabilizada. É um olhar que não pode ter consciência, um relembrar para pensar de novo, sobre si mesmo. Não tem conceitos, uma teoria que se adquire para ler o mundo. Ou tem, mas o conceito é trocado junto com o olhar. Óculos não se transformam a si mesmos, e são jogados fora quando se adquire novos olhos. Para entenderem algo, uma definição breve é o suficiente. Têm capacidade de alojarem e desalojarem o pensamento rapidamente, pois o pensamento não deixa de ser o do olho. Pegam os livros do momento, os que pulam nas livrarias, debaixo do braço dos estudantes, viram filme, são comentados na internet, etc. Se lêem um livro antigo, é para buscarem definições para entender o livro novo. Há os que perduram mais, num olhar, dizendo-se fãs de uma determinada série de livros (de um livro, jamais. Para que se demorem num título, que haja uma quantidade, ali). Não se trata de uma identidade como a do jovem gay, que escuta cantoras e vai adotando expressões corporais. Aquelas expressões viram um repertório do ser gay dele mesmo. E não se trata de ser de direita ou de esquerda, de uma área do conhecimento: as aspirações, os líderes políticos e os teóricos são todos iguais, na contabilização. O gay, o hetero, o comunista, o fascista, o filósofo são sabidos e deixados de lado, trocados por números, igualados. Uma doutrina é uma permanência indesejada do olhar. O ser alguma coisa, exercitar o próprio corpo para ter uma característica, fazer deterninado tipo de coisa, é demorado e indesejado. Lêem qualquer livro, mexem em câmeras e programas de computador, auxiliados por definições e guias rápidos. São capazes de fazer tudo, sem se dizerem fotografos ou filmmakers. Há muitos jovens tirando fotos e fimando, hoje. O fotógrafo é valorizado. Sobre a cidade moderna já se falou que foi feita para os olhos. Ela é rápida, em seus fluxos e acontecimentos, e o olhar precisa captá-la num flash. O momento é o momento meu de fotografar. Ele passa e eu passo rápido. Não há tempo para pensar em como se opera uma câmera. E não se é um cameraman, apenas se esteve pronto para agir naquele momento. Um tipo de saber ligeiro, e algum equipamento, são o suficientes. Nas manifestações, tem gente de skate no pé, câmera na mão e máscara anti-gás no rosto. Em um daqueles vídeos (http://m.youtube.com/?hl=pt&gl=BR#/watch?v=57346n7iw8I) a apresentadora fala que tal livro é de leitura envolvente. Ela se corrigiu, dizendo que envolvente quem diz é a Veja. A leitura é cativante. Não, também não. A Readers Digest falam assim. A leitura é gostosa. A apresentadora pareceu incomodada com a palavra, mas faltou-lhe outra. Se algo me causa uma sensação gostosa, chamo-o de gostoso ou gostosa. Hoje ninguém pode ser gostosa. Mulheres e homens manifestam-se contra a "objetificação do corpo". Dizem que o seu corpo lhes pertence. Então que ninguém diga o que meu corpo é, se o vêem ou o sentem, pois preciso ser livre para contabilizar quantos cartazes levantei, em quantos protestos fui, quantas vezes fui manifestante. Quero ser objeto de mim mesmo, e esse mim mesmo é algo momentâneo.

