quinta-feira, 20 de abril de 2017

Confusão e cansaço do eu


Na sala, os jovens conversavam sobre “Thirteen Reasons Why”. Uma moça cometeu suicídio, na série, e enviou fitas para treze pessoas que, segundo a história, significavam as razões do que ela fez. O filósofo Byung-Chul Han tem a tese de que vivemos um excesso de eu: o tempo de poder disciplinar, vinculado a instituições, arquiteturas e saberes, tão bem descrito por Foucault, e a sociedade de controle “a céu aberto”, dita por Deleuze, que são formas que acessam os indivíduos a partir de fora, são secundarizadas pelo controle do indivíduo sobre si mesmo. Ele é chamado para ter uma opinião, uma posição, uma opção. É chamado a desempenhar estas coisas, incluindo seu trabalho. O indivíduo é seu maior chefe, seu maior avaliador. Ele é seu próprio analista, porque não?

Mas, o que tanto ocupa esse eu? A tese de Han não deve ser entendida como um contraponto à tese da “pressão externa”, dita pelos jovens. Se ela for lida em conjunto com a ampla tese da esferologia, de Peter Sloterdijk, saímos da falsa separação estanque entre "eu" e "outro".

A esferologia de Sloterdijk diz o seguinte: na situação intra-uterina, placenta e feto formam uma esfera. Entre eles há tecidos, líquidos e vibrações. E eles ainda não são sujeito e objeto, feto e placenta, mas um aqui e um com. Cada um de nós é, desde o início, participante de uma dupla, um aqui, "onde estou?", junto de um com, "acompanhante de quem?". Sons externos são recebidos e causam vibração, no líquido amniótico. São filtrados, e vão formando um pré-psiquismo acústico naquele que poderá vir a ser a criança.

Então ocorre o que chamamos de nascimento, que é a separação da dupla. O recém nascido receberá ar, receberá a respiração da mãe, e então a voz dela. Mas essa voz vem depois da voz do anjo, um anjo sonoro, que acompa a criança. A mãe será o terceiro pólo da esfera. Em sua maioria, as vozes que habitam o indivíduo não são dele mesmo. São dele, pois nele penetraram. Mas, quando ele procura dizer algo "dele mesmo", mesmo que seja um pensamento, uma fala de si para si mesmo, isto ocorre por um certo compromisso naquilo que fala nele.

As esferas simbióticas feto e placenta, depois criança, anjo e mãe, sofrerão rupturas e reconstruções, para que novas intimidades possam ser formadas.

Para Sloterdijk, sujeito é aquele que se autoconsulta, escuta a voz interna que ele entende como sendo a dele próprio, e então se põe pra agir, se autodesinibe. No entanto, observa Sloterdijk, não temos conseguido nos descongelar. E não temos conseguido parar de agir meio que compulsivamente, o que é repetitivo, inercial. Temos precisado de consultores para nos dizer o óbvio, e nos alavancar para agir. E não paramos de agir da mesma forma, pois as vozes que circulam em nós são todas iguais a mim.

Han coloca que não temos experimentado alteridade, outridade, mas o outro como um diferente próximo, um diferente igual a mim. A personagem da série tem algo em comum com quem a assiste: um episódio tem uma emoção muito semelhante à outra, ocorre uma igualdade entre o 1, o 2, o 3... o 13. Treze vozes, treze episódios (não sei se a série tem essa quantidade de episódios, mas não importa para o que quero dizer), todas iguais a mim. Não busco a minha voz, dentre estas.

A menina se matou por treze razões, e deu a entender que as treze razões dela são as razões do outro. Ela morreu por razões que são dela e também do outro. "Jesus morreu pelos nossos pecados", mas veja o quanto ele foi sujeito, tendo feito o que fez por uma razão outra do que as dos pecados! A confusão de razões, da menina, acompanha a confusão da punição com aquele ato (quem ela quis punir, com a própria morte?). Adultos que também não conseguem se colocar para agir, ou que não conseguem discernir o porquê de fazerem o que fazem, e por isso não param, vêem a mesma coisa no jovem: ele tem tempo livre, não faz nada mas, se fizer, irá pela cabeça perigosa dos outros. Sua melhor companhia é uma série e, a partir dela, não sairá ponderando sobre as coisas, mas a tomará como um outro maciçamente colado ao eu, e que o levará para onde os personagens quiserem.

