quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

Coisa de macho e de gay


MMA e filmes pornô são lugares onde homens adoram homens. Observam seus corpos e performance. O rosto da atriz ou do adversário dizem o quanto um homem é forte, pegador, viril. Os adversários e as mulheres são comentados, mas na qualidade de bons ou maus coadjuvantes.

Na Ilìada, Pátroclo era o companheiro do grande Aquiles. O guerreiro estava enfurecido com seu próprio exército. Seu amado o elogiava e lhe dava razão, mesmo com os gregos caindo às centenas, pelos troianos. O comandante dos gregos havia pego uma mulher de Aquiles, um desplante!

Quando ficou imperiosa a necessidade de Aquiles voltar ao combate, devido ao cerco dos troianos, Pátroclo fez-se de Aquiles, vestindo a armadura dele. Assim o fez para enganar os adversários, e com o desconhecimento do amado. Nada lembrava a suavidade de garoto. Levantou-se como um homem, e assim morreu. Patroclo morto esperou pelo resgate e vingança do verdadeiro homem.

Poucos de nós são heróis. Somos Pátroclos: mantemos nossos ídolos, que vencem vilões e nos salvam. Permanecemos em casa, torcendo. Ou vamos ao bar torcer ao lado de outros homens, todos admiradores das habilidades e corpos potentes. Reconfortados com a vitória sobre os inimigos, injustiçados com a derrota.

Nos lugares masculinos, o masculino é uma posição para poucos. A maioria é gay.

terça-feira, 16 de dezembro de 2014

Rindo da autoridade

Um adulto fica de pé. Ele anda por aí, mexe em coisas e fala com pessoas. Ele fala com crianças que, quando não lhe respondem como ele gostaria, recebem a "ajuda" da mão dele.

A criança acabou de ficar de pé. Costuma cair. Quer fazer o que o adulto faz e, como este, faz as coisas a seu modo. Mas, por lhe faltar certas informações e habilidades, sua vontade expressa-se sem mediação, sem cálculo. Ela também age em relação a outras crianças. Quando está diante de uma criança mais nova, quer passar orientações, dar ordens. Porta-se como um adulto, nesta relação.

O adulto é alto e, agindo com seu corpo, também usa sua boca. Há uma inseparabilidade entre o que diz e faz, mesmo que, algumas vezes, o que ele diga vá para um lado, e o que faz, para outro. Como dizer também é agir, o adulto acaba agindo de duas formas diferentes, ao mesmo tempo.

A criança não tem tanto repertório de fala. Por isso suas mãos, pernas, rápidos redirecionamentos dos quadris, etc, acompanhados de gritos, choros e músicas são empregados para darem logo o recado. Este gestual também acompanha a fala do adulto.

Quando um adulto tem sentimentos contraditórios por alguém, com relação a ele o adulto agirá ora de um jeito, ora de outro (mesmo que não faça a segunda ação no mesmo espaço físico em que fez a primeira). Ele apresentará dois comportamentos.

A criança apresenta uma pequena diferença, neste ponto: ela pode dizer que não gosta de você mas, logo em seguida, te fazer um carinho ou buscar o seu colo. Nem sempre ela declara a afeição que sente por alguém. Brincar junto ou adormecer sob o seu carinho são formas com que a criança expressa o que sente.

No entanto, quando este alguém estiver falando com ela, a rejeição, da parte da criança, pode surgir. Isso porque uma fala pode soar como uma ordem, mais do que uma mão pegando sua mão e a conduzindo. A criança vai querer se livrar do falador, inclusive recusando-se a escutá-lo. Ela sente-se mais à vontade com uma parceria, de sono, por exemplo, do que com uma indagação sobre o que pretende fazer.

Além disso, a fala do adulto para ela é uma espécie de abuso: ele domina suas próprias palavras, e se apresenta ao jogo menos verbal da criança com uma vantagem injusta. Por isso esta esconde a afeição, usa o que diz e como age para confundir e vencer o adulto, o que significa fazer as coisas do jeito dela.

A criança mostra a língua e ironiza a fala do adulto, zombando do seu poder e tomando-o para si. Um adulto que passe muito tempo com elas, e que não seja a figura de principal afeição dela, como a mãe, o pai ou a professora, receberá chutes na canela e, se estiver sentado, tapas na cabeça e nas costas. Atreveu-se a deixar as alturas seguras da sua fala, e pôs-se ao nível em que a criança exerce total domínio.

O adulto reconhece as ações da criança, as legitima. A criança mostra o não para quem costuma limitá-la. A ordem do adulto tem um limite. Mas, então, o que a criança fará? Ela também não pode fazer o que quer... Ambos se sentem com a boa oportunidade de serem parceiros no afinamento de um agir junto, e no aprendizado do que podem ou não fazer.

Uma brincadeira tem início. Ou é hora do jantar. O adulto se levanta e diz à criança o que fazer. Desta vez, eles apenas deixam-se ir. A brincadeira está divertida, o prato parece bom.

quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

Ser filha. Ser mãe.


Em um dos seus episódios, Peppa e seu irmão, George, vestem-se, respectivamente, com as roupas da mãe e do pai. Peppa senta-se diante do pc da casa e começa a digitar. Saem letras embaralhadas. Ela, vestida de mãe dela mesma, e o irmão, vestido de pai dele mesmo, saem pela casa, arrumando o que fazer.

Surge a outra mãe dela, ou a mãe dela que nao é Peppa, e a chama e ao irmão pelos nomes. Peppa responde que não é Peppa, mas mãe de Peppa. A outra mãe diz que isso é uma pena, pois ela tem sorvetes para dar a Peppa e a George. Estes, então, rapidamente tiram a roupa dos pais.

Desde as primeiras explorações em seu ambiente, a criança, que também explorou e conheceu os pais, levará algo do jeito destes para o contato com as coisas. Tão logo perceba que a manipulação de objetos é feita com vistas a um fim, ela tentará, o máximo que puder, seguir aquelas etapas, os movimentos adequados e realizar o fim.

Os indivíduos da nossa espécie desenvolvem-se imitando aqueles que vieram antes e se apresentam como cuidadores. Se os pais mexem no fogão, e depois me põe sentado para comer, esse é um comportamento a ser repetido. É um comportamento a ser aprendido, mas este aprendizado quer ocorrer com o uso da prática.

"Mas mexer com fogo e faca é perigoso!". Menos dramaticamente: "ele não sabe mexer no pc.". Tentamos barrar o acesso deles ao que apresenta risco físico a eles mesmos, e mediamos o acesso deles aos outros aparelhos. Mas, quando estiver sozinha, a criança vai querer repetir o que já fez, ou o que nos viu fazendo. Afinal, também fazemos estas coisas quando estamos sozinhos.

Desde cedo, porém, a criança não está sozinha: ela tem um anjo da guarda, um deus protetor, cuja proteção não é contra danos físicos, mas contra a solidão. É um parceiro, um amigo imaginário. E este não diz não à criança, no sentido de "não faça isso, que é perigoso". Muito menos explica o porquê desse não. Isto fica para os pais. Se o amigo imaginário diz um não, é no sentido de "você não gostaria de fazer isso, não é o que você quer, isso não será divertido".

A criança não pensa sobre o que está pensando fazer. Ela pensa e faz. O adulto cuidador quer que ela dê um passo a mais, antes de mexer no fogão: ela deve parar e pensar se pode fazer aquilo. E esse limite inicialmente não é "um não posso porque não sei" ou "porque é perigoso", mas porque "a mãe não quer que eu faça". Da criança se espera a formação de algo interno para o qual ela deve submeter sua ideia, e ter refletida a aprovação ou desaprovação.

Todos sabemos da dificuldade de se formar esta sofisticação a que damos o nome de consciência. A consciência pode ser entendida como um outro eu, como um si mesmo, com quem devo conversar e me entender. Os pais, inicialmente, fazem o papel de auxiliares do eu da criança, no que tange as orientações e ordens. Orientações e ordens às quais ele ouvirá menos do que se enganjará no impulso de imitar os próprios pais.

A criança percebe que certas atividades requerem habilidades a mais do que ela mesma tem. Para cozinhar algo, é preciso estar vestido de mãe. Vestir-se de mãe será feito pela menina quando ela brinca que está saindo sozinha. Para fazê-lo sem as interpelações da mãe, a menina veste-se da própria mãe, vira a responsável da menina. Ou vira alguém que não precisa ouvir outros. Ninguém fica falando à mãe o que ela deve ou não fazer.

Tem horas em que é bom ser a mãe de si mesmo, ou ser um eu sem mãe. Mas logo chega a hora em que a criança para de explorar, e quer descansar. Quer deitar e deixar que as ideias apenas passem por ela. E no colo da mãe encontra o simples abrigo, uma cinestesia já bem conhecida, e que proporciona o acalanto.

Encher a boca de sorvete é outra coisa que proporciona uma atmosfera, um envoltório dentro do qual fica tudo bem (Sloterdijk fala da boca que é tomada pelo caramelo, e da sensação de abrigo que isso produz).

Dedico este texto aos meus dois amores, Lili e Lalá.

terça-feira, 2 de dezembro de 2014

Baudelaire quer pegar mulher


Em "A uma passante", Baudelaire vê, no alarido da rua, uma mulher passar. Alta, sutil e suntuosa. Ele se paralisa. Ela ganha distância, perde-se na multidão. Talvez ele nunca torne a vê-la. Ou talvez a eternidade lhe presenteie o reencontro com ela.

"A rua em torno era um frenético alarido.
Toda de luto, alta e sutil, dor majestosa,
Uma mulher passou, com sua mão suntuosa
Erguendo e sacudindo a barra do vestido.
Pernas de estátua, era-lhe a imagem nobre e fina.
Qual bizarro basbaque, afoito eu lhe bebia
No olhar, céu lívido onde aflora a ventania,
A doçura que envolve e o prazer que assassina.
Que luz... e a noite após! - Efêmera beldade
Cujos olhos me fazem nascer outra vez, Não mais hei de te ver senão na eternidade?
Longe daqui! tarde demais! nunca talvez!
Pois de ti já me fui, de mim tu já fugiste,
Tu que eu teria amado, ó tu que bem o viste!
("A uma passante". in. Baudelaire, Charles. As flores do mal. Trad. Ivan Junqueira)

A cidade é de encontros fortuitos. No momento em que viu a passante, Baudelaire a absorveu, gravou-a na memória. Um rápido acontecimento, mas uma experiência de longa duração. Os salões, festas e cerimônias eram os lugares para o burguês flertar. O pobre conhecia sua mulher na fábrica e no trabalho de rua. Do convívio social, ia-se para um lugar reservado. Dele, ia-se para a casa de um dos dois, e dela, para uma casa em comum. Formariam um lar burguês, a salvo dos movimentos da cidade, com objetos de propriedade do indivíduo refletindo a sua imagem. A propriedade dele ninguém tomaria. Os objetos são o espelho para o si mesmo. Se os primeiros permanecem, o eu também permanece. O mal é que ele viu aquela interessantíssima passante, completa desconhecida dos seus círculos sociais. A inacessibilidade é o segredo do charme dela.

Lá pelos meus quinze anos, um amigo estava de encontro marcado com uma menina a quem conheceu trocando cartas. Tínhamos revistas de rock, e nelas havia uma seção de anúncios de gente à procura de amizade e namoro. A caracterização do anunciante era os gostos e interesses que ele dizia ter, além do nome. A menina do meu amigo era Michele "Cobain", um nome estilizado. Nenhuma foto havia dela, no anúncio. Mas meu amigo disse que eles haviam trocado fotos.
Uma revista de rock não é a rua: é um ambiente particular, o "do rock", e não o mar de "qualquer um", da cidade. O indivíduo encontra um lugar para si mesmo. A revista o espelhava. E o tempo das cartas ritmava o encontro com o outro, que, após o decorrer de algum tempo, entre escrita, espera, leitura, nova escrita, e assim por diante, ele tornava-se conhecido. A passante da rua, inacessível, e o correspondente sem imagem e com quem se dividia um tempo longo, são, para o indivíduo, não outras pessoas, mas a própria experiência de incomunicabilidade e perda, no primeiro caso, e espera e imagens feitas só pela imaginação, no segundo caso.