Uma indagação a um movimento social

O "não" instaura uma distância entre aquilo que o profere e todo o restante. Corta uma certa confusão entre corpos. É a ocasião para uma autoconsulta: "isso não corresponde ao que eu quero. Então o que eu quero? Como posso buscá-lo?". Dizer "não" é necessário para que se diga "sim", se acione a si mesmo em direção a algo. Domingo, dia 15 de junho, estive em uma manifestação anti-Copa, ocorrida na Praça Saens Peña, Rio. Reparei em uns cartazes assinados por uma Frente Independente Popular. Perguntei a quem segurava o porquê de ser independente, e não livre. Independente quer dizer não dependente. Mas dizer-se livre seria uma afirmação, a colocação de um si mesmo em cena. Responderam-me que a FIP é uma congregação de pessoas de várias cidades do Rio, insatisfeitas com a administração pública da saúde, da educação, etc. E que era independente por não ter qualquer ligação com partido político. Mas por que não livre?, insisti. Recebi a mesma resposta. Sloterdijk conta o episódio em que Diógenes, durante o dia, levava uma lanterna acesa durante uma caminhada em Atenas. Perguntaram-no o porquê daquilo. "Procuro homens." Como, não servia aquele que lhe perguntava? Não servia. Sua ideia de homem não era realizada pelos seus concidadãos: "o filósofo da lanterna caracteriza seus concidadãos como aleijados sociais, seres mal-formados, viciados. De modo algum correspondem à imagem do indivíduo autárquico, senhor de si e livre, com a qual o filósofo procura interpretar sua própria forma de vida" (Sloterdijk, Crítica da razão cínica. p. 226). O homem verdadeiro é senhor dos seus desejos, e não submetido a eles. Vive com pouco, pois isso lhe é possível. Viver com mais seria arriscar-se à escravidão das próprias necessidades. O homem deve viver para fruir o que há para fruir (o banho de sol e o assistir o movimento da cidade), e só possuir o suficiente para suas necessidades naturais. O homem urbanizado busca acumular coisas, vive de modo irracional e desumano. Diógenes viveu num período de alargamento do que era a cidade grega: não mais uma comunidade urbana, mas um lugar de comunicação com a cultura das cidades do mediterrâneo. Perguntado sobre qual era a sua pátria, Diógenes dizia-se cidadão do mundo. "Assim, o kynikos sacrifica sua identidade social e renuncia ao conforto psíquico da cega aderência a um grupo político para salvar sua identidade existencial e cósmica. Ele defende de modo individualista o universal contra um particular coletivo." (op cit. p228). Enquanto a sociedade não for uma pólis do mundo, o filósofo será alguém que perturba a ordem e se recusa à identificação com quem encontra. Dizer-se não dependente de partidos não basta. Deixa margem a que se pense em dependência em relação a outras coisas. Às próprias necessidades, talvez, seguindo Diógenes. É uma recusa, mas não uma recusa total, busca pelo ser senhor de si mesmo. Os cartazes da FIP diziam que recusava-se a Copa, e que o governo devia algumas providências à população. Como essas providências seriam tomadas, hoje, senão por vereadores, secretários e prefeitos vinculados a partidos, e passando pelo que estes decidissem fazer ou não? Os serviços da cidade têm oferecido menos do que o necessário. Um ser dono das próprias necessidades significa buscar o seu atendimento. Se o atendimento é por meio de um governo, que se fale com ele sem mediadores. A FIP, enquanto entidade civil, pode conseguir reuniões com secretários e prefeitos. Nestas circuntâncias, estaria bem próxima de poder assumir-se livre, largando a insegurança patente na palavra "independente". Agora, se está à espera que um representante público fale por ela, o "ser independente de partidos" pode até significar não escolhê-los a priori, mas é um esperar que eles venham. Pode-se até não se dizer afiliado a ele, mas há uma certa dependência. É um não dar conta de si mesmo.