A personagem confunde as razões alheias como devendo ser a dela própria. Ela está distante de elaborar uma posição. Isso ocorre num momento em que o jovem é cobrado por ser um eu, uma identidade, um elemento seguro de pensamento e ação. Cansada desse eu que, ao ter que desempenhar, toma as razões dos outros como sendo as próprias, ela se matou.

Os adultos, a partir do justo temor pelos atos dos filhos, apostam que eles realmente farão essa confusão entre outros e si mesmo. Jovens e pais unem-se para falar que os primeiros sofrem pressão externa influenciadora. O que os pais não percebem é que estão lançando para os filhos a enorme demanda por serem eus, e também o cansaço disso.

segunda-feira, 17 de abril de 2017

Festa pré-pronta


Nos anos 70 os homens viam John Travolta na TV. Sábado à noite eles se produziam demoradamente, para se apresentarem na pista de dança. Havia festa, um tempo diferenciado. Hoje, produção continua sendo utilizado para o embelezamento, mas de mulheres, transformistas e gays. A festa está com eles. Às vezes, nem mais com eles ela está. Produção, no sentido de fazer algo para ser trocado por dinheiro, e tornar-se equivalente a tudo, roubou o momento da festa, do apresentar-se.

Agora cada um se preocupa em produzir algo que valha. Isso inclui vídeos e fotos para o Facebook. Importa produzir material que tenha um valor, não mais um produzir-se. Ou um produzir-se atrelado a produtos. Veja bloggers e vloggers, com seus livros e peças. O belo, que já teve seu sentido próximo ao justo, hoje ou é monetarizado ou não é importante. O justo tem sido um trabalho nada atraente. O charme está nos heróis e nos vilões, que tomam as coisas em suas próprias mãos, indivíduos que impressionam.

Na vida bela não existe mais o político e o politizado, tão preocupados com todos, com o mesmo empenho com que recusam-se à estética. A fala é desajeitada, tem uma afetação que vira marca (já reparou como cada palestrante midiático têm um problema na expressão, que se torna a sua marca identifidora? E a péssima dicção do Lula, que charme?), o cabelo é desarrumado, não raro apela-se para um comportamento imoral e inoportuno em sala de aula, nas ruas, nas instituições.

A polidez e a reserva, o produzir-se de forma bela não se encontra mais na política ou na sala de aula. O professor se esgoela, os alunos também falam desorganizadamente. Não há a beleza da precisão do conceito, de um texto bem escrito, de um tema bem debatido. As coisas são tocadas a toque de caixa para dar conta da próxima prova do Enem, de mudar rapidamente o comportamento de alguém. É o anti produzir-se belo.

Neoliberalismo e machismo não são a força de uma pessoa sobre a outra, mas de uma pessoa sobre ela mesma, obrigando a produzir-se. Produzir ideias, coisas, tudo com a marca "self made". A orbigatoriedade do assumir-se a si mesmo. Na dúvida, há um monte de identidades pré-prontas, aí, pra você vestir e sair rapidinho de casa.

P.s.:Inspirado na conferência "Tempo de celebração: a festa numa época sem celebração", de Byung-Chul Han. Este texto consta no livro "A sociedade do cansaço", do mesmo autor.

sábado, 15 de abril de 2017

Vida e pensamento


O compromisso da filosofia é com a verdade. Para se chegar à verdade, é preciso pensar. Pensar não é solitário: é uma conversa, às vezes da pessoa consigo própria, às vezes na presença de mais gente. A conversa filosófica, de amor ao conhecimento, precisa, é claro, da presença da filosofia, na figura de um filósofo.

Numa época pós-nietzscheana, não há fundamento absoluto para a verdade. No entanto, não dá para falar que ela não exista: entende-se que a verdade é contingente a contextos de conversação. Para o filósofo americano Richard Rorty, e necessário cuidar da liberdade pois, com a existência dela, a verdade surge. Em contrapartida, sair em defesa de uma verdade é temeroso. Quem está com ela? Quem a garante?

Defende-se, em filosofia, tudo aquilo que promove a liberdade e ataca-se tudo o que a prejudica. A liberdade que traz a verdade é a de expressão. E o que é expressão senão o que se apresenta no comportamento em geral, como a sexualidade, as crenças, a sensibilidade, as posições políticas, etc? A filosofia os defende, pois deles vêm novas perspectivas. E a produção destas perspectivas mantém nossas chances de obter verdades.