As palavras e as fotos que cabiam numa carta eram o material com que meu amigo formou a sua garota. Eles ficaram um bom tempo nisso, até marcarem de "se conhecer". Ponho entre aspas pois eles já se conheciam, por cartas. Sting, em "Message in a bottle", não conhera revistas especializadas e clubes sociais: o cantor enviou um S.O.S. para o mundo vago, o aberto, esperando que alguém o notasse. As colegas da escola e do prédio eram quem havia de imediato, para se conhecer. Nem sempre a emoção facilitava a conversa com o intuito de namorar. Ou nem sempre alguém da comunidade era interessante. Além do que, raramente eles tinham os mesmos gostos que um garoto que ouvia e se vestia de Nirvana justamente para se diferenciar deles. A revista tinha gente diferente e selecionada. Levava para fora da comunidade do prédio e da escola. Era a comunidade conquistada pelo próprio jovem. Com a internet, a troca de cartas ficou muito mais ágil. Eram os e-mails. Dali a pouco, as salas de bate-papo e os messengers permitiriam a efetiva conversa. Podia-se dizer uma frase e ter a resposta na hora. O tempo de espera desaparece: era o tempo de chegar em casa e conectar, e no mesmo horário que o outro.

Nos programas de bate-papo, conversava-se com quem se havia encontrado pessoalmente ao menos uma vez, e pedido o e-mail. Já nos sites de bate-papo, encontrava-se pessoas novas, mas dentro de um filtro de interesses (sexo, namoro, amizade, faixa-etária, etc) e de localidades.
Devido a estes filtros, e ao não uso de fotos, esses sites funcionavam como a revista de rock, e outras revistas com seção de anúncios para relacionamento. Os programas de mensagem permitiam a troca de imagens. A imagem passou a ser importante, junto do texto, e este ficou mais ágil e conversacional, e menos longo, demorado e com menos chance de enlevos literários, do que ocorria com as cartas.

O orkut baseava-se em reunião virtual de pessoas por características, gostos, localidades, e muitas outras coisas, em comum. Conversava-se com pessoas que se auto-selecionavam, por aqueles critérios. Via-se as opiniões de alguém. Via-se um perfil, postagens e fotos. Aqueles critérios e as fotos faziam-no ser interessante, ou não, para um flerte. Pelo bate-papo privado, estreitavam-se os contatos. Agora, o facebook tem como ênfase o estreitamento dos contatos de quem já se encontrou pessoalmente. Funciona como um programa de bate-papo, mas cada usuário tem um album de fotos, para se apresentar, e expressa suas opiniões, em público. Este aspecto da apresentação por imagens e opiniões, e não por textos elaborados, faz desse site um "jornal do eu", complementado com o bate-papo. Conhecidos de muitos anos atrás se contatam no facebook, e também conhecidos de lugares não-virtuais, com quem ainda não se conversou muito. As conversas muitas vezes se aprofundam, e relações amorosas podem se desenvolver. Se você um dia encontrou alguém, em qualquer lugar, tem chance de "conhecê-lo melhor". Ninguém mais está perdido.

Chego ao programa Tinder e ao site POF (Plenty of Fish). Imagine que você está há meia hora no metrô, com alguém atraente, à frente. Essa pessoa abre um livro que você também gosta. A cidade reúne indivíduos diferentes, e com tal direito a circular e a adentrar lugares que a cada um, em circuntâncias comuns, não é exigido responder perguntas. A pessoa do metrô tem direito ao silêncio, não importando sua aparência ou as outras coisas que ele exiba. Você o verá como interessante, mas, como Baudelaire, não poderá falar com ele. Tinder e POF mostram pessoas de diversas aparências, através de fotos e breves descrições de si, para despertar o interesse amoroso de alguém. Não é o programa de bate-papo e o face, que estreita relações que começaram como não-virtuais, pois, neles, se encontra pessoas pela primeira vez; não é como o orkut, que se baseava em interesses comuns; e é completamente diferente das cartas, pois estas baseavam-se no texto, o texto que deveria favorecer a criação de imagens.

Esses sites mostram pessoas possivelmente interessantes, no aspecto amoroso, para o indivíduo. Aproveitam o interesse dele próprio em se mostrar interessante. São especializados em encontros entre desconhecidos, que se atraíram mutuamente, e tendo as fotos como ponto de desencadeamento. São como uma rua, com a diferença que, neles, você pode abordar a pessoa. A autorização para isso é dada justamente pela confirmação do mútuo interesse. É como se, no metrô, um terceiro perguntasse a você do seu interesse por aquela pessoa, e perguntasse a ela o interesse dela em relação a você. O programa e o site fazem essa mediação. Neles, Baudelaire encontraria uma mulher elegante, e poderia abordá-la. Mas então ele não seria Baudelaire, o poeta da solidão de um indivíduo numa multidão, e do encontro amoroso impossibilitado pelo urbano. Ele não ficaria curtindo longamente a experiência de ter visto a bela mulher. Até mesmo porquê, a mulher seria abordável. Além dela, ele veria um sem número de outras mulheres que poderiam interessá-lo. A própria rua de hoje exibe uma variedade e quantidade maiores do que na época dele, e a internet acompanha isso. O outro é cada vez mais o abordável, e menos um estranho. Eu sou cada vez mais comunicativo, e menos isolado. Isso é verdade, conquanto esse outro esteja no site, e o mediador tenha nos preparado para o encontro. Ou seja, ele pode ser desconhecido, mas precisamos confiar no mediador. Sem um mediador, sem alguém para me apresentar a foto do outro, não falo com ele, permaneço isolado. As pessoas no metrô podem curtir-se virtualmente, enquanto não se atrevem a trocar olhares, por cima do celular.

Criamos nossos meios de não ficarmos sozinhos. E de nos aproximarmos da imagem vista e sonhada. Não há experiência vedada. Por isso, a experiência única que se tem não é ruminada, pelo indivíduo. Fomos pescar, e os peixes foram atirados em nosso barco, bastando que pedíssemos por isso. O desejo pelo peixe foi atendido. E pegamos não apenas um. Atendemos também o nosso desejo de quantidade. Enquanto isso, mantemos a ideia de que uma relação amorosa deve dar-se por mútua dedicação exclusiva por "aprofundar" o conhecimento do outro, e uma troca de promessas de que um ficará somente com o outro.

Copo

Uma folha quadrada e reta, de plástico maleável, foi dobrada para dentro, por duas mãos, de modo que adquirisse o desenho de um copo. O que era plano, bidimensional, ficou tridimensional, com volume. O novo copo foi levado a uma fonte de água, da qual deixou-se derramar no interior, que é o exterior dobrado. Tão logo adquiriu a forma do copo, a água aquietou-se. As mãos seguravam aquela quantidade de água quieta. Os indicadores bateram de leve, nas laterais. Um tremor subiu copo acima, ondas formaram-se na superfície. As mãos viram a água parar, deixando novamente ver o fundo do copo. Parecia não haver nada dentro.

O bom destino


A rainha leu o destino de seu filho: a palma da mão dele dizia, pela pouca extensão da linha da vida, que ele morreria cedo. Para a mãe não ter que vê-lo quando chegasse a hora de ele morrer, ele decidiu viajar para longe.
Ao filho, a mãe não mais prometia uma vida. Houve o rompimento de uma situação de estabilidade e, consequentemente, de conforto.
Esta história chama-se "O bom diabo", e está no Histórias de Tia Nastácia, do Monteiro Lobato.
Após umas horas de caminhada, o jovem encontrou uma pequena igreja. Entrou e viu o teto meio caído, as paredes mofadas, as cadeiras quebradas. Uma estátua de São Miguel e uma do diabo completavam o quadro de ruína. O príncipe reuniu alguns homens da localidade e ordenou que reformassem tudo.
Terminado o serviço, os homens chamaram-no. A igreja estava uma beleza, a madeira das cadeiras e confessionário novinha, o piso e o telhado como se não tivessem visto o tempo. São Miguel estava renovado. O diabo, contudo, fora deixado na mesma.
"Porque não pintaram o diabo? Eu ordenei que reformassem tudo.", disse o príncipe, que bem havia reparado que sobrara material para fazer reforma. "Consertem e pintem o diabo!".
O príncipe seguiu viagem. Com o fim dos últimos raios solares, ele teve de pedir abrigo na primeira casa que encontrou, naquele caminho de mato fechado. Uma velha o recebeu com amabilidade. Ela lhe disse que os moradores daquelas redondezas, ela, inclusive, estavam acostumados a receberem viajantes. Ele que não se preocupasse com nada, naquela noite!
A velha deu-lhe alimento e mostrou onde ele dormiria. Durante a madrugada, no entanto, a velha bisbilhotou os pertences do jovem. Encontrou o dinheiro que ele levava consigo. Pegou uma parte do dinheiro, guardou, e chamou a polícia. Ao policial a velha disse que uma quantia em dinheiro dela havia desaparecido, e que ela desconfiava do jovem que ali encontrava-se hospedado. O policial fez uma busca no meio das roupas do jovem, e realmente viu que havia dinheiro guardado. A velha sempre vivera naquela região, era conhecida. Não parecia haver razão para se acreditar num forasteiro.
Isto tudo se passou distante do reinado da família do príncipe. O rei dali não conhecia aquele jovem. Por ter roubado a velha, este foi condenado a morrer na forca.
No dia da execução, São Miguel e o diabo estavam de conversa. "Que linda essa pintura, heim? Estou em plena forma!", disse o diabo. "Pois, é. Um jovem príncipe passou por aqui e cuidou para que tudo fosse restaurado. Mas você sabia, diabo, que este príncipe está pretes a ser enforcado, por uma condenação injusta?". São Miguel contou ao diabo a obra da velha. "Preciso fazer alguma coisa.", disse o diabo, que transportou-se para o castelo do rei, solicitando que o chamassem.
O diabo contou ao rei tudo o que havia se passado. O rei mandou suspender a execução do jovem, e que a velha fosse trazida até ele. Ela resistiu um pouco a dizer a verdade, mas acabou confessando. Seu castigo foi ser amarrada no lombo de um burro bravo, a ser solto para uma infinita galopagem, na floresta. Ao príncipe foi apresentada a filha do rei, que estava a espera de um noivo.
Nesta história, o príncipe havia perdido a base para sustentar sua expectativa de vida. Caiu na estrada. Contudo, esperança ele possuía, e cuidou de São Miguel e do diabo. Este não esqueceu do príncipe, aparecendo para ajudá-lo, na hora certa.
Provavelmente, o diabo passará a acompanhar o príncipe, falando em seu ouvido para que pare a cada vez que ele estiver na iminência de fazer algo que o prejudique.
De forma maniqueísta, dizemos que determinadas figuras voltam-se exclusivamente ao mal, outras ao bem. O diabo, aqui, não é o demônio, mas um anjo da guarda, com quem o príncipe comporá uma dupla, uma relação de intimidade, ao mesmo tempo animadora e protetora.

O terceiro e o amigo: dois tipos de desconhecidos

A mãe quer que o filho faça ou não faça alguma coisa: "se eu chegar no três, você vai ver! um, dois...". O filho obedece. Um dia ele pergunta o que acontece quando ela chega ao três. "Eu não sei.", é a resposta.

A criança é ela e a mãe + ela e o anjo protetor + ela e o pai + ela e o amigo da escola. Um pequeno universo de parceiros, com os quais a criança faz dupla, e passa a existir junto com o passar a existir de cada um deles. Não há o terceiro.