sexta-feira, 13 de junho de 2014

O que eu quero para mim e para você

Faça um bom curso, secundário e universitário, adquirindo uma disciplina de estudos. Converse, conheça as opiniões dos outros, testando os limites delas e da sua própria. Saiba o que são coisas como democracia, minorias e justiça. Elas serão importantíssimas para o que você vier a fazer, não importa sua profissão. Você existe num mundo, e tanto ele quanto você precisam melhorar em tecnologia, em prazer e amor, em justiça e liberdade. Sinta, intima e declaradamente, amor pela liberdade, sua e de todos, de falar, de ter e de ser (o ser, sem o falar e o ter, sem o aparecer, não é nada) e pela igualdade livre, não nivelada. Escola e saúde públicas precisam funcionar, e, assim, assegurar que toda gente venha a se desenvolver de forma livre, rica e ousada. Para que cada um ame seus professores, tenha laços com as próprias raízes, com a própria formação de caráter. Ame a escola por onde passou, junto do amor de si mesmo. Exija cada vez mais boas políticas do governo, chame apoiadores e apoie lutas já iniciadas, no que elas têm de razoável. As militâncias devem ser tenazes, indignadas E RAZOÁVEIS (mas erupção de nervos, músculos e vidros, às vezes, é necessário. Armas e bombas, não, exceto nas mãos de uma polícia bem treinada e prestigiada, pois uma ação errada fica sem possibilidade de volta). Tenha dignidade, amor e orgulho de si próprio, desejando ardentemente, e querendo favorecer, que cada um tenha essa relação consigo mesmo. Desconfie da humildade e de quem a prega. Seu sucesso e o de cada um são importantes (everybody is a star!). Fale e escreva de forma clara e precisa, sem confusões ou disfarces, sobre o mundo que você quer, o mundo que você não quer, sobre seus valores e o porque de eles serem bons. Diga que Sheherazade, justiceiros mascarados, Bolsonaro estão errados e não podem nos representar, falar por nós e nos educar ou agir por nós. Fale em favor da retirada da posição de fala pública de quem, com sua fala de ódio, incita a violência, a humilhação e o encurtamento da liberdade dos outros. Acompanhe e admire bons políticos, professores, filósofos, psicólogos, advogados, cientistas sociais, de humanas e de exatas, padres, deuses, pessoas mais velhas e que aconselham amorosamente, mas com a severidade que permite a autoconfiança de quem aprende; jovens livres de ideologia, que sejam ousada e perigosamente tesudos, crianças encantadoras e de olhar limpo, direto e imaginativo para as coisas, e os outros seres vivos, que nos humanizam, ensinando a amar e exigindo nossa generosidade. Contemple a beleza e busque-a, junto de saúde, educação e ampla cultura, boa disposição e orgasmo múltiplo e/ou intenso. Ame a vida. Odeie e queira o desaparecimento de preconceitos, ressentimento, preguiça, falta de tesão, tristeza, burrice, doença, dor, violência e feiúra. Afaste, não atraia a morte. Estimule a melhora dos outros, entenda suas dificuldades e ajude-os a contorná-las. Não fique muito próximo de quem poderia ser melhor, mas não quer sair do lugar. Derrotismo é contagioso. Preserve a intimidade, sem descuidar de direitos, mas sem forçar a barra ou caçar bruxas, respeitando ao máximo a capacidade de as pessoas fazerem acordos pela felicidade particular delas. Tenha interesse pelos assuntos públicos, apoiando medidas resolutivas de problemas coletivos e individuais (a demanda de um indivíduo importa!), mas sempre sensíveis para as ínfimas e infinitas experiências particulares. Intervenha na internet, cada vez mais A Mídia, porque mais livre. Faça coisas boas e alegres com seus textos, fotos, desenhos, vídeos, e se interesse pelo que os outros mostram de legal. Converse na rua, ouça e fale, com calma e leveza, mas com responsabilidade educativa. Compre umas paçocas Santa Helena, na Casa do Biscoito, e as coma, que são boas demais. Enquanto está de boca cheia, observe e escute opiniões, e comente, com tranquilidade, mas sem deixar passar batidas falas ou situações injustas e degradantes. Distinga o que é crítica justa ao governo, à mídia, a qualquer outra pessoa ou fato, do que é injusto. Melhore suas opiniões. Melhore a você mesmo. Melhore o mundo. Essas coisas andam juntas. Ou páram juntas. Aja em si mesmo e nos outros, querendo que nossa (de um Nós bem grande, aberto) vida seja a melhor possível. Ela um dia acaba.

Manifestantes

Manifestantes, policiais, repórteres, cinegrafistas, passantes e consumidores de notícias: são todos manifestantes em uma manifestação. Querem que a manifestação aconteça, para poderem desempenhar seu papel. O manifestante quer se manifestar, com seus gritos e irupções às vezes espontâneas, às vezes calculadas; o policial quer policiar, manifestando-se, desta forma; o repórter quer reportar, também manifestando-se; o cinegrafista quer filmar... Peraí, houve uma interrupção: a explosão de uma bomba matou Santiago, retirando-o da manifestação. A manifestação parou, não pode seguir sem um cinegrafista. Protesto é agressivo, são todos, cada um no seu papel, segurando o coração dentro do peito, e querendo que ocorra bem o espetáculo do grito, da quebra, da contenção, até da chegada dura demais da polícia (que dá em redirecionamento do grito, e nova energia para protestar, continuando o acontecimento), e a observação e transformação disso tudo em notícia. Uma certa solidariedade une estes atores. Na falta de um, os demais não têm o que fazer ali. Frágil equilíbrio que uma bala de verdade, um explosivo, um carro desgovernado podem quebrar. Santiago morreu, deixando todos fora de ação. A manifestação deve voltar logo. Mas terá que cuidar da presença forte e dinâmica de cada um na Manifestação, que é a vida.