Esta defesa não é, contudo, das práticas em si: nenhuma prática ou posição é a priori boa ou má ou, quanto à possibilidade de gerar um saber, certa ou errada. Até mesmo a vida não é defendida a priori. Nietzsche desnudou nossa cultura darwinista que absolutiza a sobrevivência, tornando o homem um ser antes calculador do que potente.

As profissões que cuidam da manutenção da vida, vida no sentido biopolítico, de funções vitais descritas pela biomedicina e, interligadas a elas, as profissões que cuidam do dinheiro associado à manutenção e ao desenvolvimento de seres vivos, casam-se com um senso comum geral de que vida é um bem necessário, e que requer cálculo. Viver torna-se uma necessidade. O homem e a sociedade são carentes de vida, e orçam o valor disso.

Neste entendimento, vida não é vista como dádiva, cujo receptor também faz sua doação. Vida não é imprecisão. Não pode ser contemplação, por exemplo. Agora, pensando além disso, tudo bem que haja profissões de defesa da vida como uma commodity, mas também há de se almejar algo mais.

Sloterdijk* relembra a ideia do filósofo Arnold Gehlen, de que o desenvolvimento da espécie humana ocorreu com a manutenção, nos indivíduos desenvolvidos, de fatores somáticos e psíquicos imaturos. Segundo Gehlen, a neotenia faria do homem um ser em risco, diante do mundo, e carente de suporte. Por aí é que não vai Sloterdijk, ao dizer que o homem desenvolve invernadas para viver, ambientes protegidos animados justamente pelas feições infantis dos seus membros mais jovens, e bem sucedidas devido à capacidade humana, também relativa à imaturidade, de aprender por toda a vida.

No realismo pessimista de Gehlen, as populações são necessitadas, e só uns poucos indivíduos podem desenvolver o intelecto, pois ele é um supérfluo, um luxo de artistas. Sloterdijk diz o contrário: vivemos na sociedade da abundância e de proteções e cuidados e, mesmo para os mais pobres, há a referência de que o mundo gera riquezas das quais eles também devem participar.

A filosofia nunca se pôs como realista: se o mundo apresenta guerras, se há populações pobres, se a ignorância grassa, ela mantém um ideal de paz e desimpedimento no mundo, nos organismos e nas almas, para que possa haver a conversa que conduz à verdade. A filosofia pode existir no mesmo mundo dos psicólogos, os professores, os médicos, os políticos, os sociólogos, ocupados em sanar as dores, mas ela mantém um pé fora desse mundo (como o que próprio do contemporâneo, para o Agamben): pergunta o que é a vida, a riqueza, a juventude, a inteligência, a alma e, ao buscar condições de investigar, pergunta porque estas condições, em cada uma daquelas categorias, não são melhores do que se apresenta hoje, para que amanhã a investigação também seja melhor.

Então, por exemplo, se os joves podem se suicidar por causa da série de uma garota suicida, e psicólogos e professores correm para salvá-los, o filósofo vai pegar a vontade de se matar, e também a vontade de impedir isso, como um assunto de investigação ampla. E essa investigação, enquanto experiência de pensamento, pode ser a própria geração de vida, para jovens já vivos, curiosos. E talvez para adultos mortos-vivos.

Chamamos alguma coisa de "vida real" por termos necessidade de que tenham necessidade de nós: o mundo precisa ser salvo, as pessoas precisam sobreviver, a partir de mim. A realidade, aqui, é antes a da necessidade do que a de uma vida ou um mundo num sentido mais bruto, o de sentidos e experiências. Se fosse possível colocar em questão a necessidade, o sujeito necessário sentiria vertigem de falta de mundo. A "vida real" é irreal. Seus salvadores, ao oferecerem seus préstimos, estão a pedir salvação para eles mesmos.

Será que há o que ser salvo? Minha geração ficou marcada com a extinção do Mico-Leão dourado. Não ouço mais a palavra extinção. No Brasil há índios. Os jovens mostram o que é viver, hoje. Ouço por aí a expressão "não estou sabendo lidar", utilizada para quando algo foge do esperado pelo falante. O falante lida com uma porção de coisas. Tudo é livre. Então tudo acessa o jovem, e ele vai reagindo. Ele tem seus desempenhos. Mas há algo com o qual ele não "está sabendo lidar". Não é algo ruim para mim, ou para todos. É demais para ele. Ao falar isso, já se está lidando com a coisa. Ela foi posta de lado, e pronto. Nada se perde, ou se necessita. Mas uma coisa ou outra vai sendo posta pra escanteio. O mundo, em nenhum sentido, acabará. A vida, em nenhum nível, está em risco.