Os parceiros mãe, anjo, etc, são nomeáveis. O terceiro seria inominável. O terceiro está fora desse universo. Nenhum dos seus participantes o conhece. A mãe lembra a criança deste terceiro, deste sem rosto que faz com que a passagem do dois para o três, na contagem, seja ansiosa para os que compartilham e existem em dupla.

Ninguém quer o terceiro, pois ele divide a dupla, talvez para sempre. A mãe chama o homem do saco, rezando para que seu desejo não se realize.

Tem um desconhecido que não está fora. O amigo não é a mãe, não é um parceiro. Agambem, em "O amigo" (http://www.bsfreud.com/AgambenCaon.html) o diz como um "outro si mesmo", hetero autos, do Aristoteles. Com ele se sente e pensa as mesmas coisas. Com ele se existe junto, como ocorre com um parceiro, mas sem que se constitua um "eu e ele", mas, sim, um "eu e meu amigo", muito próximo de "eu e outro eu".

Com um amigo, não dá para saber quando começa o outro e termina o um, como um pote de sorvete tomado junto: ele não está sendo dividido. Se dividimos o pote de sorvete, mesmo que irmãmente, estamos no campo da parceria a fim de paz, da justiça, não mais do existir junto e misturado.

"Meu filho Adriano sabe dividir o sorvete com o irmão", "Minha mãe é boa cozinheira": Dizemos essas frases a respeito de parceiros. Agora, "eu te amo" ou "eu te amigo", "amor" ou "amigo", não aceitam predicado, lembra Agambem. Nelas o sujeito está referido a si mesmo. Lembre-se de como é fácil fazer um programa na companhia de um amigo: basta escolher sua pizza e filme preferidos, que serão exatamente o que o amigo estava querendo.

Porque você ama alguém? Como responder isso sem falar de si mesmo? E, da mesma forma que ê difícil olhar para si mesmo, é igualmente difícil olhar para um amigo. O que se faz é apontar o rosto para um lado e ter o do outro também apontado para lá. Conhece-se um amigo quando não se o conhece.

sábado, 18 de outubro de 2014

Você está confundindo as coisas


"Relações de trabalho não deveriam se tornar íntimas", assim pensamos. Durante a escola, ainda é permitido ser amigo de um colega de sala. Isso é estimulado, mas, à medida que se vai chegando à adolescência, os pais começam a achar ruim que o filho leve um amigo para com ele se trancar no quarto. Que eles fiquem na rua, ou seja, que as regras da cidade balizem o comportamento de um em relação ao outro! No quarto se levará apenas o namorado, ou o ficante. E, se a cidade mostrar aos pais que namorar alguém do mesmo sexo está dentro das regras, a tendência será a de se assustar menos com o namorado do filho entrando no quarto dele.

A partir dos últimos anos de escola espera-se que esteja clara a diferença entre colegas e amigos: colegas são aqueles com quem se convive em algum lugar que não a casa, mas com quem não se conversa coisas íntimas. À medida que a conversa sobre banalidades vai se tornando íntima, o colega vai se tornando amigo. Da escola, faculdade ou trabalho vai-se ao shopping ou ao bar. O assunto fica mais e mais rico, e aumenta o prazer que um sente com o outro.

Nestas conversas há atração corporal. Achamos que a conversa é entre duas bocas que só falam, e falam o que está nas "mentes" de quem conversa. No entanto, ter intimidade com alguém significa compartilhar com ele uma situação de troca de sons e sinais visuais, que comunicam mais do que ideias: trocam-se sugestões, insinuações, também recusas, receios, etc.

A gramática das relações, que estabelece graus de troca e proximidade entre as pessoas, orienta nossas reações às tentativas de aproximação, de alguém, e nossas próprias tentativas de aproximação. Mas, a lotação do quarto da criança era restrita. O número de amigos, de um adolescente, é menor que o de colegas. Também aprendemos que namorar é com um de cada vez (lembrando que o ficar permite variação de parceiro, mas, a princípio, não há muita intimidade com cada um deles. Essa intimidade tende a aumentar, caso os encontros continuem.).

A existência de um namorado não impede que um colega passe a amigo, mas o impede de chegar a namorado. Contudo, pode haver mais intimidade, trocas mais amplas e mais harmoniosas, de uma pessoa com seu amigo do que com seu namorado. Pode-se evitar que a relação com um colega chegue a esse ponto, mesmo que ela seja agradável. Mesmo que não haja um namorado, pode-se não querer ser amigo, muito menos namorado, de determinado colega. Este pode não perceber essa rejeição, e não apenas sorrir para o outro, como chamá-lo para sair. "Ele está confundindo as coisas."

Essa divisão nas relações também distingue se a relação é hetero ou homossexual. Conversa entre homens vemos como isenta de homossexualidade. Entretanto, os gregos e os romanos antigos entendiam que com um bom amigo a intimidade era, de fato, intimidade: ouvia-se alguém com prazer, punha-se a mão em seu ombro, bebia-se com ele, se lhe beijava e com ele se trocava carícias. Era intimidade corporal, sem distinção entre "mente" e físico, portanto, um ambiente em que a fala não se separava do gesto, e a conversa prazerosa de carícias sexuais.

Entre bons amigos há atração. Ou a atração é que leva dois homens a serem bons amigos. Eles podem, contudo, jamais realizar as trocas que gostariam de fazer. Eles faziam essas trocas, quando eram crianças e se lhes permitia ficar no quarto. A partir da pré-adolescência, contudo, o quarto passou a ser lugar de ficar sozinho. Isso até que chega "alguém especial". Mas ele já não existia? A esta altura já aprendemos que esse alguém especial não pode ser o amigo. Só que um monte de filmes, e nossa própria atração, nos diz que não há alguém mais especial do que o amigo.

Aquela gramática é uma regra cultural e histórica. Vivemos a contrariando: sentimos atração por quem acabamos de conhecer ou por colegas. Queremos beijar alguém antes de dizermos qualquer coisa.

Uma pessoa olha desejosa para a outra. Alguém que se vê como heterossexual pode supor um olhar de desejo homossexual, de outra pessoa sobre ele, e se incomodar com isso. Um homem não percebe quando uma mulher lança um olhar de desejo, para ele. As mulheres querem abordar homens. No entanto, o homem ainda se sente governante das investidas amorosas, em público. Por isso ele bobamente se assusta com as mudanças comportamentais que fazem a mulher tomar a iniciativa. E, diante de outro homem, ele procura pistas de que ele seja gay. Caso encontre, fará uma suposição de que será alvo do interesse dele. Isso ele vivia arcaicamente, e era bom. Ele gostaria de receber a cantada do outro. Ele recusa isso, para si mesmo. E agride o outro.

quarta-feira, 15 de outubro de 2014

O que fazer quando se encontra um fantasma?


Primeira coisa: se você sair correndo, perderá a chance de saber como é um fantasma. E ele corre ainda mais rápido, atrás de você. Então você se sente corajoso, e se aproximará dele? Não adianta: ele recua na exata medida em que você avança. E sem despregar os olhos de você. Correr para cima dele o espantaria de vez. Minto: ele vai para um lugar que você custará a encontrar, apesar de estar próximo de você e permitir que ele continue te observando tranquilamente. Sim, ele sempre esteve rondando, por aí. Você que nunca reparou.

Não adiantaria conseguir chegar bem perto dele, pois é como um vidro e você só veria o outro lado. E não é possível agarrá-lo para lançá-lo ao chão. Ele é uma espécie de ar. Todas as pessoas têm algo a dizer sobre os fantasmas, mas, de fato, poucas os viram. Ele apareceu para você, que, inteligente e curioso que é, não vai querer fingir que não o viu. E agora já sabe que não é para chegar perto. Mantenha essa mesma distância.

Vai tentar falar com ele? Lembre-se que ele está há muito tempo daquela mesma distância, de você. Ele já sabe tudo o que você tem para falar. Além disso, ele não ouve. Ele apenas age.

Olhe para ele. Você não pode dizer o que ele é. Muita gente que nunca o viu acha que sabe algo sobre ele. Balela! Agora, você pode dizer como ele está apresentado, e o que ele está fazendo.

"Dá para se relacionar com quem é muito diferente de você?"; "Dinheiro não traz felicidade? Ou melhor: o que há de errado com o dinheiro?"; "Porque as pessoas matam? Ou melhor: como que não matam mais?"; "Há vida após a morte? Ou melhor: porque tem que haver vida após a morte?"; "Deus existe? Ou melhor: o que é Deus?"; etc. Tais são os nossos fantasmas. De repente você surpreende um deles te olhando. Assim que começa a observá-lo, percebe que as coisas que sabia não servem para entendê-lo. Elas não te levavam a boas perguntas.

Você conseguiu se espantar e não correr. Está aproveitando essa energia para raciocinar, e conseguir entender o bicho. Se precisar, pegue caderno/caneta, do bolso, para a escrita ajudá-lo a pensar. Chegará a uma resposta. Ofereça-a às pessoas do seu face. Os que estão cheios de opiniões, acharão estranho. Dirão que fantasma não existe, como se fosse essa a questão. Ou que não se deve dar atenção a eles.

Um ou outro virá falar com você. Pode te elogiar, mas empurrará uma opinião. Pode acabar de ler, levantar a cabeça e se espantar com o que está a se mover, à frente.

segunda-feira, 13 de outubro de 2014

Dá para se relacionar com quem é muito diferente de você?


Minhas experiências com música ou filmes, sei que são íntimas, difíceis de explicar mesmo para alguém que tenha um gosto parecido com o meu. Entretanto, caso possamos ouvir música juntos, isso já é uma troca. Relação é, além de união, a troca em torno de algo, compartilhá-lo. Mas uma experiência íntima continua sendo difícil de comunicar. Quando conto minha história de vida para alguém, e ela entende os personagens da mesma forma que eu e, ainda por cima, faz-me pensar coisas novas, com suas colocações, estarei diante da minha "alma gêmea". Mas também podemos ter ótima relação com uma alma não-gêmea.

Gasta-se dinheiro com um filme ou um show que não são exatamente os preferidos, "por amor". Por amor, mesmo, ou seja, pela união, aceita-se compartilhar aquilo com o outro. Há quem não aceite fazer algo que envolva um outro gosto, mesmo que seja para ficar junto de alguém que se goste. Aí não se continua a relação, ou se deixa o outro sair com os amigos. Para um filósofo, o que é importante em alguém para se relacionar? Sócrates vivia a filosofia dele: ele passava o tempo inquirindo seus concidadãos sobre o que eles diziam de virtudes ou características de pessoas ou ações, como a justiça, a coragem, etc. O "conhece-te a ti mesmo" perguntava se alguém realmente conhecia o que dizia conhecer, e se estava preparado para ocupar uma função, ou ser o que queria ser. Isso fez com que muitos se incomodassem com Sócrates. Ele próprio não aguentava passar muito tempo perto da sua esposa, não dada a esse tipo de conversa.

As mulheres da grécia antiga eram do âmbito doméstico, ou seja, do cuidado com a casa e os filhos. Passar muito tempo junto delas, na cama, era um dispêndio indesculpável de energia, para o homem. Não se compartilhava assuntos da pólis com elas. Sócrates não tinha em Xantipa uma parceira de filosofia. Tampouco a maioria dos seus concidadãos o eram, para ele. Sócrates não era um seguidor de auto-ajuda, não buscava evitar ou sanar conflitos. Antes a vida tinha que valer a pena. Dado que a filosofia é inseparável do modo de viver, de um filósofo, é difícil travar relações amorosas com quem não seja também um parceiro de conversa e investigação.