Ruth Sheherazade

Ruth e Raquel eram da novela Mulheres de Areia, dos anos 90. A coisa era mostrada como se fosse simples: Ruth, a gêmea boa, cuidava de todos, especialmente do pai e do Tonho da Lua. Era doce e ingênua. Raquel prejudicava os outros por orgulho e dinheiro. Roubava os pretendentes da Ruth, mentia para o Tonho, etc. Elas tinham o mesmo rosto: o da Glória Pires. Mas suas personalidades eram opostas. Tão opostas que, pensando eu, agora, podem estar numa mesma pessoa. Alguém pode ser doce com todos, e estar enganando-os. Ou não, pode agir por orgulho, mesmo sendo doce, e não ter medo de ter as coisas. Várias misturas são possíveis. Raquel Sheherazade não parece misturada. As falas dela são de um mesmo conservadorismo, moralismo e autoritarismo que você vê na boca do Bolsonaro, do Feliciano, e de um monte de gente. A personalidade dela se mostra como pronta, acabada, e até compartilhada com essas outros indivíduos. A diferença com a novela é essa: não é mais o mesmo rosto, com personalidades diferentes, mas a mesma personalidade em rostos diferentes. Perceberam que ela é tão absurdamente má, como um personagem mal escrito, e que calhou de ter o mesmo nome da Raquel, da novela, que tascaram a Ruth Sheherazade, que é boa, boa demais, chegando a ser insuportável, embora seja um antídoto necessário para exorcizar a Raquel. Em sua página, pelos comentários dá pra ver que misturam-se pessoas que gostam e que desgostam da Raquel. Os que desgostam dela, não apenas riem, mas pensam nas opiniões da Ruth, que aparecem como humor, mas que são opiniões: pela defesa do reconhecimento de outras formas de família; que as opiniões do Olavo, da Raquel incitam o ódio e não são boas, etc. Para os que gostam da Raquel, aquilo da Ruth é humor e pronto. Não interfere no discurso da Raquel, que continua o sério e o certo, quando se quer falar sério. Muitos ali na página não viram a novela. Os que riem e aproveitam o riso que a Ruth provoca, para mover o próprio pensamento, falam o sério divertindo-se, ou riem do sério, deixam leve um discurso que quer vencer por se apresentar como sério demais. Gente como Raquel quer ser a seriedade encarnada, angariando o apoio de gente que precisa de um pensamento sem complicação de interpretações, teorias, metáforas. Um pensamento que seja simplista, identifique rapidamente amigos e inimigos, leve à rápida denuncia destes, e responda, sem pensar, ao que acontece. Quem aproveita a Ruth pra rir da Raquel, desmoraliza essa moralização. Sabem que as coisas requerem análises caso a caso, e que é bom fazer a ação esperar. Estes, podem não ter visto a novela, não saber o porquê das fotos do Marcos Frota com cara de louco, apontando a Raquel e chamando-a de má, mas estão mais próximos do traquejo necessário para se ler bem personagens, sem fazerem-nos se empobrecerem mais do que já aparecem pobres. E quem apóia a Raquel, não adianta ver novela nenhuma, ler livro nenhum, que tudo é a mesma coisa de sempre, não pensada e respondida com ação má, se achando a ação boa e certa.