*Paulo Ghiraldelli Jr. conta isso em "Para ler Peter Sloterdijk", editora Via Veritá, Rio de Janeiro, 2017.

sexta-feira, 14 de abril de 2017

A preocupação com as treze razões


Não assisti ao "Thirteen reasons". Assisti às opiniões de algumas pessoas sobre esta série. No texto "Luto e melancolia", Freud conta que o estado melancólico é o sofrimento decorrente da perda não de um ente amado, mas de uma abstração amada. Não se sabe exatamente o que foi perdido, mas o ego do melancólico não cessa de se recriminar pela perda. Ao contrário da pessoa em luto, que culpa o mundo por ter lhe retirado o objeto amado, o melancólico tem uma doença narcísica: ele identifica-se com o objeto amado perdido. Desde modo, é o próprio eu que está perdido.

O eu vazio de sentido não é o modo atual de sofrimento, segundo o filósofo coreano Byung-Chul Han. Em "Sociedade do cansaço", ele apresenta a ideia de que estamos não em uma época de perda ou de negatividade, mas de sempre mais, de positividade. O sofrimento atual se dá por um excesso de eu. Minhas ideias, meus sentimentos, meus projetos, minhas regras, minha militâncias, meu desempenho: sou obrigado a ser eu mesmo. E não há outros, não há alteridade, mas diferenças tomadas sem estranheza, sempre familiares.

Uma menina comete suicídio. Ela apresenta treze razões diferentes para ter feito isso. Cada razão refere-se a uma pessoa que ela conhecia. Estas pessoas e razões são apresentadas pela menina como razões para ela ter feito o que fez. Adultos disseram-se preocupados com os jovens que assistem à série. Haveria o risco de que o comportamento da personagem fosse imitado: um risco de que o jovem também fique cheio de si. Opiniões ou motivos oriundos de 13 outros, por serem 13 outros familiares, encheram o si mesmo da menina. Ela não tomou nenhum deles como estranho a ela, como um "ei, isso não me cabe!". Estar cheio de si pode ser "estar repleto de si mesmo". Seguindo com Han, estar cheio de si leva a que se fique "cansado de si mesmo".

De acordo com o filósofo alemão Peter Sloterdijk, nossa sociedade não conhece a necessidade e a gravidade, na medida em que há superprodução de tudo (embora, em muitos lugares, a sua distribuição seja profundamente desigual), associada a sistemas de bem-estar e à possibilidade de se requerer mais e mais liberdades. Temos tudo para voarmos como balões, subindo indefinidamente. Não há pesos necessários mas, por isso mesmo, há pesos escolhidos. A leveza é insustentável.

Paulo Ghiraldelli Jr., em "Para ler Peter Sloterdijk", conta de uma vez em que o Rei Luís XVI concedeu aposentadoria para o cabrito Montauciel e seus parceiros, um pato e um galo. No dia 19 de setembro de 1783, os três animais subiram em um balão a partir do pátio do Palácio de Versailles. Subiram e voltaram em segurança, e repetiram a façanha em outros lugares.

Aqueles que se preocupam com a falta de peso dos jovens que assistem à série temem que eles voem tão alto quanto a personagem suicidada. Sim, porque as treze razões enchem o eu de si mesmo, mas não o pesam. Pelo contrário! São treze insufladas de gás, que deixam o eu mais cheio, porém com mais capacidade anti-gravitacional.

A depressão da personagem não é a freudiana, paralisante, mas uma depressão que leva até o fim as razões que há em si mesmo. A personagem não tomou para si qualquer peso, pois nada a segurou. Há, nos que se preocupam, a lembrança de Laika. Durante a "corrida espacial", na competição contra os EUA, a URSS enviou para o espaço a cachorrinha Laika, numa viagem que se sabia sem volta. As razões dos responsáveis fizeram-na voar indefinidamente. A antecipação da morte de Laika não foi um peso, não interrompeu as intenções que levaram ao vôo.

Treze razões fizeram com que o poder de ação da menina da série fosse maior do que o de qualquer sujeito. Continuando com Sloterdijk, sujeito é aquele que tem duplos pensamentos. Da mesma forma como ele diz querer alguma coisa, e procura fazê-lo, em outro momento ele pode afirmar outra coisa, e realizar uma ação diferente. Portanto, não se pode confiar na sua capacidade de realização: ele não é um autômato, e pode não agir. Assim, curiosamente, é que é um sujeito!