Um não-filósofo tem uma opinião sobre a política. Opinião não é experiência íntima, portanto, pode ser comunicada e, por isso mesmo, atribui-se muita importância ao fato de outro escutá-la e pensar sobre ela. Ainda melhor se concordar. Um filósofo gostaria de conversar com uma namorada, também sobre política. Mas ela não gosta desse assunto. Ela pode tomar como opinião o que ele diz, e fazer de conta que a aceita, ou dar de ombros, como se aquilo não tivesse que ser importante. Fazer alguém pensar igual, para um, ou fazer alguém pensar, para outro, são importantes para que eles mantenham-se unidos a alguém. Viver bem, para um filósofo, não é viver em paz, mas também não é criar guerra à toa: é estranhar as coisas, inclusive a si próprio, e é o defender um modo de vida coletivo que assegure a liberdade e que rechace os sofrimentos e crueldades. Por isso ele, muitas vezes, é um chato, observa religiosos, cientistas, juízes, pessoas na fila do super-mercado, etc, e, se precisar, "cria caso".

Montaigne, contudo, diz que o filósofo deve moderar-se: filosofia, com moderação, é bom e traz bons frutos; em excesso, faz com que o homem seja adversário da sociedade, das leis, e até dos próprios prazeres. Há uma razão natural que nos faz viver comodamente. A filosofia, enquanto um pensar sobre a razão, a natureza e a própria "comodidade", em excesso, nos impediria de viver. Diferentemente de Sócrates, para quem a própria vida era o seu filosofar, portanto, dotava-o de características particulares, para Montaigne a filosofia é uma atividade dentre outras, e que não pode ocupar tudo o que ele faz. Para este filósofo, seria possível ter um amigo com quem discordasse em algumas coisas. Para Sócrates, amigo era amigo do conhecimento, por isso, amigo pessoal.

Será que Montaigne não estimaria tanto mais uma pessoa quanto ela também fosse uma filósofa? Ele dedica um ensaio sobre a amizade a La Boetie, de quem foi amigo. O amor e admiração demonstrados no ensaio mostram a importância, para Montaigne, da parceria intelectual. Seu conselho é para o filósofo não ficar intratável, apenas abordável por quem também seja filósofo, e é útil quando travamos relações com quem "pensa diferente". Não é preciso concordar com quem se vai fazer sexo ou bater-papo. Pode-se trocar outras coisas, além de ideias. Mas, sem dúvida, o desejo de unir-se será mais forte se for com alguém a quem você admire.

No Fedro, de Platão, está que nos atraímos por alguém que, além de nos dar a impressão do Belo, lembra-nos do deus a que somos devotos, ou seja, que pareça ter as características que mais valorizamos. E faremos o possível para deixar o amado mais e mais semelhante a esse deus. O amado precisa parecer, e se deixar parecer mais, com o jeito que mais gostamos, em uma pessoa. Nessas condições, o desejo de união perdurará. Sem essa identificação, pode-se até compartilhar momentos, e ter prazer, mas a relação logo termina. Bem, uma relação com identificação e paixão também tem seu fim. O amor faz da razão um instrumento, para iniciar ou manter uma união. Mas pode-se amar alguém por se amar ser racional. Esse alguém o incentiva nisso, e por isso você o ama. E, sem esse incentivo, você jamais conseguirá amá-lo.

sábado, 11 de outubro de 2014

Sou, no mínimo, um par


A laranja tem um monte de gomos, mas dizemos que tem metades. De uma porção de candidatos, tiramos um primeiro e um segundo colocados. O eleito terá o outro como oposição. Governar seria solitário demais se ninguém raspasse seu poder. As ações desse respondem às daquele, que responde de volta. Cascão vive tendo problemas com o Capitão-Feio. O Cebolinha não pode ajudar, pois está ocupadíssimo pegando o coelho da Mônica. Sansão é um coelho de pelúcia, e não pode ajudar Mônica. Mas quando eles estão a sós, certamente conversam. Batman tem uma porção de inimigos, embora em cada história o drama se passe entre ele e mais um. Em suas casas, o presidente e o Batman não estão sozinhos: a Primeira-dama e o Alfred estão lá. Nem sempre Alfred corresponde ao que quer Batman. Enfim, ele está lá não para satisfazer Batman e, sim, para ser o Alfred, aquele que sempre esteve do lado de Bruce. Sua função é cuidar dele. E Bruce cuida de Alfred.

"Nas relações que nos procuram algum auxílio ou serviço não há que preocupar-se com as imperfeições que particularmente não se relacionam com o motivo das mesmas. Nada me importa a religião que professam meu médico ou o meu advogado; tal consideração nada tem a ver com os ofícios da amizade que me devem; nas relações domésticas que mantenho com os criados que me servem, sigo a mesma conduta. Informo-me pouco se meu lacaio é casto; interessa-me mais saber se é diligente: não temo tanto um cocheiro jogador, como outro que seja imbecil, nem um cozinheiro blasfemo, como outro ignorante dos temperos." (Montaigne, Ensaios. p.60).

Bruce não fica olhando dentro do quarto de Alfred. Alfred não perturba os pensamentos de Batman. Se querem tête-à-tête, vão ao corredor. Sem ninguém por perto, vozes internas alertam os heróis dos perigos. Homem-aranha fica com a cabeça piscando de tanto que seu daimon grita, quando ele se pendura no alto dos prédios. Nunca se interrompe essa conversa (não só verbal) com alguém. Em par, as coisas soam melhor.

Canta Luan Santana: "Te dei o sol, te dei o mar (1), pra ganhar seu coração (2). Você é raio de saudade (1), meteoro da paixão (2). Explosão de sentimentos que eu não pude acreditar (1). Ah! Como é bom poder te amar! (2)".

Cantam os Beatles: "Help! (1) I need somebody! (2) Help! (1) Not just anybody. (2) Help! (1) You know a need someone. (2) Help! (Os amigos vêm fazer coro com Paul)."

Dizem que uma pessoa sempre precisa de outra. Não é que o outro dará algo que me falte, ou que eu tenha que me "abrir" para ele. Eu não sou uma pessoa que encontra outra pessoa. Eu sou "eu E outro". E esse outro é "eu E outro", em relação a mim. Só há eu se houver outro. A relação não é complemento, mas jogo, troca. Não combinei com o time adversário os lances do jogo. O jogo começa, alguém faz algo e o outro responde. Eles não têm uma consciência de observadores, mas de corpos presentes ali. Nietzsche mostrou que o uso que fazemos da gramática, em que há um sujeito e um predicado, ou um sujeito e um verbo+situação, faz com que atribuamos autonomia ao sujeito, em relação ao predicado, como se ele tivesse uma substância e preexistisse a situação de "sujeito E predicado", alguém que só pode fazer algo porque está em um lugar, diante de outras pessoas e coisas, respondendo a elas. A filosofia não vê mais o sujeito, ou qualquer outro ponto fixo, como fundamento da Verdade (e fica sem sentido as ideias de fundamento e de Verdade).

Pascal, no aforismo 322, sobre o eu, lido por Ghiraldelli (http://ghiraldelli.pro.br/pascal/), fala do homem que, tendo perdido a ligação com Deus, e o amor infinito por ele, ficou sozinho e apenas com o amor finito por si mesmo. Esse amor finito pelo eu ficou inflado, como se ele fosse o infinito perdido. O eu tomava o grande si mesmo como objeto de amor. Mas, para sua infelicidade, descobre não conseguir encontrar esse eu para ser amado. Ele ama as lembranças que tem, o corpo bonito e bem vestido, mas não um eu, para além do psiquismo e do corpo fugazes. O que é uma narrativa antissubstancialista sobre a subjetividade leva-nos de volta ao par: o eu só encontra a si mesmo nas roupas, ideias, títulos, profissões e bens que pendura em si ou dos quais se cerca. O eu é "eu E alguma coisa".

Eu sou Thiago, psicólogo. O que é o Thiago? Homem? Filho da minha mãe? Nunca vou encontrar só o Thiago. Ele não tem substância. Da mesma forma que não existe um psicólogo que não esteja afixado em alguém. Para eu ser eu mesmo, tenho que poder reacessar meus pensamentos e cargo "de psicólogo". Sou Thiago E psicólogo. Sou Thiago E uma escola com um monte de crianças, diariamente. Como ensina Sloterdijk, sou no mínimo um par. Então vem cá, dançar.

Quanto dura uma criança?

1. Uma criança não é um boneco.


Na escola, os garotos ensaiavam uma peça. Segundo ensaio, de vários. A história ainda ganhará corpo. Era uma floresta, com animais, uma fada e um boneco. A fada chegou voando até o boneco. Pôs as mãos em suas orelhas. Ele as agarrou. "Não segure, você é um boneco". Para se despregar das orelhas do boneco, a fada encostou seus pés nos dele. Os pés também ficaram presos. Numa impulsão, a fada conseguiu se soltar. Saiu voando. O boneco lá ficou. Era para estar parado, mas se mexia.

Houve um tempo em que esse menino não tinha interesse em participar das atividades. Ficava destacado da turma, brincando sozinho. Ajudamo-lo a vir para perto das outras crianças. A ideia era que ele experimentasse as mesmas situações e coisas que os demais. Aos poucos o seu tempo de permanência nas atividades aumentou. Vivendo o social, de jogos e perguntas, e com as necessidades dele, a linguagem, a comunicação começou a ser treinada. O mundo que incluía os outros era interessante. Ele não precisava viver se protegendo. Alguns amigos percebiam a falta de costume dele com as brincadeiras de luta, e batiam. Ele ria.

Um boneco é algo que pode ser manipulado, posto do jeito que quisermos, carregado para qualquer lado. Crianças surgem como coisas que se movem. A escola quer que elas adquiram uma regulação interna da própria desinibição (numa terminologia de Peter Sloterdijk), ou seja, que elas tenham o controle do "pôr-se para agir". À escola não chega a ir um boneco-de-pau. Após a fada, o garoto deixa o lugar do boneco e vai para junto dos personagens "crianças". Encontra seu melhor amigo, e põe-se a brincar com ele, rolando-o pelo chão. "Eu quero ser criança!", ele disse. Quer se mover sozinho, ou seja, em direção a alguém, melhor ainda se for um amigo. E que este participe, também agindo.

Seria estranho vermos um boneco de carne e osso parado, por aí. Até as estátuas-humanas, que vemos no Centro, são sujeitos: quando você acha que não, ela move-se rápido e nos assusta.



2. Clube do Bolinha


Dias antes eles haviam pintado uma parede de azulejos brancos, usando tintas de várias cores. Hoje, alguns deles fizeram desenhos e escritos na tinta, raspando-a com a unha. Segundo o garoto que não era boneco, o dedo era um "giz branco". Outro garoto, ao ver os rasgos na tinta, mostrando o branco que existe por trás, veio às lágrimas. Ele participara da pintura que "ficou tão bonita". A professora tentou acalmá-lo, dizendo que a obra passou por uma interferência. Perguntei como a pintura poderia permanecer do mesmo jeito, estando no lugar de passagem de todos da escola. A professora disse que, depois, eles poderiam repintar a parede. O menino que chorou costuma fazer desenhos assinados, e em folhas de papel. Ninguém mexe nesses desenhos, estão guardados.

Aquela turma é a dos mais velhos. Em breve eles terão que mudar de escola, e outros garotos serão os mais velhos. O tempo está passando. A pintura na parede estava caprichada, mas não podia durar muito. A criança que cresce participa de algumas obras, que congregam outros. Uma obra é a parede da escola. Outra é um desenho individual, feito com a criança rodeada de coisas e crianças. A parede mostra bem a passagem do tempo, pois ela muda a olhos vistos. Dá pra ver que o que existe está inseguro, ameaçado de não existir. Os desenhos individuais, por sua vez, são ruins para mostrar o tempo, pois mostram a permanência. E é neles que a criança será ensinada a ver o si mesmo, dela. Na primeira série, em uma outra escola, cada um terá a própria carteira. Os murais coletivos serão enquadrados. Para chamar um amigo, terão que falar. Jogar-se no pescoço dele será difícil. Precisarão chamar a si mesmos, para fazer o que a professora pediu. A mão dela não estará mais em seu ombro, orientando a deles mesmos. Cada um precisará contar consigo próprio.