Política não é para qualquer um pôr a mão

Não há quem não reconheça que o Brasil seja um país de profunda desigualdade sócio-econômica. Agora, se tem justiça social, ou não, a opinião da direita difere da esquerda: grosso modo,segundo a primeira, a existência de pobres deve-se a fatores individuais, como a tal "indolência do brasileiro", ou à falta de educação que não é falta de política educacional, mas predominância de professores, alunos e pais preguiçosos. A polícia é chamada como "agente motivacional e moralizador", obrigando-os a trabalhar, a estudar e a ficar o resto do tempo em casa. Nesta visão, o indivíduo de baixa renda, e discriminado pela sociedade, não é vítima de injustiça. A esquerda afirma que a desigualdade de renda, de acesso a postos de trabalho e de posições valorizadas são, sim, fruto de uma grande injustiça social: a educação privada é para poucos, e dela sairá a elite que mandará em tudo, inclusive no pobre, que só pôde estar em uma escola pública destruída, que não lhe abriu oportunidades na vida. Ricos e pobres, do presente, são posições ocupadas pelos filhos dos ricos e pobres do passado. Isso se repete, geração após geração, e a saída disso estaria na forte presença social do Estado. Mas, repito: que o país é muito desigual, até a direita concorda. E o que a própria sociedade dividida diz sobre a desigualdade e a injustiça? Pegarei um exemplo da música popular e da mpb, dos anos 70, um do rock dos 90, e o vídeo do Porta dos Fundos, parodiando a abordagem policial a jovens de classe média, de hoje. Bezerra da Silva era da favela. Seus pagodes eram crônicas da vida apertada economicanente, que justificavam virações, que incluíam pequenos crimes. Mas tudo bem disfarçado, e expresso apenas insinuada e jocosamente pelo Bezerra. O policial, também oscilante entre o legal e o ilegal, era uma ameaça aos expedientes e, sobretudo, à diversão na favela. O tratamento com ele devia ser de um respeito malandro: de parte a parte, a fala cuidava do fazer de conta que se fazia o certo, e não se fazia o errado. A desigualdade era falada, mas o jogo era aquele mesmo e era preciso ser jacaré, nadando de costas em rio de piranha. Era a época mais repressiva da ditadura. Para a classe média, Chico mandava, por mensagens cifradas (só entendidas pelos próprios artistas e certos grupos estudantis, na época. Depois, na volta do governo civil, é que o mistério apareceu contadinho em todo livro de história, para o segundo grau), que não havia qualquer liberdade de expressão. Oficialmente, éramos uma democracia, mas, de fato, a sociedade não podia opinar na política, e não tinha acesso aos dados sobre aumento do desemprego, do número de pobres e miseráveis, e de favelas. A desigualdade era desconhecida, e o não poder falar nela, e sobre o próprio não poder falar, era uma silenciosa, e gritante, usurpação de direitos. Nos redemocratizamos. O rock dos 80 foi cores, danças, para extravazar. Enquanto se discutia a economia, e se decidia quanto ao que fazer na política, girls just wanted to have fun. Mas, nas universidades, começa a se alastrar um pensamento de esquerda. O legado, do regime militar, de desmonte da escola pública, do direito do trabalho, as incontroláveis inflação e dívida externa, e as desigualdades precisavam de pesquisa e denúncia. Os anos 90 chegaram, e esses problemas continuavam. A violência policial contra moradores de favela, que chegavam aos milhares, assusta a todos. Surge o Planet Hemp. Marcelo D2 era de família classe média baixa. Quando jovem, foi à escola. Nas horas livres, jogava bola com outros moleques. Essa vivência de rua, de falar as coisas abertamente, foi aproveitada no rock. A música Porcos Fardados contava da violência policial contra pobres e jovens de classe média que se divertem na rua e, eventualmente, fumam maconha. As injustiças sociais apareciam, nas músicas, junto da ação violenta da polícia contra pobres e quem com ela se misturava. A Porcos Fardados foi proibida de aparecer nos shows do Planet Hemp. Quando se ousou falar diretamente, sem disfarces, contra a violência estatal, a censura foi empregada. Enquanto isso, já acontecia o funk, nos morros cariocas. As músicas que foram tocadas fora dali, ganhando o asfalto, falavam das desigualdades, mas de forma não tão explícita, e não apontando os erros da polícia, que imediatamente faria represálias. Pisavam em ovos e deveriam ser suaves e brincalhonas, como Bezerra. A classe média pôde ter uma abordagem mais direta dessas questões, por se sentir relativamente protegida para expressar o que pensava. A prisão dos integrantes do Planet Hemp, sob a alegação de que faziam apologia à droga, mostra que não há essa proteção. O discurso da classe média, se saísse da boca de um favelado, mataria este. Dito por aquela, é tolerado até o ponto em que parece contaminar os jovens e famílias que mais educam, são educados e opinam, na sociedade. O Porta dos Fundos fez um vídeo em que policiais são revistados da mesma maneira como, de fato, revistam indivíduos como os que fizeram papel de revistadores: com deboche e abuso. O cara da classe média não está mais tão livre da violência do Estado. Ele circula, se relaciona com outros estratos, comete suas ilegalidades, tem oferecido suborno à polícia e tomado um ou outro tapa na cara, da mão que não pegou o dinheiro. A polícia está impaciente, e seguindo um clamor geral de que a classe média não pode se manifestar como tem feito, nem cometer pequenos delitos, e que a polícia pode substituir suas famílias, na educação, e a justiça institucional, na punição dos seus filhos. Que meu filho leve uma boa dura, pra parar de ir pra rua reclamar de injustiça. Sempre houve, nesse estrato social, a ideia de que direitos são do interesse exclusivo dos pobres. Então ela vê como um rebaixamento dela mesma que seu filho esteja reclamando por eles, no meio de tanta gente e câmeras. O Estado tem ouvido pouco as manifestações. Põe a polícia pra conter e exercer baixa violência geral, e moderada violência pontual. A intenção não é nem que as manifestações parem: é que elas ocorram para as forças do Estado continuarem com as punições sumárias em fogo brando. Que as pessoas apanhem por se meterem na política. Política é para poucos, escolhidos (literalmente!) não pela população. Se um grupo de humor mostra a truculência da polícia, numa denúncia, e coloca essa truculência na mão do manifestante, como revide, fica ridículo pro Estado e a polícia. A ameaça sofrida por Fábio Porchat é realmente pelo ridículo que os policiais passaram: aqueles que quiseram que eles humilhassem um pouco os jovens na rua, sem dar muito na vista, estavam rindo muito da inversão dos papéis e de suas calças arriadas. Os policiais foram traídos! A política também é para os espertos.