A menina das treze razões não possui espaço para dar um passo atrás. Ela encheu-se de 13 pessoas diferentes, portanto iguais a ela. Ela é um eu, sem dúvida, mas não é um sujeito. As 13 razões a coagem. As razões e as pessoas que a insuflaram, a positivaram. Não a fizeram estranhar-se, não a negativaram. Falo isso sem ter assistido à série, pois é sobre essas coisas que os semi-leves têm comentado.

sábado, 8 de abril de 2017

Maneiras de lidar com o tesão do mundo


Um homem com idade próxima a 65 anos pode se relacionar com uma mulher de sua mesma idade. Com seus próprios amigos ele conversa sobre as mulheres em geral, fala do peitinho de uma, da bundinha de outra, que quer comer alguém, etc. Ele pode usar essas mesmas palavras com uma mulher com quem ele convive no ambiente de trabalho. Essa mulher pode rir dele, dizendo que ele não dá mais no couro, embora já tenha notícia de que existe o Viagra, e que, por isso, os homens mais velhos ainda estão trepando. Os que têm sorte, diga-se.

Aquele brincalhão é um desses que mandam bem? Ou é só um falastrão? Cada idade tem seu ideal, seus desafios e suas brincadeiras. O homem de 65 fala aquelas coisas como provocações. Caso das brincadeiras surja algum caso, tudo bem. Mas a intenção daquelas palavras é a de ser uma brincadeira picante.

Na minha idade, 35, a palavra picante já não existe. É a geração do pornô e das ficadas que, com sorte, dão em transa. Repare na mudança de palavras com relação aos de 65. Homens da minha idade não brincam daquela forma com mulheres de sua mesma idade. Com mulheres mais novas, menos ainda. Já com mais velhas, talvez ele brinque, quando elas lhe cobram ser homem.

Aos 35 se sabe que os mais novos do que 20 conversam de outra forma entre si, e também com eles, de 35. Entre essas idades, jamais se fala em sexo, exceto quando se é um professor ou um midiático que “representa um jovem”. Em outras situações, a conversa sobre sexo, entre essas idades, gera um clima de inadequação: um adulto se aproveitando de alguém inocente, influenciando.

Dos 20 para baixo a preocupação é grande em não ser influenciado por outros (os com mais de 30). Os garotos são os que mais fazem sexo, mas tambem são aqueles que menos querem isso exposto para os de fora. Por isso é que eles vestem moletons uniformizadores, que não dão a ver suas particularidades e, assim, não os expõem ao anzol do influenciador. Mas o influenciador sobre eles não tem poder. É só um chato.

Esses jovens estão alertas para se o tesão dos 30 anos não estupra alguém. São vigias de situações de violações, de influência. Essa adolescência vigilante perdura até além dos… 40! Nesses casos, a pessoa usa mais seu tempo vigiando e se queixando do tesão do mundo do que fazendo sexo, transando ou trepando.

Aos 20, um rapaz pega um outro rapaz, tão naturalmente quanto pega uma menina. Para ele, isso não é ser gay. Ele não sabe se é o caso de atribuir uma marca ao que rolou, pois um rótulo pesa. Às vezes ele está namorando uma menina, quando pegou o outro. Ninguém fica constrangido. É como um parque de diversões em que muito é permitido, mas no qual só se pode entrar quando se está abaixo de uma certa idade.

Um homem de 65 anos não é autorizado pelos menores de 20 a fazer parte do parque de diversões de tesão, destes. A não ser que seja como um professor, que reserva seu próprio tesão para os seus iguais. Um homem de 35 anos deve tratar aqueles mais novos como café com leite, em relação ao sexo, jamais investindo em relação a eles. Um homem de 65 anos, quando o faz, é visto como um vovô monstruoso. O de 35, como criminoso.

Os de 35 têm conhecimento do tesão dos de 65, mas querem o seu pudor, com relação a eles. “Um absurdo uma velha com roupa de novinha.” “Ridículo o vovô-garoto.” Quando estes de 35 ainda estão na adolescência, volto a dizer, tendem a ver não como inadequado, mas como monstruoso ou nojento o tesão aos 65.