No filme Os Goonies (dir. Richard Donner, 1985), muito amado pelos da minha geração, há um grupo de crianças, cada uma com características, jeitos e habilidades particulares. Eles reunem-se na casa do seu líder. Contudo, a família teve de penhorar a casa, e está sem dinheiro para pagar. Terá que se mudar. Será o fim dos Goonies. Fuçando no sótão, encontraram um mapa. Dizia ser do tesouro do Willy Caolho. Os garotos não deram fé, menos o líder. O caminho começava próximo dali. Mudar de casa e de vida, romper os laços, perder os parceiros de aventura: essas coisas poderiam acontecer. Por enquanto ainda eram um grupo, com um mapa misterioso na mão. Foram em frente. Não sabiam o que viria depois daquele dia. Os bandidos que lhes perseguiam tinham armas. O caminho para o tesouro era escuro e totalmente novo, apesar de ser o subsolo da cidade conhecida por todos. As crianças andaram pelo desconhecido, mas tinham uns aos outros, aquele círculo. Havia a esperança de encontrar qualquer coisa, não precisando ser um tesouro: podia ser um pouco mais de tempo juntos, passando apuros e diversão. O fim está próximo, não por ser amanhã. Ele sempre está próximo.

Um garoto faz bolhas de sabão, nas primeiras páginas de Esferas I, de Peter Sloterdijk. Ele observa suas obras de sopro, deslizando no ar. São de curta vida. É o halito dele que forma a interioridade de um ser, que possui uma pele que o protege do exterior. Os olhos do garoto estão fascinados: ele é criador e, por isso mesmo, está totalmente vinculado à bolha. O próprio garoto inspirou de alguém, o ar que está dentro de si mesmo. Inspirou de alguém que o criou e virou seu criador-vinculado. Assim como a bolha, ele também é acompanhado por olhos. Ambos saem da não-existência, caem na existência e retornam à não existência. Em escalas diferentes, essa é a duração da bolha e do garoto. A bolha tem suas amigas. O garoto também.

Esses círculos também têm um interior de trocas entre pares, e proteção contra inimigos externos. Nada podia vencer os Goonies, e o tesouro estava no papo. Só o tempo e suas efemérides mudaria as coisas de lugar, causando o estouro da bolha. Diz-se que criança tem sorte, ou é abençoada. O filme chega ao fim antes dos Goonies chegarem ao fim. Eles conseguem o tesouro, e salvam a casa-QG. Não importa o que houve depois do filme: ele foi muito reprisado, para que os Goonies continuassem vencendo e mantendo-se vivos. A parede de azulejos, na escola, dá sinais de que a pintura tem rasgos. Mas foram os amigos que fizeram esses ferimentos na cor. Eles serão os primeiros a ouvir o choro do garoto e porem-se a pintar o muro de volta. No primeiro ano, os olhares farão as novas cumplicidades. Haverá aquele a falar besteira, para o riso geral. E o grupinho a não se desgrudar, no recreio. Os círculos que fazem o ser criança continuarão.

A ideologia perde para o ethos

O PSOL teve a maior votação da sua história. Ele sente que pode crescer mais e, um dia, ter um presidente eleito. O partido está entendendo, a meu ver, que seus votos vieram não só de gente que rejeita o Aécio, como de quem rejeita a Dilma. Por isso, Luciana Genro declarou a neutralidade do partido em relação a Dilma X Aécio. O PSOL está se vendo como uma força crescente (e é mesmo) e independente (o que é ingênuo). A notícia de neutralidade de Luciana incomodou muito os eleitores de Dilma, que esperavam, numa disputa como a que temos agora, o voto dela em Dilma, para evitar o retrocesso que é o Aécio.

Temos uma mentalidade de que, diante de uma ameaça, devemos nos unir até mesmo a quem pensa diferente, embora tenha o mesmo inimigo que nós. O dito "o inimigo do meu inimigo é meu amigo" expressa isso. Luciana pensou estrategicamente, quendo conquistar o eleitor insatisfeito com "tudo o que está aí", mas decepcionou muitos ao não reforçar a defesa do governo contra a oposição. A opção dela e do PSOL pela neutralidade decorre do modo de pensar que eles representam, o de que há um "sistema corrupto e viciado que engloba governo e oposição, os iguala, e que deve ser eliminado". Muitos eleitores dela pensam da mesma forma. Mas não vão tão longe quanto ela na manutenção desta ideia. Ela fincou pé nessa posição, a posição do "PSOL, que é diferente de TUDO", e mostra a visão estreita da ideologia (de toda ideologia) pela qual foi aplaudida e recebeu votos, no primeiro turno. A ideologia afastou Luciana do nosso ethos, expresso naquela frase. Ela virou um e.t., alguém do fanatismo de um... gaúcho!

quarta-feira, 8 de outubro de 2014

A escola dá vida

Revi o filme American Pie (dir. Paul Weltz), de 99. Aquele tempo passou, para mim. Aquelas coisas foram sérias. Ri de como éramos jovens e não tínhamos descanso. Caras terminam a escola preocupados com o que virá depois. Não querem chegar na faculdade ou encarar trabalhos sem possuírem alguma experiência, como "novatos". Estarão longe da família e amigos. Querem ter algo que os permita dizer "teve uma vez, em que eu...". Eles têm um prazo para aprender tudo o que precisarão no resto da vida. O resto da vida será apenas repetição, coisas já vividas e sabidas. A escola é onde as coisas acontecem. E o sexo é a experiência decisiva, para começar a virar adulto. É o que dá a certeza de si mesmo. Os pais consideram importante o concluir da escola, a faculdade. E o filho nem precisa sair de casa, quando terminar.

Em Fast Times at the Ridgemont High (traduzido por Picardias Estudantis, no Brasil. dir. Amy Heckerling. 1982) a escola é um tempo pesado, em que é preciso trabalhar, estudar, sofrer por amor ou ser um negro alto e esportista, para escapar de ser um loser. O trabalho de chapeiro, garçonete ou entregador nunca trarão felicidade. E se se passar a vida toda, ali? Para nós, a escola termina muito rápido. Agarramo-nos a artistas, celulares e estilos. Ainda estamos ensaiando. Estamos na pré-vida, pois, apesar de termos uma profissão, a vida ainda não nos trouxe o que queremos, para começar: carro, bairro bom, viagens, etc. O que nossos pais tiveram no final, para nós é o necessário para a largada. No filme Fast Times, convida-se garotas para sair, para a primeira transa. Ou se é experiente e a garota é que vem. O esperto pega a garota do tímido antes de ele conseguir pegar na mão dela.

Spicoli (Sean Penn) está com nota insuficiente para passar: chegou tarde, faltou, surfou e fumou muito. O professor dá por certo revê-lo ano que vem. A escola continuará. O tímido que levou um fora, depois transou com a garota. Ele continuou tímido, só que agora era namorado. O esperto faturou logo, e já busca outra garota. As experiências não os modificam. Elas simplesmente passam. Não foi possível rir dos apuros deles. Há tensão, mas a preocupação não dura: na outra cena a garota já trocou de braços, e o cara que trabalha estreia o uniforme novo.

American Pie é a ansiedade de saber se a noite da formatura valerá aquelas vidas. Antes dela, nenhum dos caras tem motivos para estar confiante, pois uma garota pensa que seu cara é "como todos os outros", outros dois passam embaraços públicos, etc. Eu ri da ansiedade e das descobertas. Vejo-me distante dos momentos dos personagens. O dia da formatura chegou rápido. A formatura passou. Relacionamentos virão, faculdade, uma vez que a escola foi cumprida. E ela foi cumprida no fazer sexo na noite do baile.

Sigo com inspiração em Montaigne, em "Que filosofar é aprender a morrer" (dos Ensaios): a morte da juventude, passando para a vida adulta, é pior do que a morte do adulto ou do velho. Nossa história de vida se desenrola até a formatura. Aprender a estudar, a superar notas ruins, a levar um fora da amada, pegar uma garota e não gostar dela, pegar outra e achar o sexo ótimo. Nesse tempo, se nasce, se cresce e se conclui. Tudo ocorre nesses anos. Depois da escola, a vida repetirá o já vivido. Agora é tratar de se manter com as roupas e os sapatos com que você gostaria de ser encontrado, quando morto. A morte vem vindo. Seu tempo está terminando.

Da mesma forma que você surgiu, aqui, você irá embora. Faça logo o que quer que seja o "para que a vida serve". Não lamente a morte, pois, se a vida foi ruim, morrer é uma benção, e se a vida foi boa, é para sair satisfeito, dela, como se sai de um banquete.

Psicologia de casais 2: depois do sexo

Na peça "Duas vezes 1/4" (texto e direção de Marcelo Pedreira), um dos personagens masculinos encontra-se em um estado que me lembrou o de pós-orgasmo: há uma mulher linda insinuando-se para ele, e o pensamento que lhe vem é o de suicidar-se. Ele oferece R$500,00 para que a prostituta apenas o ouça. Ela pega o dinheiro, apostando que ele vai querer trepar com ela. O orgasmo faz-nos sentir plenitude. Mas ele passa rápido, e deixa a sensação de que o esforço de trepar e o êxtase sexual são vãos. Outra coisa que não fosse tão boa não deixaria essa sensação, quando terminasse. Você fica pensando que aquilo não é tão necessário quanto parecia quando começou. Ele e a prostituta trepam. Na conversa seguinte, ela diz nunca ter sentido prazer com um cliente, e com ele não foi diferente. Ela foi um presente de despedida da vida, para ele. Não cobrou. O cara que não quer trepar e a prostituta que sempre o convence passam a se encontrar quase todos os dias. Ele ainda não se matou.