Plantador de desertos

Rubem estava aqui me contando, na "Casa dos Braga", do Amarelo. É o rio vizinho da sua casa de infância. Cachoeiro de Itapemirim, Espírito Santo. Rubem e a garotada conheciam "cada pedra, cada tufo de capim, cada tronco atravessado, cada pé de inhame ou de taioba" do trecho em que mais brincavam. Os peixes grandes não subiam até lá. Um dia o irmão cutucou, com um pau, embaixo de uma pedra, para desentocar o bicho grande que se escondia. Rubem estava pronto com a peneira. Quando ele foi ver o que tinha dentro, uma grande cobra preta veio na sua cara. Rubem atirou a peneira longe, com o muçum e tudo, e caiu apavorado dentro d'água. Subindo um pouco o rio havia um açude fundo, margeado por árvores grandes, de um lado, e pelo sopé do morro, do outro. Os garotos escorregavam do alto do morro, usando toscas jangadas, e tchibum! na água. Rubem está contando do passado, dele e do Amarelo: ele agora é velho, o açude acabou e o córrego está magrinho, sumido. O querido Amarelo, terno amigo de infância, está morrendo. Rubem lembra de ter lido, na escola, dos rios que sumiam, no Nordeste. Era curioso, notícia distante, matéria escolar. Destes livros, lembro-me dos índios que viviam em paz, mas foram dizimados. Não pela natureza, mas pelo homem. A gente fala "homem branco", mas poderia falar apenas "homem", já que o índio nunca é "homem de pele vermelha". Só os Yahoos e os Apaches o são. Os índios daqui deviam ter querido ser o que eram, seres de caçar, mergulhar no rio, sonhar com Iara e admirar Tupã. Quem diria que encontraríamos índios "legítimos" (até onde podem ser) bem no meio do Rio de Janeiro? Esse rio que corre avassalador, e leva o que está na margem? Índios vivos! De cocar, dança circular, caciques, peitos de fora, tudo aqui? A Aldeia Maracanã já há um tempo estava perto. Esses índios eram muito parecidos com os dos livros, e também desapareceriam. Quando vimos que existiam, estávamos prestes a fazê-los desaparecer. Foi por isso que reparamos neles. Então a guerra ocorreu entre um punhado de homens brancos, defensores dos índios e do seu território, e outro punhado, que atirava. Os defensores cantaram, dançaram com seus velhos conhecidos da escola. A escola, se ensinou algo, foi a sentir a perda das coisas que não chegamos a conhecer (incluindo a própria escola. Num futuro próximo leremos, na escola, sobre o desaparecimento dela mesma). O rio de Heráclito tinha harmonia, tudo deixava de existir, mudava, não só quem estava na margem. Tudo bem. Já o rio do homem, salva só o próprio homem. Não é justo. Há um desequilíbrio. Agarramo-nos nos índios, seres de uma bondade não-humana, como a amigos antigos. Eles, tradicionais. Nós, sem tradições e professores. Tradição de destruição, isso nós temos. Só mesmo os personagens dessas narrativas vindo aqui para nos fazer parar. Dois anos depois, a força do rio diminuiu. A Aldeia Maracanã permanece, e nós aqui, sem precisar ir defendê-la. Os índios ainda estão em nossos livros, pois são amigos a quem sempre podemos perder. Se há algo que dura, no rio da vida, é a perda. Perda de tudo, no rio de Heráclito. O homem nem sente, nesse caso, pois ele também não estará mais aqui. Se for o rio que preserva o homem, e leva o restante, o homem ficará sozinho.