Eu vejo homens de 65 falando da bundinha e do peitinho das mulheres, usando esse vocabulário que eu não uso. Usando-o em brincadeiras ousadas, feitas mesmo entre estranhos. Estas brincadeiras não deveriam ser perdidas, sob a pena de, ao adolescelentizarmos as conversas entre todos, criarmos medo em quem não é adolescente. E uma herança de infantilidade, para estes.

segunda-feira, 3 de abril de 2017

A inospitalidade: uma leitura de "Dom Casmurro", a partir de Peter Sloterdijk


Certo dia, os olhos de ressaca de Capitu mostraram-se para Bentinho: a onda que se lançou para a areia retornou arrastando tudo para dentro. Bentinho tentou segurar-se. Arrastado, entrou em Capitu. Percebeu a existência de um fluido misterioso e enérgico a atuar ali.

No livro “Esferas”, Peter Sloterdijk apresenta a teoria de Marsílio Ficino, filósofo florentino do século XV, sobre o enamoramento: dos olhos saem raios que, ao atingirem o alvo, permitem perceber os objetos. Quando dois seres humanos trocam olhares, o espaço entre os olhos torna-se um campo de irradiação de energias. O olhar mais forte injeta nos olhos do outro os próprios conteúdos. Um espírito vital, uma névoa muito fina de sangue vaporizado, invisível, assim é transferido. O sangue sai do coração do dono dos olhos fortes, na forma de vapor e, como uma flecha, atinge e penetra nos olhos daquele que se enamorará. Dentro deste corpo o sangue voltará a ser líquido, e então se alojará no coração como um enfeitiçamento ou uma infecção. O coração e todo o organismo do atingido passarão a querer ardentemente o dono daquele sangue.

A dona dos olhos de cigana oblíqua e dissimulada apaixona Bentinho. Em outro momento, Bentinho, sem qualquer experiência anterior, penteia os belos cabelos de Capitu. Faz-lhe um penteado. Por fim, dá-lhe um beijo nos lábios. Ambos afastam-se, de espanto. Bentinho quis acalmar Capitu, porém a mãe dela se aproximava. Então ele foi para o próprio quarto, e vibrou, comemorou. "Eu sou homem", ficou repetindo para si. Isso parecia indicar que ele não se submeteria mais às vontades da própria mãe. Dona Glória havia perdido o primeiro filho. Então prometeu a Deus que, caso lhe viesse um segundo, este seguiria carreira eclesiástica. Era chegada a hora de Bentinho ser enviado à revelia para o seminário. Ele não podia, enfim, evitar isso.

Aquele beijo é a mais doce das memórias do narrador Bentinho. "Os lábios aguçados envolvem o confeito, abandonam-no cerimoniosamente no espaço bucal onde a língua, com meneios impacientes, finalmente o recebe. A doçura se expande, se abre em um pequeno 'o' lisonjeador, para logo transformar toda a boca em uma bola doce que pulsa melosa e avidamente, e que se amplia para absorver cada vez mais. O próprio degustador se arredonda e continua existindo apenas como a periferia fina e cada vez mais tensa dessa esfera de doçura". (Citação de Friedrich Heubach, em Esferas, do Peter Sloterdijk, página 85).

O herói pos na boca o caramelo. Bentinho entrou na boca de Capitu, e passou a existir como um círculo dentro dela. O doce beijo fez um mundo oval, em que ambos passaram a co-habitar. Sloterdijk explica que o herói tem aversão ao adocicado. O gozo oral é inimigo do Grande Homem, daquele que sai de casa. O beijo de Capitu e Bentinho fez um mundo fora do tempo, para a habitação de ambos. Bentinho teve que ir ao seminário, onde passou alguns anos. Passou outros tantos anos na escola de direito, mas mas sua vida com Capitu não passava.

A mãe de Bentinho considerava que entregá-lo a Deus era uma forma de tê-lo. Com Capitu, Bentinho fazia promessas também para Deus, mas como para um terceiro, que compunha aquela união. Meter-se no tempo para envolver-se com Deus, e então ser de sua mãe, não lhe fazia sentido. A partir do interior da união fora do tempo, com Capitu, ele compôs-se com Deus.

Capitu não se dobrava à vontade de ninguém. A irritava o fato de Bentinho dobrar-se à vontade de sua mãe. José Dias uma vez acusou a dissimulação da moça. Capitu é um sujeito, sempre mantem suas intenções, mesmo que não as mostre. José Dias tenta ser sujeito, movendo-se para conseguir o que quer. No entanto, ele exibe as próprias intenções, só que com uma subserviência matreira. Bentinho não formula sua intenções por conta própria e, quando finalmente as têm formuladas, continua precisando do direcionamento de Capitu.