O justiceiro que você não quer ser

Em O Protetor (dir. Antoine Fuqua, 2014), Denzel Washington é Robert Mccall. Todos os dias ele vai a uma cafeteria, para ler. Senta-se à mesma mesa, sobre a qual dispõe seus objetos com muita meticulosidade. Não inicia conversas com ninguém. Uma jovem prostituta, que também sempre aparece por lá, pergunta-lhe sobre o livro. Ele responde, com delicadeza. Ele a vê aborrecida com o trabalho. Em outro dia, a vê apanhando de um homem que chegou de carro. Mccall trabalha em uma grande loja de departamentos. Ajuda um colega a perder peso, pois ele fará teste para ser segurança da loja. Em seu trabalho, mostra-se habilidoso com os objetos e atencioso com os demais. Provavelmente ele teve uma outra vida antes dessa, e por algum motivo precisou deixá-la. Agora era um bom empregado e um ótimo colega, daqueles que "se importam". Ninguém o pergunta sobre sua origem, mas não por receio de alguma coisa. A América dá oportunidades. A jovem prostituta é espancada. Mccall a visita no hospital. Seguindo a pista de um cartão de visitas, ele vai ao escritório de gerenciamento das prostitutas. Oferece dinheiro ao chefe, em troca da liberdade da garota. Era uma linguagem que os cafetões deveriam entender. Cafetões russos. Não foi aceito, o dinheiro. Como perderiam uma de suas escravas? Não era tanto pelo lucro... Mccall então mata um por um dos cafetões da sala, com muita rapidez. O escritório era um tentáculo de uma rede mundial de exploração de prostitutas. O comando central era um membro da máfia russa. Um investigador e assassino é enviado. Logo descobre que a chacina fora coisa de profissional. Onde encontrá-lo? Nunca em uma loja de departamentos. Após ter deixado uma vida para trás, Mccall via aqueles com quem agora convivia sofrerem com gente cruel e poderosa. Aquiles perdeu Briseida, uma mulher que ele havia tomado para si, numa guerra. Agamenon, o general dos gregos, retirou-a dele. Por isso, o excelente guerreiro recusou-se a ajudar seus conterrâneos contra os troianos. A morte dos gregos não o comovia. Pátroclo, seu amor, vai ao campo de batalha, fingindo ser Aquiles. Seu intuito era intimidar os inimigos. No entanto, é vencido e morto por Heitor, o maior dos troianos. De assassino Aquiles era chamado. Significava perigosíssimo guerreiro, daqueles que decidia uma batalha. Com o insulto de Agamenon, recolheu-se. Apesar dessa auto-contenção irada, doída, seu amor fora morto. Levantou-se, encolerizado. Em "I always will love you", da banda Bodycount (cd "Manslaughter", 2014), o rapper Ice T fala sobre o jovem americano sem trabalho, desistente da escola, que deixa sua família e alista-se no exército. O duro treinamento conclui o trabalho de fazer dele alguém que só apanhou na vida e anseia pela hora certa de retribuir. Na guerra, matou muitos. Defendeu o seu país. Contudo, não recebe o respeito e o reconhecimento merecidos. Na musica, o seu sacrifício é reconhecido, ele sempre será amado, pelos cidadãos orgulhosos do seu país. Será bem recebido na casa destes poucos, como a um irmão. Mccall, sem lar, havia sido perturbado no seu descanso. Fez justiça, pela garota. Assim que ficou sabendo que estava sendo procurado pelo assassino russo, não ficou na defensiva: passou a também investigá-lo. Desbaratou os esquemas lucrativos dos russos, que envolviam exploração do trabalho de idosas. Em reação, estes sequestraram os colegas de loja, dele. Ele então levantou-se para matar. Havia prometido, à mulher que perdeu, algo sobre não voltar a ser como foi, um dia. Mas, diante as atuais circunstâncias, teria que responder de forma cruel às crueldades que sofriam os seus. No confronto entre Aquiles e Heitor, o grego desarmou o inimigo e matou-o. Matou um homem sem chance de se defender? Não, matou um grande guerreiro, que havia perdido a luta. Não matá-lo seria desonrá-lo. Matar alguém sem chance de defesa, em nossos tempos, é condenável. Não está a nosso alcance tirar a vida de alguém, o cristianismo ensina nossa cultura e constituições. Mccall mata seus caçadores. Encontra o grande investigador e assassino. Atira algumas vezes nele, deixando-o ajoelhado, indefeso. Matou-o. Não pagaria de novo o preço de viver fugindo e de ver os parceiros da nova vida sofrerem ameaça. Agiu ferozmente contra aquela força exterior à sua comunidade, a fim de preservá-la. Em uma guerra, há regras para a agressividade do soldado. Afinal, não é porque o inimigo não é da comunidade do soldado, que poderá sofrer de tudo. Mas o soldado cruel ainda tem uma comunidade, ou será bem recebido, em uma? Em "Rambo, programado para matar" (dir. Ted Kotcheff, 1982), Rambo é um ex-combatente americano, no Vietnã, condecorado, agora vagando pelas ruas de uma cidade que não o conhece. A polícia percebe o tipo dele, e fica vigiando. Rambo diz que lutou por seu país, mas agora é um pária. O xerife puxou a ficha da "máquina de matar". Seu país agora o quer ou como errante quieto, ou como enjaulado. Mccall foi assistido, matando o assassino russo, pelo seu colega chefe de segurança, aquele que recebeu sua ajuda. O olhar da testemunha era de entendimento, porém terror. Era uma ação intolerável numa comunidade. Uma bestialidade, mas que a manteria segura. Houve apenas uma testemunha, que não falaria. Naquela noite, Mccall foi novamente quem nunca deveria ter existido. No dia seguinte, retornou ao seu lugar na cafeteria. Continuou o livro de onde havia parado.

Morre o lobo, nasce a criança

Teve um teatro de fantoches, na escola. Lobo Mau e Chapeuzinho vermelho. Assim que apareceu a Chapeuzinho, as crianças gostaram. Cantaram junto a "pela estrada afora...". Já a aparição do Lobo fez com que muitos se levantassem para bater nele. Na plateia havia um menino chorando desde a Chapeuzinho. Com o Lobo, passou a chorar muito mais.

Quem havia se levantado, sentou, e foi ouvir as falas do vilão. Na devida hora, as criancinhas acompanharam o "eu sou o lobo mau, lobo mau, lobo mau. Eu pego as criancinhas para fazer mingau". Uma menina cantava de pé. Sua mímica dizia que "a vida é assim mesmo, o que o Lobo pode fazer?" "Hoje estou contente, vai haver festança. Tenho um bom petisco para encher a minha pança". A natureza não é a harmonia do instinto com a necessidade, ou seja, a caça para saciar a fome. A natureza tem crueldade, tratar o outro como petisco e encher a pança. É o que o próprio homem faz. Só que o homem pode ser cruel, mas não mais do que o Lobo Mau. O homem é demasiado humano. Ele come tudo, mas diz fazer consumo consciente. Tem um quê de estoico, preocupa-se com o fim dos recursos do mundo, não pelos recursos em si, mas por não querer passar privações. O Lobo é o cara que vai no rodízio de petiscos para devorar camarão e ovo de codorna, como quem come arroz, e não vidas mortas. O Lobo não se prende à cadeia alimentar. Fica petiscando até estufar. Ele não se satisfaz, nem se põe limite. Só pára quando o corpo deforma e ameaça estourar.

A chapeuzinho levará docinhos para vovó. Esta ficará bem satisfeita. Como a netinha é boa! Os docinhos serão um afeto transmitido de neta para avó. Geralmente é a avó que dá doces para os netos. A chapeuzinho se contém, não come os doces, para oferecê-los à vovó. É uma juventude que se dá à tradição. A tradição continuará. E os laços afetivos entre vovó e netinha são criados, quando esta nem pensa em agir como criança e devorar os doces.

As crianças cantaram com prazer a música do Lobo. O prazer está do lado dele. Ele engana e luta com o objetivo de comer. Não há nada melhor do que comer o máximo possível. Engoliu a vovó de uma vez, sem mastigar. Ela ficou inteirinha lá dentro. Ele disfarçou-se com as roupas da vovó para também engolir a chapeuzinho. Ele nem se preocupava se esta também caberia na pança. Pança aguenta bem mais coisa do que estômago. A menina veio carinhosa, e a conversa do Lobo a atraía. Como era ele no lugar da vovó, a bondade de chapeuzinho não formaria qualquer laço afetivo. A vovó estava dentro dele, presa.

Como um macho pode ter pessoas dentro de si? Só se for porque assaltou uma dispensa e uma geladeira, e correu para um lugar seguro para digerir por um tempão. O Lobo se diverte, não trabalha. Ele pilha, é um pirata, toma pela força enquanto sorri. A vida é assim, mas não a nossa vida. A animalidade foi deixada de lado. Crianças aprendem a trocar o prazer imediato pelo agradar, em busca de uma afeição que poderá garantir pequenas porções diárias de comida e brinquedo, durante muito tempo. Aceitam isso, uma vez que lhes é vetado o prazer do ser bicho. O Lobo é mau, mas elas o entendem bem. E entendem que ele precise morrer. Ou melhor: ficar meio morto.

terça-feira, 23 de setembro de 2014

De frente para um mundo

O corpo de um homem tem a parte da frente e a parte de trás. A parte da frente é a que recebe estímulos é onde ocorrem as ações. A atenção se dá com o voltar a frente do próprio corpo para alguma coisa, recebendo seus estímulos por toda a pele e sentidos. A parte de trás não permite saber de nada do que ocorre atrás do corpo. Também não emite qualquer sinal ou realiza gestos. A linha que separa a parte da frente da de trás é a da lateral do pescoço, descendo pela frente dos ombros até a parte interna do braço, seguindo pela lateral do ante-braço (onde os pêlos ficam menos abundantes), e a lateral da mão. Essa linha demarca e cria a palma e as costas da mão, o ante-braço de pele mais fina e o de pele mais grossa e tonalizada pelo sol, a região mais macia do braço e a região musculosa, e a parte da frente do pescoço e a nuca. A linha divisória também desce por trás das costelas, indo pela lateral dos quadris e da coxa. A parte de trás é desprotegida. Entretanto, bíceps, triceps e trapézio desenvolvidos são armadura e instrumento para as ações que ocorrem na frente. A parte da frente é tenra, sensível e atenta. O peito e a barriga peludos, de um homem, são mais fechados, menos francos e sinceros do que a barriga e o peito de um menino. A parte de trás é vulnerável à ação de outros corpos. Na fábula "O cágado na festa do céu", recontada por Monteiro Lobato em "Histórias de Tia Nastácia", haveria uma festa no céu, para a qual o cágado se encaminhava lentamente. Naquele passo, ele chegaria depois da comemoração. Viu uma garça levantando vôo. Pediu carona, e foi atendido. Após subirem um tanto, a garça pergunta ao cágado se ele ainda enxergava a terra. Sim, foi a resposta. Subiram outro bom tanto, e a garça repetiu a pergunta. O cágado afirmou não mais ver a terra. A garça virou-se de costas e deixou o cágado cair. "Se eu desta escapar, léu léu léu, se eu desta escapar, na festa do céu nunca mais me deixarei levar", cantou o bicho, que havia confiado na garça. A garça esperou ele perder a terra de vista, a referência de mundo, para cometer aquela deslealdade. O peito do cágado certamente não aguentaria o impacto, ao voltar para a terra. Será que o seu casco aguentaria? A proteção na sua parte de trás seria o suficiente? Ao quase terminar a queda, o cágado avisou às pedras e àrvores que saíssem do caminho, para não se machucarem. Elas não podiam imaginar que um cágado cairia em cima delas. O cágado caiu num clarão, quebrando-se em cem pedaços. Deus, com pena, rejuntou os pedaços do casco do cágado. Seu escudo é duro, e passou a exibir uma história de confiança traída, pois, no momento da traição o cágado não tinha qualquer chance de se defender, nem visão de terra para entender o que acontecia. O escudo também mostra o recado de que, se o cágado quiser se meter com aves e festas no céu, precisa tomar muito cuidado e escolher bem em quem confiar. A parte da frente do corpo de um homem é um campo delimitado pela abertura total dos braços, exibindo sua parte interna, além do que os olhos e os ouvidos conseguem captar. O que pode ser captado e manipulado, neste raio, compõe a parte da frente desse corpo e o mundo para este sujeito. A parte da frente do corpo e o mundo que existe para ele estão colados. Os acontecimentos próximos deverão ser sabidos. Alguma coisa à média e longa distância, o que puder ser ameaçador, também. Walter Benjamin disse que a imprensa fez com que o homem moderno soubesse mais do incêndio que se passava longe do que do incêndio em sua própria vizinhança. Andamos desatentos para o que se passa perto. Acabamos nos super-protegendo, e ficando insensíveis para o que sofrem pessoas próximas de nós. Recusamos vê-los. Em 1970, na cidade de Birminghan, Inglaterra, quatro jovens viam seus conhecidos, e até seus próprios pais, viverem entre a fábrica e o bairro pobre e feio. Ozzy saiu da escola e não parava em emprego nenhum. Passava o dia nas ruas, cometendo pequenos delitos. A vida não podia se resumir a trabalhar em fábrica e viver sem dinheiro, como vivia seu bom pai. Os Beatles brilhavam na tv, seus corpos comunicavam-se com multidões que se prendiam ao seu show. Ozzy também queria ser um mestre de cerimônias, um entertainer. Tony Iommi, outro daqueles quatro jovens, perdera as ponta de dois dedos, numa fábrica. Queria ser músico, reservar sua mão para a guitarra. Encontrou Ozzy. Bill Ward e Geezer Butler eram os outros. O mundo não era o que eles queriam. Havia algo de errado nele, mas as pessoas não percebiam. Geezer notou que as pessoas iam ao cinema para verem filmes de terror. Pagavam para sentir medo!, como pode? Os quatro fariam música para meter medo. Não queriam ser hippies. O primeiro cd do Black Sabbath começa falando de uma presença negra que desespera, e que é impossível de não sentir. Ozzy pedia a ajuda de Deus. Seu pai fez cruzes de ferro para os quatro integrantes da banda. A platéia se apavorava com as letras e a guitarra pesada, de Iommi. Era uma ópera direta, que visava atingir muito rápido a audiência e fazê-la entrar no drama. Um drama que era da vida de todos: os garotos da vizinhança, ao invés de só ficarem bêbados e serem presos, resolveram falar aquelas coisas até estourar os tímpanos e as pessoas desistirem de não sentir nada. Ou morrerem de uma vez. A música era atitude, ação. Iommi usava no peito a proteção dada pelo pai de Ozzy. Na parte de trás do corpo, punha um casaco de couro preto. Anos depois, os punks iriam incrementar a proteção com tachas de metal. O couro era grosso, e não refletia qualquer raio de luz. Era fechado e seguro. A cabeça era protegida pelos longos cabelos, que também estavam na cabeça de cada um dos outros membros. O peito, que podia estar aberto, tinha a cruz, na frente. A música pesada quer dizer que vida também o é. O som e as apresentações mexem com a platéia, e os próprios músicos se defendem do que podem vir a provocar. A jaqueta virará braços e costas tatuados. Haverá músicos sem camisa e de cabelo curto, mas repletos de desenhos. Dizem que é para "fechar o corpo". Os jovens da platéia batem cabeça, com os cabelos voando. Parecem expulsar algo. Voltando ao início da música pesada, Ozzy, o frontman, tinha a plateia na mão. Mas era o mais exposto. Seu cabelo, apesar de longo, era liso, fácil de atravessar. O de Iommi, encaracolado. O rosto de Ozzy, imberbe, como o de um garotinho numa festa de chamadores de atenção para o mundo, provocadores de pessoas. Ser uma pessoa para lidar com a própria atitude, platéias comovidas, viagens e dinheiro, tornava difícil de suportar. Para que o jovem Ozzy não morresse, louco ao máximo, de drogas e bebida, foi tirado da banda. Aquele corpo estava exposto, tendo que lidar com mais coisas do que homens dão conta de lidar.