Eu digo não

O que é um eu? É uma instância de reflexão, ou lembrança e pensamento, sobre ideias, necessidades, afetos, objetos e ocorrências tomados como acúmulos do próprio eu. Refletir sobre algo é fazê-lo consciente, passível de ser pensado. A criança ainda não é um eu quando aqueles elementos que listei não são tomados como sendo dela, mas referentes a uma situação de confusão corporal da criança e das coisas do ambiente, como se fossem um só. A consciência formadora do eu requer um certo distanciamento: "eu sinto algo, mas minha mãe não me corresponde. Sentirá ela algo diferente?" Vai se fazendo, aí, um corpo como suporte do eu, ou melhor, das experiências autoreflexivas e oriundas das suas outras atividades. A percepção de que se é diferente do que está em volta, e de que é preciso agir para que eles atendam ao eu próprio, leva a que se diga o "não": "eu não sou assim. eu não quero isso." Age-se, e a ação é positiva, um "sim". Busca-se o que se reconhece que se quer. Então se terá o exito e o fracasso, o que eu consigo e o que eu não consigo. Volta o não, fazendo-me novamente distante, pela consciência, do ambiente. "Como posso vir a conseguí-lo? Com o que posso fazer parceria?" Junho do ano passado foi o eu falando na rua. Disseram que ele estava desorganizado no que queria. Foi a criação de uma distância, vendo a própria vida, na cidade, sem deixar de fazer parte deles. A consciência não requer distância física, nem que o próprio corpo, que vai ganhando consciência de si, deixe de tocar e ser tocado a todo momento. Foi um puro não, um estranhamento, uma crítica. O atual "não vai ter Copa" é isso. Há a instatisfação de sempre, mas deixamos de ser bebês chorosos agarrados à mãe. Sabemo-nos instatisfeitos. A consciência é coisa que incomoda. Essa mãe paternalista não está me atendendo. Ela me oferece um circo, e eu mordo seu seio. Ela me oferece à consciência a imagem de que sempre fui tão alegre... Alguns eus a aceitam, querendo reviver a satisfação pretérita que acham que viveram. Mas há os que dizem "não". Não porque? Pelos motivos de sempre: as prioridades da mãe que não me atendem, e suas companhias que a tornam ainda mais insuficiente para mim. Um motivo novo: já temos a experiência do não. Foi ótimo reparar e falar sobre as coisas. Então dizer não agora será fantástico, pois são são muitas as ações sobre mim, tentando inibir-me de eu ser eu mesmo. Outra mãe de quem me desagarrei é a crítica anterior: os movimentos de esquerda tiveram seu sentido, cada um no seu momento. Não sou misturado a eles, não são minhas as suas experiências, por isso eu quero ver meu mundo, estranhando inclusive o não anterior (o "não" esclarecedor, a crítica que pergunta pela razão das coisas, acaba deixando de criticar, esclarecer a si própria, explica Sloterdijk. E ela gera filhotes que não passaram pelo movimento da crítica, embora achem que sim, ao aceitarem o discurso crítico da mãe como uma explicação do mundo, anterior a que precisem vê-lo). Luta de Classes, e suas crias (alienação e ideologia) não dão mais conta. E não aceito o sim também já dado, a festa de presente, pois eu não me vejo como um bom anfitrião, nesse momento. Estou no "não à Copa", meu corpo não vai pular. O eu está no não, não, não, para logo aparecer com o que ele quer.