O narrador Bentinho fala das características de todos os personagens, mas deixa de dar as suas próprias. Voltou dos estudos, casou-se com Capitu. Sloterdijk fala do retorno do herói explorador ao lugar de onde ele veio: o interior de sua mãe. Dona Graça queria que Bentinho fosse padre ou advogado. Mas ela não o queria distante. A mãe acolhe de volta o filho que um dia saiu. O útero confere identidade, dá nascimento ao Grande Homem, um segundo nascimento. Mas o útero para o qual Bentinho voltou foi o de Capitu. Esse útero, porém, produz um outro filho, outro devido aos modos diferentes que apresenta. Fossem os mesmos modos de Bentinho, seria uma continuidade dele mesmo dentro da mãe. Com aquele filho, Bentinho não se identificava. Talvez nem pudesse, pois ele mesmo não completara sua gestação.

Diante da porta da caverna, a vagina de Capitu, Bentinho estacou. De onde veio aquele outro, que lhe atrapalhava o nascimento? Bentinho já havia percebido os olhares de Capitu aos jovens, na rua. Na Odisseia, Ulisses, em seu retorno a Ítaca, deu uma pausa de sete anos, tempo em que viveu com a ninfa Calipso. Ele havia enfrentado a longa e dolorosa guerra de Tróia. No retorno, escapou de gigantes comedores de carne humana e de mares perigosos. Agora a bela ninfa lhe oferecia descanso eterno, vivendo de sua glória na guerra. Ulisses, porém, sofria com saudades de casa. Ele precisava voltar, como que para realmente existir, ser o homem que fizera aquilo tudo que os aedos já cantavam. Ele sabia que se prosseguisse viagem enfrentaria outros perigos. Se ele ficasse, poderia viver para sempre, mas não teria nascido.

Ulisses, então, empreende o caminho de volta, enfrentando perigos maiores do que poderia imaginar. A deusa Atena sempre o acompanha. Quando ele chega em Ítaca, Atena o disfarça de mendigo, deixando-o irreconhecível para todos que conheceram há 20 anos, o tempo total em que ele passou fora. Aos olhos de todos ele não era ninguém, por isso um observador privilegiado para saber quem respeitava sua honra, ou seja, quem profanava seu útero. Encontrou diversos homens maltratando seu filho, Telêmaco, também gastando à vontade os seus bens e insistindo afrontosamente para que Penélope, a mulher dele, os desposasse. Cuidadosamente, Ulisses prepara sua vingança, e a executa sangrentamente. Assim, Ulisses presentifica sua lenda. Não é o "felizes para sempre", de uma história, a realização do segundo nascimento de um herói? Nascimento enquanto afirmação de identidade?

Bentinho viu à distância pretendentes de Capitu, mas nenhum se aproximava. Quando nasceu o Filho do Homem, nome que José Dias atribuíra Ezequiel, Bentinho não soube contra quem lutar. O resultado das outras trocas de olhares de Capitu, as quais ele não sabe direito o que houve, estava ali, diante dele. "Uma ponta de história, o início, não se atava à outra, o final".

Importa a este texto a dificuldade de Bentinho em nascer novamente, em ser Um Homem. Não importa, aqui, se Capitu o traiu ou não o traiu. Bentinho enviou-a, com o filho, para a Suíça, onde ela passou o resto dos seus dias. Bentinho lembra com muito carinho da menina que o capturou. A Capitu adulta está embaixo da terra. Este útero que não pode lhe dar nascimento.

Mesmo depois de adulto, Bento Santiago ainda era Bentinho.


Imagem:"Os Amantes de Veneza", de Paris Bordonne, século XVI.

domingo, 26 de março de 2017

Ponha-se em um lugar melhor


Acompanho como psicólogo um jovem de 16 anos. Todos os dias de manhã ele está na escola, cursando o segundo ano do segundo grau. Às tardes ele revisa as matérias, faz exercícios, estuda para as provas. Em tudo isso eu o ajudo. Cada atividade dessas ocorre entremeada a uma gesticulação e comportamentos pertencentes a um mundo particular dele. Mundo particular todos temos, e sempre a partir deles é que agimos. Mas V., assim como outros autistas, interrompe qualquer atividade que lhe solicitem, ou nem a começa, para fazer o que ele sugere a si mesmo. Mas, só fazemos o que sugerimos a nós mesmos. Para o filósofo alemão Peter Sloterdijk, sujeito é aquele que se autoconsulta e então se autodesinibe. Qual a particularidade do autista? Talvez seja que a voz interna dele fique distante das outras vozes, que não são dele. E que ela seja autoritária.