Formas de não se ter experiências

Há dez anos, João Gordo brigou com Dado Dolabella, no programa de entrevista que o primeiro tinha, na tv. Dado disse que João tinha fama de encrenqueiro e, por isso, havia levado um porrete e uma machadinha, para o encontro. João respondeu à provocação pegando ele mesmo uma das armas e gritando para que Dado saísse dali. Antes disso, Dado havia chamado João de "traidor do movimento punk". "Encrenqueiro", se dizia a respeito do João, na tv. "Traidor", era dito apenas por um público restrito, o "público de rock". Ter sido chamado de "traidor do movimento punk" por alguém não identificado ao tal movimento causou um riso de nervoso em João. Entretanto, Dado possuía aquelas informações, e as usou, com aparente naturalidade. Não lhe foi preciso ser punk para se queixar com João, sobre o punk. Sloterdijk, em O Palácio de Cristal, conta como o mundo passou a ser representado pelo globo terrestre. O velho continente tinha no firmamento, a abóbada celeste, e na terra, os eixos de sustentação do mundo. O mar demarcava o seu final. Com as navegações, o horizonte do conhecido foi se ampliando. O oceano não necessariamente era devorador, e outras culturas e costumes puderam ser conhecidos. A demora da viagem, o tempo necessário para se percorrer o espaço, davam uma experiência ampla e de longa duração (erfahrung). Por meio de cartas, os navegadores informavam seus iguais sobre aquela aventura e os diferentes seres assemelhados com humanos, que haviam encontrado. Aqueles relatos informavam sobre o que se encontrava distante. Não era preciso estar lá para conhecê-los. O texto e a imagem foram substituindo o saber proveniente da participação, da experiência direta. O Iluminismo pôs o homem como aquele que tem capacidade de conhecer as coisas. A imprensa fez com que o conhecimento do distante fosse democratizado. Para Platão, a experiência direta das coisas era enganosa, pois o real estava num mundo atingível apenas pelo intelecto. Para os navegadores e reis, a experiência direta do distante também era para poucos, embora a viagem a ser feita não fosse mais de alma, e, sim, de navio. Com a imprensa, contudo, conhecer algo dava-se não mais pelo olhar imediato, mas pelo olhar mediado por uma boa representação. A banca de jornal falava do real, para uma cultura ainda suficientemente platônica para desconfiar do que soubesse apenas observando. O observador imparcial conhecia melhor o mundo, e até a própria interioridade do público do que quem tivesse experiência direta deles. E que experiência? Valia mais ver um Globo Repórter sobre a comida grega ou a favela carioca do que participar deles. Bons fotógrafos, jornalistas conhecedores de tudo, repórteres de comunicação ágil e pesquisadores de campo são como eu e você, não os invejamos (em alguns casos, não queremos ser eles), e apenas nos atualizam do que já sabemos. A criança chega à escola sabedora de tudo, e impaciente para o tempo longo da experiência de formação, do aprender a ler as informações que não param de chegar. O professor é visto como elitista, se é bom, ou como autoritário e atrasado. O mundo são as circulações eletrônicas, de dados e comerciais. Essas redes cortam a Terra, fincam pontos de redistribuição e fazem-na inteira para o nosso conhecimento. O homem fez uma estufa: nela ocorrem trocas, produção de histórias de vida, e sensação de conforto, com o mercado ou os direitos e a seguridade social. As distâncias geográficas são suprimidas, pois se vai do ponto A ao B com cliques no celular em um ponto Z. As distâncias de tempo e de idade também são irrelevantes. Todos os bens, e as experiências comunicáveis em identidades, também tornadas bens culturais, estão para consumo. Nada está disperso, é marginal ou exótico demais. Esses nomes viram adjetivos para o que eu tenho acesso. Há trinta anos, João Gordo canta no Ratos de Porão. Em uma entrevista para o Jô Soares, em 1991, João diz fazer música de protesto, a mais agressiva do mundo. Os punks colocam-se como portadores e porta-vozes de uma experiência de condições ruins de trabalho e de privações, as quais eles dizem ser do "povo". Suas roupas, bebidas, drogas e gritos são a expressão do que não concordam. Os que "não se revoltam" também serão descritos pelos intelectuais: os praticantes da cultura x, os portadores da história de sofrimento y, querem ser olhados com mais demora, diz a academia. Num ambiente de trocas rápidas entre coisas tornadas equivalentes pelo dinheiro, identidades são sub participações, pois a fixação leva a perda de oportunidades. Os punks e os rappers vão desautorizar-nos a falar sobre eles: nem tudo está aberto para visitação, e eles mesmos vão dizer, de um jeito despreocupado em ser agradável. Alguns rappers foram ao programa Esquenta, da Globo, e de lá disseram ao Mano Brown, avesso a ser cultura de massa, que aquilo não é tão ruim. Certa vez fui num show dos Racionais MCs. Era embaixo de um viaduto, e à noite, o lugar parecia escolhido para inibir "gente de fora". No meio do show, Mano Brown falou que, antigamente, e na quebrada dele, eles atravessavam a rua se vissem um branco vindo na mesma direção. Após dizer isso, abriu um champanhe e chamou gente da platéia para brindar com ele. "Aqui são todos minha gente. Nunca fiz show para playboy". João Gordo, tendo já escrito músicas contra a Igreja Universal, anos depois, foi funcionário da Rede Record. Traidor? Ele diz que ganhava muito bem, e que não era de movimento punk nenhum, onde, segundo ele, não dá para sustentar sua família e está sujeito a sofrer violência. Mas no último disco do Ratos, o protesto continua: contra o político corrupto, contra o pobre que espanca a mulher, a favor das manifestações recentes e contra a polícia, contra os selfies tirados enquanto o mundo acaba. Portador nenhum de uma identidade teria tanta coisa para reclamar. É um apanhado do que pode causar incômodo a muita gente diferente. João, Jão e Boka, a banda, são os representantes deles mesmos, e são uma família, e família precisa de dinheiro. A experiência deles sai num discurso sem a mediação de leituras teóricas ou políticas. O interesse é o de reportar tudo. Voltando à tv, Datena pinçará algumas queixas populares, os cientistas sociais, outras, as elaborarão e falarão. Isso será, respectivamente, o alimento do discurso da política de direita e da política de esquerda, que são refinados, definidos, e descolados da experiência, que não é tão clara e fácil de definir. O jovem que não gosta de estudar, que já conhece tudo (e para quem a própria experiência é avalizadora de conhecimento), que é "massacrado pelos pais, pelos professores e pela Globo", identifica-se com os pobres daqui e com os palestinos, e quer falar por eles. Esses "eles" nem sempre querem que alguém se meta nas suas falas: "quem somos nós, branquinhos, para sabermos do que eles passam?". Há o João Gordo, que não se compromete com o punk, nem com qualquer teoria ou partido, mas identifica-se com o protestar. E com as chances que a cultura de massa lhe dá. Se estamos trocando a experiência das coisas pela experiência de troca de coisas, que é experiência do descarte e, portanto, vazia, como pode alguém falar de uma experiência que considere só dele, sem que ele se absolutize numa identidade, dor ou necessidade, rechaçando a conversa, e viabilizando a conversa com a cultura de massa, aproveitando suas oportunidades, sem deixar que ela esgote sua expressão (que pode ocorrer também em vias particulares, como os "ouvintes de punk")? E como não ser um vazio, um incapaz se ter histórias para contar, e que não precise se defender num absoluto como um "público disso", um "especialista daquilo outro" ou um "defensor da causa tal"?

Sexo e metáfora

Os pais me diziam uma porção de coisas sobre seu filho, e ouvindo minhas elaborações. Um dia, eles ficaram espantados: o garoto, de quatro anos, disse ter ouvido que o colega tal lambeu o pinto do colega qual. O que eu achava? A sexualidade das crianças é um campo de descobertas como qualquer outro, só que, por ser no corpo delas e no dos outros, o que se descobre vem acompanhado de prazer. E é uma brincadeira, como tudo o mais, para a criança pequena. Tudo é para ser mexido e explorado por elas. Se for algo que enrubesce os adultos, então, deve ser algo fantástico. Como sua atividade já é lúdica, sua comunicação das descobertas que faz é literal. Um garoto lambeu o pinto do outro. Quem diria "chupou" somos nós, os adultos. Nós metaforizamos, pensando num sorvete, pirulito, etc. O garoto disse lambeu, pois é isso realmente que é feito, no sexo oral. Quando eu tinha uns seis anos, ouvi um cara mais velho dizendo que iria comer o cu do outro. Eu pensei que ele pegaria uma bolinha meio marrom, que ficava na bunda do outro, uma bolinha parecida com uma bala de tamarindo, mas não doce, e comeria. O outro ficaria sem cu. Há crianças que dizem ter visto o pai machucando a mãe, mas que, após terem perguntado a ela se estava bem, ela disse que não tinha problema, o pai lhe fazia carinho. Um carinho que machuca e faz a pessoa se debater, como é isso? Quer dizer que há horas em que é bom ser machucado, e ela não pode bater no colega da escola? Comer isso ou aquilo, chupar, machucar, e outros, são formas dos adultos falarem não diretamente sobre o sexo. Se precisamos de pornô e viagra para nos excitarmos, essas palavras são a nossa brincadeira, nosso lidar com o sexo de forma novamente interessante. Estamos fazendo isso como se fizéssemos outra coisa. Sinto que estou chupando um picolé ou um sorvete de morango no copinho. Estou dando, sem deixar de ter. Estou dando uma sapecada, uma estilingada, etc. É frango assado, cachorrinho e canguru perneta. Um filho surge, de tanto que fazemos papai e mamãe. Quem usa vagina, pênis, penetração, e outros, está aquém da experimentação infantil.

Se gay é alegre...

Um homem fica tenso diante do corpo de outro homem. É como o medo de sair de casa. O gay transa no cinema, na igreja, na escola e até no quarto, se der. Espalha-se na cidade. Dinho, dos Mamonas Assassinas, desfilava de Robocop Gay. Era inquieto, e o palco pequeno. Adorava um palco. Não havia quem não se sentisse brincando. Os homens lembravam da cueca puxada pra cima e das brincadeiras feitas para um público. "Você pode ser gótico, ser punk ou skinhead." Pode ser uma coisa ou outra. "Tem gay que é Mohamed, e come vatapá." Se pode ser árabe e baiano, pode ser multicoisas. O liberal vai à rua atender a uma necessidade privada. Se simplifica, para ter comprador. Se pudesse, venderia de tudo. Para vender sempre, conecta-se ao cara que compra o de de sempre, que também vende o de sempre. Então trata de se manter o mesmo, para os acontecimentos lhe serem favoráveis. Mas dança em casa, e vive a fim de dançar na rua, feito Madonna, Michael e Dinho. Consumidores ecléticos, mas buscando identidade entendível e estável, ser comprável garantidamente, sendo uma só coisa, somos todos. O gay pode ser qualquer um, e se oferece para consumo em todos os lugares: padre gay, tarado em mulher e gay, gay gay, policial gay, jogador gay, pai gay, matador gay, etc. Em qualquer lugar há um homem ficando diferente, como se um vírus da mudança se espalhasse. Uma coisa com o acréscimo do gay se enriquece, não do gay, mas pelo gay, que é a abertura. Um matador não precisa ser gay, para matar bem, mas se for gay, se tiver esse detalhe que não tem nada a ver com o matar, essa coisa não diretamente relacionável com nada, terá uma abertura para fazer outra coisa. Que coisa? Eu não sei. A gente pode ser gay.

Conversa de João com Maria

Oi, Maria. Tudo bem? Tudo, e vc? Bem! Estou com saudades de vc, vamos nos ver? Não sei. Gosto de conversar com vc, pelo zap, mas não quero encontrá-lo. Vc me machucou muito, no namoro. Desculpa. Foram muitas discussões, vc sempre quis ter razão, era estúpido, muitas vezes. Sim, às vezes sou grosso, querendo explicar meu ponto. Sabe, está sendo bom conversar com vc, estamos sendo amigos, coisa que não imaginei que pudesse acontecer, mas não quero envolvimento. Entendo. Tenho defeitos. Sim, vc tem defeitos. Eu passei a nossa relação toda mexendo e remexendo meus defeitos, querendo melhorar. Acho que é coisa dos trinta, refletir sobre os próprios defeitos e ver se evita alguma coisa. Os homens de trinta são imaturos. Mais do que os de vinte? Os de vinte não se preocupam em ser maduros. O que é pior, preocupar-se com ser maduro ou ser imaturo? Isso está me parecendo provocação, João. Sabe, vou dormir. Bj. Bj. Ele quis sair com ela. Entrou, contudo, numa discussão sobre ele mesmo. A conversa poderia ter sido encaminhada de outra forma, para, quem sabe, ele ter o que queria. Você não gostaria de me ver, não tem saudade? Tenho vontade, mas não dá certo entre a gente. Vamos ir num passo de cada vez. Sei que meu defeito é insistir em discussões, tentando sempre ter razão. Acho que ficarei mais calado. Sim, é bom para vc mesmo, escutar mais. Então, deixa eu ser mais carinhoso. Vou escutá-la mais. Não dá, já terminamos dez vezes. Vamos continuar como estamos, só amigos. Tudo bem, nos encontramos como amigos (de repente...). Podemos ir ao cinema. Você costuma convidar suas ex, para sair? Não, só vc. Sabe, vc tem razão, sempre acabo discutindo com a pessoa e estragando a relação. Vc é muito confuso. Estou fazendo sentido, agora? Não. Eu aceito sair como amigo, e a ouvirei mais. Sabe, está tarde, preciso dormir. Bj. Bj. Ele continuou sem conseguir o que queria. Seria amigo, foi avançando devagar. Prometeu fazer o que ela considerava bom que ele fizesse. Ela chamou-o de confuso, e ele quis apontar que estava sendo claro. Ele quer ser alguém claro. Sair como amigos podia ser um interesse em comum? Ela tinha outros interesses, que o excluiam. Ele foi chamado de discutidor? Ele sabe que é. É uma das características pela quais ele se reconhece, como sua essência. A conversa que lhe atendesse, contudo, deveria efetivamente ser tão conversa quanto possível, mais acordo e menos prova de si mesmo. O interesse dele é legíítmo. O receio dela, também. A conversa precisa ir se azeitando, na prática. É o que pode levar ao consenso e ao atendimento de ambos, mesmo que os interesses sejam modificados. Não há certeza de convencimento do outro, e de obtenção do que se quer. Mas é melhor conversar do que impor-se e seu mundo aos outros e a si mesmo, e viver ou em guerras, ou insatisfeito.

Psicologia de casais I: Carência

É sábado à tarde, e um cara vai ao mercado buscar uma comida, para passar a noite. Retorna, prepara e se serve, assistindo tv. Lê um pouco. São sete horas. Vê o facebook. Puxa papo com uma garota, a elogia. É rápido, sugere um encontro para aquela noite. Não. Fala com outra. Não. Mas essa conversa se estende, um pouco. Ela ri com ele. Acaba e é tarde. Ele ficou com os programas chatos da tv. Falta alguém. Alguém com quem conversar, se interessar por ele e recebê-lo. Alguém com quem beijar e ir ganhando pedaços de pele, para explorar. Um abraço, no primeiro encontro, diria que está tudo bem. Agora ela: Ela chegou em casa, terça à noite, cansada. Vê os recados no zap, uns caras querendo sair de novo, mais beijos. Um deles foi namorado dela.Ela lhe diz que não pode se deixar levar pela carência. Gosta dele. Ela gostaria de fazer um bom sexo, ter um carinho. Diz não. Ela sente falta de alguém com quem dê certo, se possível, com o mínimo de discussão. Pegar novamente o ex é ver que não está conseguindo. A mulher é o útero. O útero foi a casa do homem. Da mulher, também. Mas, repito, a mulher é o útero. O homem quer voltar para ele. Seria o seu lar, ele seria o dono, se sentiria aceito com seu jeitão e ações. A mulher quer os braços do homem, mas ela se sabe útero, aquela que recebe e acolhe. Dizemos que é a mulher quem come o homem, ela manda nele. Quer se sentir novamente preenchida e completa. O homem, aceito e acolhido.

segunda-feira, 22 de setembro de 2014

Perereca solta na escola

Na escola, crianças de cinco, seis anos, faziam "experiências científicas". Com funis e tubos, a professora montou um estetoscópio. Precisou repetir o nome, para entenderem. Era para eles ouvirem o coração, como fazem os médicos com seus pacientes. Ouvir o coração eles já ouvem: após um pouco de corrida, o coração fica quase pulando para fora, e elas nem precisam por a mão sobre o peito, para sentir. O Emílio, de Rousseau, tinha de montar o próprio telescópio, se quisesse ver estrelas. A partir da vivência das crianças de que há algo batendo no próprio peito, a escola fala sobre a existência do coração, o seu funcionamento e sinais. Nesse conhecimento científico a que elas vão sendo introduzidas, há dados novos, elementos não observados pelas crianças, mas observados por alguem. Elas não estavam tendo êxito, com o aparelho de escutar coração. Não estava dando para ouvir nada. O garoto pediu-me para escutar o coração dele, pondo meu ouvido diretamente no seu peito. Está forte?, perguntou. Está rápido, respondi. O coração batendo não tão forte, apesar de rápido, preocupava o garoto. Numa aula subsequente, ouvimos que o interior dos ossos tem uma substancia esponjosa. Ainda sobre o "dentro" do corpo, a professora conta que chamam-se testículos o que elas, crianças, costumam chamar de ovinhos. E o que tem dentro deles, perguntaram. Uns bichinhos que nadam. A professora não diria o nome, sem antes verificar se eles lembravam. E dentro dos bichinhos tem o quê, perguntaram. Não sei te responder agora, mas eu e você podemos pesquisar isso, disse a professora. Mas não podem dar chute ali, heim?, completou. Dentro deles há coisas cuja presença ou funcionamento escapa à percepção deles. Coisas, portanto, que ocorrem dentro deles, mas à sua revelia. E estas coisas têm outras dentro, que a própria pessoa pode conhecer. E há coisas dentro destas, que o livro conhece. E outras dentro desta, que talvez ninguém conheça, e que estão muito longe dos meus sentidos. Mas o dentro do dentro do dentro não pode cessar, como a boneca Babuska, que contém uma cópia exata dela mesma, e que esta cópia também guarda uma cópia, e assim sucessivamente e cada vez diminuindo a escala, até se chegar na última, que é oca. A escola parte das experiências da criança, e a apresenta ao saber científico. A filosofia também começa com as experiências, mas faz perguntas que o livro não responde: "o que há dentro do dentro do dentro?", "quem controla o que eu não controlo em mim, e quem o controla?", etc. São exercícios de perguntar e pensar hipóteses. Os "experimentos" científicos desembocam no que a professora já conhece. Para as crianças é a primeira vez, e se surpreendem. Mas logo será experimento, repetição, não experiência, num sentido maior. Mais tarde, nesse dia, uma professora que sempre leva plantas e bichos para eles verem mostrou um pote com algumas pererecas. Explicou que tipo de bicho eram, o quao são frágeis e pequenas, e nada perigosas. Tirou uma delas do pote. As mãozinhas abriram-se para receber a perereca. Sobre uma mão, a perereca ficava parada. Depois, por alguma razão, sempre pulava. A professora a recolhia e passava para a outra criança. Esse pequeno ser tem uma forma bem diferente da humana. Tem a cor escura, porém brilhante. É linda, uma jóia, a meu ver. Na minha mão tive medo de, sem querer, machucá-la. Uma das crianças ficou com medo da perereca, e não conseguiu oferecer a mão. O fascínio e o medo, essas sensações diante de um determinado ser, são inexplicáveis ou inaplacáveis quando se é informado daquela espécie ou na nossa própria psicologia da percepção. É o momento da experiência, que vai ganhando sentidos aos poucos, nas brincadeiras das crianças. Nos próximos dias a pererequinha ficará à solta, por lá.

Sacos vazios

Não há casca, não há envoltório duro. O mundo é frio e não-humano. Vou criando estufas, para existir. O mundo é sem centro e sem ponto-fixo. Vou criando meus pontos de localização. Não estou dentro do mundo, mas sobre ele, girando na bola. Saí de um envoltório feto-placenta, quase caí no incomensurável, no frio. Criei um novo envoltório, uma esfera, que precisa sempre ser refeita. Olho para sacos vazios de supermercado entendendo que eles portam e aquecem coisas, dão-lhes chance de sobreviver e sentido para existir. Humanizo as coisas vendo-as num envoltório de plástico, que é mais confiável do que a minha própria bolha. Na escola, as crianças diziam: "dentro do meu corpo tem ossos. Dentro dos ossos tem coisas. Dentro do coisas." - "Vocês têm coisas dentro, como um saco com coisas dentro?". -"Somos sacos vazios com coisas dentro".