Na matéria Literatura, o professor dita a teoria, recita a poesia, empolga-se ao falar sobre romantismo, realismo e naturalismo. Ele diz que aquela turma é animada, amiga e mal comportada. Ele chama o V. para falar o que pensa da turma.V. o realiza. O professor pergunta se os alunos o ouviram bem. "Isso foi dedicado a vocês", e uma lágrima lhe corre as entradas do rosto.

A coordenadora da Educação Especial, na escola, determinou que o V., por seu aprendizado mais lento do que o dos outros, e o tempo maior que leva para fazer uma prova, fizesse metade das provas neste momento e a outra metade faltante quando viesse o segundo período de provas. Vinícius tem estudado comigo na véspera para responder à prova do dia seguinte. Algumas noites ele está agitado, incomodado, bufa. Outras nem tanto, e me expulsa de sua casa sorrindo. Sorrindo, no dia seguinte ele chega, e anda pela escola e logo senta. Noutros dias entra correndo, com todo o seu mal estar, dando pequenos gritos.

A mãe diz do ano passado, em que eu não estive com ele (as pessoas sempre falam de um passado mítico, a um interlocutor que não o viveu), que V. cumpriu todas as provas e terminou o ano em completo surto. O psiquiatra até proibiu novas exigências. A mãe não quer de jeito nenhum isso acontecendo de novo, e diz que neste ano já tem havido um crescente mal-estar por parte dele. Eu retruco, com a observação de que ocorre uma renovação de um dia para o outro, e de um final de semana para a segunda-feira.

O professor de Literatura, ao saber que não estava programado que V. fizesse a prova dele, pediu para que eu arrumasse de ele fazer a prova. Levando o assunto à mãe, prontamente foi recusado pois, ela disse, as provas são todas estressantes para ele. Além disso, as matérias se encontram acumuladas, e fazer mais uma prova significa perder mais um dia de aula e de estudo à tarde. Uma palavra que define o professor de literatura, coloquei à mãe, é "amoroso". O amor pode ter uma definição bem simples: é alguma coisa que leva alguém a querer algo, assim como o ódio é alguém não querer algo. O professor quer os alunos, e sua prova é um presente, um mimo. Não é uma prova para que se prove, mas para que se prove, experimente-se, tenha-se prazer.

A mãe falou que, para V., a escola, os exercícios e as provas são coisas mecânicas. Uma ideia do Sloterdijk eu falei (e é a segunda que aparece aqui), adaptada à situação de fala: todo homem é dado a fazer algo como um exercício, de modo que amanhã o faça melhor. Ressaltei o "todo", incluindo, então, os autistas. No começo de sua carreira de psicóloga, ela disse, passava 10 horas por dia trabalhando em escritório. Saía correndo de lá, para atender. Aquele trabalho ela não queria fazer melhor, ela disse. Se ela fizesse pior, demoraria mais tempo, eu disse. Também seria penoso para ela o dia em que demorasse mais no percurso entre o trabalho e o consultório. Ou então, tal trabalho era mesmo miserável, não oferecia nenhum ganho humano para ela.

Nenhum exercício é pouca coisa, é um mero exercício. O homem é um ser de exercício. A miséria da mãe não tem que ser a do filho. A mãe diz que um problema que eu tenho é não me colocar no lugar de V.. Em que lugar me coloco? Não trabalho para que V. não surte. Trabalho para que ele, após fazer um exercício, sorria. Isto já aconteceu. Trabalho para que ele tenha experiências, momentos prazerosos e interesse pela escola. Muito se diz, com o nome de psicologia, em colocar-se no lugar do outro. É um senso comum. Prefiro me por num lugar melhor.

"V., você quer fazer prova de literatura?", pergunta a mãe ao filho. "Eu quero." "Você quer fazer a prova de literatura depois das outras?", nova pergunta. "Aí não. Não quero fazer no mesmo dia." Esta pergunta o confundiu. "Não, fazer em um outro dia?" "Ah, quero.". Sugeri que ela perguntasse ao filho porque ele quer. "Quero ficar mais esperto".